A música que até o Led Zeppelin achou complicada demais para levar ao palco
Por Bruce William
Postado em 18 de maio de 2026
Antes de virar faixa escondida no meio do quarto álbum do Led Zeppelin, "Four Sticks" teve uma função bem menos gloriosa dentro da banda: testar a paciência de John Bonham. A música não era longa como "Dazed and Confused", nem tinha a fama monumental de "Stairway to Heaven", nem virou pedrada obrigatória de rádio como "Black Dog". Mas, dentro do estúdio, ela parece ter dado um trabalho que pouca gente imaginaria ao ouvir o resultado final.
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O problema não era falta de capacidade. Bonham podia fazer uma bateria parecer uma construção desabando em ritmo perfeito, e o Zeppelin tinha músicos de sobra para encarar quase qualquer ideia. A questão é que "Four Sticks" não anda do jeito mais confortável. A música parece girar em volta de si mesma, com um riff insistente, mudanças de acento e uma sensação de transe meio torto. Para quem tocava muito pelo instinto, aquilo podia ser mais traiçoeiro do que uma peça tecnicamente "difícil" no sentido convencional.
John Paul Jones explicou essa encrenca de um jeito bem revelador, relata a Ultimate Classic Rock. Segundo ele, Bonham demorou para pegar a música porque a contagem não era óbvia. "Levou séculos para ele entender 'Four Sticks'. Eu parecia ser o único que conseguia realmente contar as coisas. Page tocava algo e [John] dizia: 'Isso é ótimo. Onde está o primeiro tempo? Você sabe, mas precisa nos dizer...' Ele não conseguia realmente contar o que estava tocando."
Bonham não era um baterista acadêmico, desses que parecem resolver a música com régua e quadro-negro. Ele tocava pelo corpo, pelo peso, pela respiração da banda. Na maioria das vezes, isso fazia o Zeppelin soar maior do que a soma das partes. Em "Four Sticks", porém, o mesmo instinto precisou encontrar um caminho dentro de uma estrutura menos natural, e o estúdio virou uma espécie de cabo de guerra entre feeling e contagem.
A frustração acabou gerando outra música. Conforme a Far Out, durante as sessões, depois de tentativas cansativas com "Four Sticks", Bonham começou a tocar algo inspirado em "Keep A-Knockin'", de Little Richard, como quem desconta a irritação batendo mais reto e mais forte. A banda entrou junto, Ian Stewart apareceu ao piano, e dali nasceu "Rock and Roll", uma das faixas mais diretas e celebradas do mesmo álbum. Ou seja: a música complicada que quase emperrou a sessão ajudou, por tabela, a parir uma das coisas mais simples e explosivas do Led Zeppelin.
O título "Four Sticks" também veio de uma solução física para o problema. Bonham tocou a faixa segurando duas baquetas em cada mão, quatro ao todo, buscando uma sonoridade diferente para atravessar aquele padrão. O som meio seco e batido das baquetas aparece como parte do caráter da gravação, não como enfeite. É uma daquelas ideias que parecem maluquice de estúdio até funcionar, e então todo mundo passa a tratar como se fosse óbvia desde o começo.
Mesmo resolvida em disco, a música nunca virou peça de palco. O registro mais conhecido e confirmado de "Four Sticks" ao vivo com Bonham vem de Copenhague, em 3 de maio de 1971, meses antes do lançamento oficial de Led Zeppelin IV. Depois disso, ela praticamente desapareceu dos shows da banda. Não por falta de ambição, porque o Zeppelin improvisava, esticava músicas e encarava versões enormes sem muito pudor. Mas algumas faixas simplesmente dependiam de uma arquitetura que não combinava tanto com a pancadaria mutante dos concertos.
"Four Sticks" acabou ficando nesse lugar estranho e interessante do catálogo: uma música de álbum gigantesco que nunca virou hino popular, mas que funciona quase como senha entre fãs mais atentos. Ela mostra o Led Zeppelin sem pose de invencível, tentando domar uma ideia que escapava pelos cantos, até encontrar uma forma possível. Bonham saiu da briga com quatro baquetas na mão, "Rock and Roll" nasceu no caminho, e a banda provavelmente percebeu que certas encrencas ficam melhores quando não precisam ser repetidas toda noite diante de uma plateia.
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