O guitarrista que Jimmy Page apontou como o maior de todos
Por Bruce William
Postado em 20 de maio de 2026
Jimmy Page não precisava elogiar Jimi Hendrix para parecer generoso. Quando Hendrix chegou a Londres, em 1966, Page já era um guitarrista respeitado, vinha de anos como músico de estúdio e logo estaria em uma das transições mais importantes de sua vida, saindo dos Yardbirds para construir o Led Zeppelin. Mesmo assim, para ele, havia algo em Hendrix que não cabia numa disputa normal entre guitarristas.
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A cena britânica da época já estava cheia de nomes fortes. Eric Clapton era tratado quase como entidade religiosa por parte do público, Jeff Beck havia passado pelos Yardbirds e uma geração inteira tentava levar o blues para outro lugar. A chegada de Hendrix mexeu com esse ambiente porque ele não parecia apenas mais um guitarrista americano talentoso. Ele subiu ao palco como se trouxesse outra regra física para o instrumento.
Page resumiu essa admiração em uma frase pesada, em um tipo de declaração que ganha outro peso vindo de alguém que também aparece, com frequência, em listas de maiores guitarristas da história. Page não estava falando de um rival distante, mas de alguém que, aos seus olhos, havia aberto uma dimensão própria, conforme fica registrado pela fala dita à Rolling Stone e resgatada pela Far Out: "Perdemos o melhor guitarrista que qualquer um de nós já teve, e esse foi Hendrix."
O mais irônico é que Page perdeu alguns dos momentos decisivos em que Hendrix abalou Londres. Ele não estava no London Polytechnic quando Hendrix apareceu em um show do Cream e tocou "Killing Floor", deixando músicos da plateia em estado de choque. Quem contou a ele foi Jeff Beck, impressionado com aquele guitarrista que subira ao palco e pegara todo mundo de surpresa. Page queria ver aquilo com os próprios olhos, mas compromissos de estúdio e turnês foram adiando o encontro.
Anos depois, ele lamentou essa sequência de desencontros. Page contou que, depois de uma turnê do Led Zeppelin, voltou a Londres e Hendrix tocaria no Royal Albert Hall na noite seguinte. Estava cansado, pensou que teria outra chance e deixou para depois. "Para mim, não haveria uma próxima vez", disse. A frase carrega aquele peso estranho de oportunidade perdida, ainda mais porque Hendrix morreria em 1970, com apenas 27 anos.
Page chegou a vê-lo uma vez, em um clube chamado Salvation, em Nova York. Hendrix estava do outro lado da sala, com algumas pessoas. O guitarrista do Zeppelin pensou em se aproximar para pedir desculpas por ter perdido o show de Londres, mas percebeu que Hendrix parecia meio desgastado e preferiu esperar por uma ocasião melhor. De novo, a ocasião melhor nunca veio. É quase cruel: dois nomes fundamentais da guitarra estiveram no mesmo lugar, mas a conversa ficou para uma próxima página que não foi escrita.
A admiração de Page não vinha apenas da técnica. Muitos guitarristas depois de Hendrix tocaram mais rápido, estudaram mais escalas, levaram a precisão a níveis absurdos. Mas Hendrix fazia outra coisa. Feedback, distorção, wah-wah, ruído, silêncio e ataque viravam parte da expressão. Ele não parecia usar efeitos para enfeitar a música; parecia conversar através deles. A guitarra não era só instrumento, era extensão do corpo, da imaginação e de uma inquietação que ninguém conseguia domesticar.
É por isso que a fala de Page continua forte. Ele não estava medindo Hendrix como quem compara currículo, número de discos ou solos famosos. Estava reconhecendo um ponto de ruptura. Page ajudou a levar o rock pesado a outro patamar com o Led Zeppelin, mas sabia que Hendrix havia feito algo anterior e diferente: mostrou que a guitarra elétrica podia ser um território sem cerca. Para um músico como Jimmy Page dizer que Hendrix foi "o melhor que qualquer um de nós já teve", não é apenas elogio. É quase um acerto de contas com a história.
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