George Frizzo e outros: Siege of Hate Em Rota de Colisão

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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Nem tudo no underground brasileiro é só barulho. Há momentos também em que é preciso calma e silêncio. Momentos assim são necessários, por exemplo, para refletir sobre a mensagem que esta ou aquela música quis deixar, ou para ler um livro sobre o principal tema abordado em um disco. Quem não se viu mais interessado na história do Egito, seus deuses e faraós, depois de ouvir o "Powerslave", do IRON MAIDEN? E quanto à mitologia escandinava? Você vai negar que depois de ouvir bandas como MANEGARM, THYR e afins não foi ler (ou reler) algo sobre a religião Viking, sobre Odin, Thor, Freya... A relação da música extrema com a literatura também aparece nas inúmeras bandas que se inspiraram (algumas quase totalmente) nos escritos de H.P.Lovecraft ou J.R.R. Tolkien.

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E quando o livro que está sendo lido trata especificamente do underground a aventura da leitura torna-se ainda mais cativante. É o caso de "Siege of Hate - Em Rota de Colisão", livro publicado em 2017 pelo selo Grind Ages com quatro aventuras da banda cearense SIEGE OF HATE (também conhecida como S.O.H) na Europa e na América do Sul. Escrita principalmente por George Frizzo, baixista da banda, mas com contribuições pontuais de Bruno Gabai (vocal e guitarra) e Lucas Gurgel (da CLAMUS), com introdução de Leonardo Panço (do JASON), a obra conta como foram cada uma das principais turnês do SOH. A primeira turnê europeia, em 2009, arrumada de forma completamente independente e na base do D.I.Y. faz com que o próprio leitor se sinta em turnê, junto com Frizzo, Gabai e Saulo Oliveira (baterista), passando pela primeira vez por países como Portugal, Alemanha, Áustria, Itália, França e mais alguns do Leste Europeu. É um texto delicioso de ler, principalmente se você tem banda e sonha fazer algo parecido, rodar o mundo com seus amigos, bebendo e tocando todas as noites, ou mesmo se tem aptidões de ser um simples mochileiro. Embora o texto peque um pouco ao não deixar claro exatamente qual dos três autores está contando sua história ao leitor, é possível sentir na pele todas as emoções que o trio de grind core (transformado em quarteto com a adição de Gurgel ao line up da turnê), o deslumbramento que qualquer turista deve sentir, os perrengues, o medo, a ansiedade, a amizade, a cumplicidade, os contratempos e situações inesperadas (nem todas boas), as dormidas (nem sempre em locais, digamos, minimamente confortáveis), as bebidas esquisitas e as comidas estranhas, todo o contato com outro mundo, outras culturas. Para quem realmente quer ter uma banda que rode o globo, a primeira parte de "Em Rota de Colisão" serve como livro didático. Veja o que eles fizeram certo e tente repetir. Veja onde erraram (sim, nem tudo saiu como planejado) e procure evitar. Cometa os seus próprios erros.

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Para a segunda turnê europeia, em 2013, divulgando o excelente "Animalism", o trio/quarteto queria algo mais organizado e tranquilo. Por isso, deixaram boa parte dos preparativos nas mãos da booking agency Roadmaster, de Vlad Suszjevic e Dario Turcan, da banda croata WAR-HEAD. Desta vez, os cearenses também teriam a companhia dos cariocas da banda de stoner STATIK MAJIK. Se queriam menos aventura, isso foi exatamente o contrário do que conseguiram. Frizzo chega a comentar que a turnê até poderia se chamar "Losing Money Tour", caso o nome já não tivesse sido usando antes pela já citada aqui JASON. Assim como na primeira parte do livro, cada um dos shows, as viagens (muitas vezes de umas boas centenas de quilômetros) entre um venue e outro, é destrinchado aqui, mas a leitura é bastante agradável. Agora ainda mais, uma vez que é perceptível o amadurecimento no estilo de escrita de Frizzo nos quatro anos que separam ambas as turnês (talvez até porque enquanto na primeira parte do livro, o que haviam eram meros relatos de viagem, uma espécie de diário, enquanto aqui a intenção de que os relatos se tornassem na obra presente já era clara e consolidada). Mais uma vez, com uma outra abordagem, esta parte do livro é essencial para quem tem banda e quer desbravar o velho mundo. É livro didático. Não repita os seus próprios erros. Cometa outros.

