Jimmy Page renega o álbum apontado como seu favorito do Led Zeppelin
Por Bruce William
Postado em 25 de junho de 2026
"Presence" ocupa um lugar estranho dentro da discografia do Led Zeppelin. Lançado em 1976, o álbum não tem a aura monumental de "Led Zeppelin IV", nem a variedade quase enciclopédica de "Physical Graffiti". Também não é o disco que costuma aparecer primeiro quando alguém tenta explicar a grandeza da banda. Mesmo assim, há quem enxergue nele uma das obras mais intensas do grupo.
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O contexto ajuda a entender esse peso. Robert Plant ainda se recuperava do grave acidente de carro sofrido em Creta, em agosto de 1975, que o deixou com ferimentos sérios na perna e no braço. A rotina do Led Zeppelin, que dependia de turnês gigantescas e energia física quase sobre-humana, foi jogada em outro ritmo. Sem saber exatamente como tudo terminaria, a banda se reuniu para compor em Malibu e depois gravou no Musicland Studios, em Munique.
Jimmy Page rejeita a ideia de que "Presence" seja necessariamente seu álbum favorito do Led Zeppelin. Para ele, cada disco representa uma etapa diferente da trajetória do grupo. Mas o guitarrista reconhece que aquele trabalho nasceu em circunstâncias especialmente pesadas. "Não sei por que acham que é meu álbum favorito; não tenho um álbum favorito, porque todos significam coisas diferentes dentro de toda a jornada do Led Zeppelin", disse para a Classic Rock.
Page descreveu "Presence" como um disco muito escuro e intenso. E não era apenas uma impressão musical. A banda gravou e fez overdubs em cerca de três semanas, com os Rolling Stones esperando para usar o mesmo estúdio depois. Page chegou a pedir alguns dias extras, aproveitando o fato de os Stones estarem ocupados testando guitarras. A brecha foi suficiente para ele terminar o que ainda precisava ser feito.
Nesse período, o trabalho ficou concentrado em Page e no engenheiro Keith Harwood. A rotina era quase militar: quem acordasse primeiro chamava o outro, e os dois seguiam direto para o estúdio para gravar camadas de guitarra e depois mixar. Mick Jagger estava no mesmo hotel, e Page foi agradecer pelo tempo cedido no estúdio. Quando Jagger perguntou o que ele havia feito, a resposta foi simples: um álbum.
Page contou que colocou "Nobody's Fault But Mine" para Jagger ouvir. A canção tinha raiz no blues, mas o Led Zeppelin a transformou em algo muito mais pesado, elétrico e ameaçador. Segundo o guitarrista, Jagger ficou bastante surpreso com o resultado. Dá para imaginar: não era exatamente uma releitura comportada de blues antigo. Era o Zeppelin comprimido, tenso e afiado.
O guitarrista também fez questão de dizer que, embora gravar um disco em três semanas fosse exceção, o Led Zeppelin nunca foi uma banda lenta em estúdio. Se uma música não funcionava, eles abandonavam aquela tentativa e partiam para outra. Page associou essa postura aos seus tempos como músico de estúdio: "Você sabe quando a faísca está lá e sabe quando ela se foi. Não há sentido em continuar, especialmente se você tem outras músicas para fazer."
Entre as faixas do disco, Page destacou "Tea for One" como algo excepcional. Para ele, a música foi gravada de maneira objetiva, em poucos takes, com uma performance vocal tremenda de Plant. O detalhe não é pequeno: o vocalista estava longe de casa, com a perna engessada, lidando com dor, incerteza e limitação física. Mesmo assim, entregou uma interpretação que Page ainda trata com admiração.
Quando perguntado se estava particularmente fora de si durante as gravações de "Presence", Page respondeu com humor, mas também com firmeza. "Eu estava dentro daquilo. Estava seriamente focado. Você não faz música assim, em tão pouco tempo, caindo bêbado pela rua. Você faz isso quando está cem por cento focado."
A frase desmonta uma parte da mitologia fácil do Led Zeppelin. Sim, a banda carregava uma fama enorme de excessos, festas e caos. Mas "Presence" não soa como obra de gente distraída. Pelo contrário: é um disco seco, urgente, quase sem ornamentos, dominado por guitarras e por uma sensação de tensão contínua. Não há teclados, não há grandes respiros acústicos, não há o luxo expansivo de outros momentos da banda.
Talvez por isso o álbum continue dividindo opiniões. Para alguns, falta a variedade dos grandes clássicos do Zeppelin. Para outros, justamente essa concentração faz de "Presence" uma peça especial. É o som de uma banda cercada por problemas, sem tempo sobrando e sem muito espaço para enfeite. Page parecia no comando de uma operação de emergência, tentando transformar pressão em música antes que a porta do estúdio se fechasse.
"Presence" pode não ser o disco mais amado do Led Zeppelin, mas é um dos que melhor mostram a banda trabalhando no limite. Robert Plant cantando machucado, Page empilhando guitarras em ritmo brutal, o relógio correndo e os Rolling Stones esperando na fila. Não parece exatamente a receita ideal para um clássico confortável. Mas o Led Zeppelin raramente foi grande por conforto.
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