A música do Led Zeppelin que Jimmy Page achou que todos entenderiam, mas que nada!
Por Bruce William
Postado em 23 de junho de 2026
Led Zeppelin nunca foi uma banda muito preocupada em explicar suas próprias curvas. O grupo podia sair de um blues pesado para uma balada folk, entrar em delírios épicos, brincar com referências literárias e ainda deixar uma margem generosa para o público enxergar mistério onde às vezes havia apenas instinto musical. Em alguns casos, a confusão virava parte do encanto. Em outros, a coisa ficava mais esquisita.
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"D'yer Mak'er", lançada em 1973 no álbum "Houses of the Holy", pertence a essa segunda categoria. No meio de um disco que também trazia faixas como "The Song Remains the Same", "The Rain Song", "Over the Hills and Far Away" e "No Quarter", aquela mistura de reggae com clima retrô parecia ter entrado pela porta errada. Não era pesada como o Zeppelin mais conhecido, nem mística, nem grandiosa. Era uma brincadeira de estúdio que acabou virando faixa oficial.
O título já carregava uma piada. "D'yer Mak'er" soa como "Jamaica" quando dito com certo sotaque britânico, e a música tentava justamente atravessar esse território, juntando um balanço inspirado no reggae a uma atmosfera de doo-wop e pop dos anos 50. A ideia, no papel, era simples: não se tratava de ocultismo, mensagem secreta ou grande manifesto estético. Era o Led Zeppelin se divertindo com uma combinação pouco provável.
Só que muita gente não embarcou, relembra a Far Out. A imprensa da época estranhou a faixa, e parte do público também nunca soube muito bem onde colocá-la dentro do repertório da banda. Para quem esperava riffs monumentais, peso ou dramaticidade, "D'yer Mak'er" podia soar leve demais, quase deslocada. Para quem tentava levá-la como reggae de verdade, também havia uma distância considerável entre a intenção e o resultado.
John Paul Jones chegou a demonstrar certo arrependimento por a música ter sido lançada. Segundo ele, a faixa nasceu praticamente de uma jam de estúdio e talvez devesse ter ficado nesse ambiente, como uma ideia casual, não necessariamente como peça de um disco. É um comentário que ajuda a entender por que "D'yer Mak'er" sempre pareceu meio solta: ela tem mais cara de experimento espontâneo do que de composição lapidada até o último detalhe.
Jimmy Page, no entanto, defendeu a música. Para ele, a proposta era clara o bastante, e a reação de incompreensão o surpreendeu. "Eu não esperava que as pessoas não entendessem. Achei que era bastante óbvio. A música em si era um cruzamento entre reggae e uma coisa dos anos 50, 'Poor Little Fool', coisas do Ben E. King, esse tipo de material."
A explicação de Page mostra que a faixa não nasceu como tentativa séria de "virar reggae" ou como reinvenção ambiciosa do Led Zeppelin. Era um cruzamento de referências: um pouco da cadência jamaicana, um pouco do romantismo pop antigo, tudo filtrado pela maneira peculiar como a banda tocava. O problema é que, quando uma banda do tamanho do Led Zeppelin brinca, o mundo tenta transformar a brincadeira em tese.
Talvez "D'yer Mak'er" tenha sido mal recebida justamente porque não parecia querer ser tão importante. O Zeppelin já tinha criado um universo próprio, cheio de peso, sombra e grandeza. Uma faixa com esse espírito mais solto, quase de piada musical, ficava parecendo menor ao lado das construções mais imponentes da banda. Não por acaso, até hoje ela costuma dividir opiniões.
Ainda assim, há algo revelador nessa estranheza. "D'yer Mak'er" mostra um Led Zeppelin menos monumental, mais disposto a testar uma ideia sem garantir que ela caberia perfeitamente no mito. Pode não estar entre os grandes momentos do grupo, e talvez nem quisesse estar. Mas é uma daquelas faixas que lembram que até bandas gigantes também entram no estúdio para brincar - e às vezes a brincadeira escapa para o disco.
Para Page, a combinação era fácil de entender: reggae, anos 50, Ben E. King, um pouco de humor britânico no título. Para o público, nem tanto. O resultado ficou como uma das músicas mais peculiares do Led Zeppelin, um caso raro em que a banda não foi mal interpretada por excesso de mistério, mas talvez por ter tratado uma piada musical como algo simples demais para um público acostumado a procurar trovões em cada acorde.
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