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George Frizzo. Foto: André Rocha.
George Frizzo. Foto: André Rocha.

A terceira e quarta parte do livro são como as turnês que elas abordam. Bem menores e um tanto sem nos deixar tão boquiabertos, até porque a própria banda não estava assim. Mais madura, correndo menos riscos e em seu próprio país, a SOH percorreu algumas capitais brasileiras divulgando o EP "Brave New Civil War" em 2015. Depois foram convidados para abrir os shows da Tour Sudamerica 2016, da EXTREME NOISE TERROR ("os mais punks do mundo, segundo João Gordo), junto com a NERVOCHAOS e DESECRATION, passando por Chile, Argentina e Peru, além do próprio Brasil. Na turnê, além de abrir os shows da E.N.T. o clima de camaradagem aumentou tanto que Bruno Gabai passou a dividir os vocais com Dean Jones em algumas músicas. Assim como nas outras partes, cada show (e tudo o que vem antes e imediatamente depois) é um pequeno capítulo, mas jamais uma resenha do show. Ficaria extremamente entediante ler umas quarenta resenhas, muitas com setlists parecidos. Quem faz resenha é quem está do outro lado do palco, atento a outro tipo de detalhes, criticando se uma guitarra pareceu baixa demais, mas sem saber de uma porção de circunstâncias do backstage, que até pode ter rodado um bocado pra ver aquele show, mas, que ao final do dia (ou ao nascer do Sol) vai dormir em uma cama quentinha e confortável. Aqui, mais maduros, mais velhos, os caras tiveram turnês mais tranquilos, mas ainda dá pra aprender um tanto. Cometa erros. Sem erros a vida não tem graça.

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O livro também é rico graficamente, com cartazes de shows, fotos (ok, muitas vezes as páginas em que algumas fotos e cartazes estão bem que poderiam ser coloridas) distribuídos harmoniosamente (se é que dá pra falar que cartazes cheios de monstros bisonhos podem estar em harmonia com alguma coisa) entre uma parte e outra. O projeto gráfico é também do próprio Frizzo, que também é artista gráfico. Há também espaço para uma breve participação do cartunista Guabiras, com uma impagável historieta em quadrinhos retratando uma das turnês.

Um efeito colateral da leitura do livro é tomar conhecimento de um número enorme das bandas que cruzaram o caminho da SIEGE OF HATE nestas turnês. Além, obviamente, da E.N.T e STATIK MAJIK, com quem realmente dividiram turnês, da CLAMUS (de onde saiu o guitarrista Lucas Gurgel, co-autor do livro) e da WAR-HEAD, dos croatas músicos, agentes e motoristas Vlad e Dario, em cada show a SIEGE OF HATE tocou com pelo menos uma banda local ou que coincidente estivesse em turnê também por aqueles lados. Eu, particularmente, busquei algumas no Spotify e recomendo. Só me arrependi de não ter feito isso desde o começo da leitura. Tem umas pauladas boas. Uma das que mais curti foi a GERK, banda de crustcore bem bacana da Argentina.

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"Siege of Hate em Rota de Colisão", Grind Ages, 200 páginas, 38 mil quilômetros, pode ser adquirido de diversas formas, principalmente com a própria banda através dos endereços abaixo. O evento de lançamento é neste domingo, 29 de julho, no Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura como parte da edição 2018 do festival ForCaos

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A SIEGE OF HATE é:
Bruno Gabai, voz e guitarra.
George Frizzo, baixo.
Eduardo Lino, bateria.

https://www.facebook.com/siegeofhate
[email protected]

Leia um trecho do livro no ISSUU:

https://issuu.com/frizzo/docs/soh_em-rota-de-colisao_grindag...

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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