O estilo musical que Geddy Lee considera uma aula sobre como tocar baixo
Por Bruce William
Postado em 05 de setembro de 2026
Geddy Lee passou boa parte da carreira mostrando que o baixo não precisava ficar escondido atrás da guitarra. No Rush, o instrumento frequentemente assumia função melódica, criava contrapontos e ocupava espaços que em outras bandas seriam deixados para uma segunda guitarra. Parte dessa visão, porém, nasceu ouvindo música bem distante do repertório pelo qual o trio canadense ficaria conhecido.
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Uma dessas escolas foi a Motown. Em entrevista concedida à Canadian Musician em 1999, Lee explicou que, conforme envelheceu, passou a se interessar menos pela velocidade ou dificuldade técnica de uma linha e mais pela maneira como o baixo podia acrescentar uma segunda melodia à música.
É nesse contexto que ele menciona clássicos como "My Girl", dos Temptations. "Os antigos caras da Motown escreviam melodias maravilhosas, melódicas e contagiosas, que você não conseguia tirar da cabeça", afirmou. Para Geddy, aquelas linhas acabaram se tornando parte fundamental da própria razão pela qual determinadas músicas permaneceram tão memoráveis.
A observação ajuda a explicar sua admiração por James Jamerson, músico de estúdio responsável pelo baixo em uma quantidade enorme de gravações da Motown. Anos depois, Geddy colocaria Jamerson entre seus grandes referenciais e destacaria justamente sua capacidade de conduzir uma música por meio de uma melodia alternativa, sem disputar espaço com o vocal.
Essa ideia aparece de maneira bastante clara na própria maneira como Lee enxergava o instrumento. Na entrevista à Canadian Musician, destacada pela Far Out, ele compara o baixo a um instrumento melódico que trabalha abaixo da superfície da canção. A escolha das notas, segundo ele, pode alterar drasticamente o clima de uma música, mesmo quando o ouvinte não percebe conscientemente o que o baixista está fazendo.
Curiosamente, o mesmo raciocínio aparece quando Geddy fala de Paul McCartney. Ele não considerava o Beatle um instrumentista excepcional do ponto de vista puramente técnico, mas admirava enormemente as partes que escrevia para cada música. McCartney, por sua vez, já apontou o próprio Jamerson como sua maior influência no baixo - uma ligação que mostra até onde a escola da Motown se espalhou.
No caso do Rush, essa influência nunca significou tentar soar como a Motown. O que Geddy absorveu foi outra coisa: a possibilidade de o baixo cumprir sua função rítmica sem abrir mão de uma melodia própria e memorável. É uma ideia fácil de reconhecer em boa parte das linhas que ele criou ao longo da carreira.
E talvez esteja aí o principal ensinamento que ele tirou daqueles discos. Para Geddy Lee, técnica era importante, mas aprender a tocar rápido não bastava. Quanto mais um baixista estudasse melodia, melhor seria seu gosto - e maior a capacidade de usar toda aquela técnica a serviço da música.
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