Comando Nuclear: guerreiros da noite na terra da luz

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Por Leonardo M. Brauna
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O COMANDO NUCLEAR conquistou o respeito dos Headbangers logo no primeiro lançamento, ‘Batalhão Infernal’ de 2006. Depois desse primeiro ‘full length’ a banda se enveredou pelo Brasil até que em 2011 o segundo álbum, ‘Guerreiros da Noite’ foi lançado mostrando uma banda mais coesa, porém com energia preservada. A banda hoje é formada por RON CIGNUS (vocalista), RODRIGO ‘EXCITER’ BERSOGLI (baixista), ÉRIC WÜRLZ e REX (guitarristas) e o mais novo integrante, HUGO GOLON (baterista). Conversei com um dos fundadores, Rodrigo, que contou detalhes da trajetória do grupo bem como o desenvolvimento de material inédito e demais assuntos ligados ao underground.

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A banda foi formada em 2004 com a proposta de manter viva a herança ‘OldSchool’ do ‘Heavy Metal’ brasileiro. Depois do lançamento da demo autointitulada em abril de 2005 os caminhos se abriram até exatamente um ano depois com o ‘Debut’ ‘Batalhão Infernal’. Como foi a trajetória de vocês durante essas três primeiras fases?

Rodrigo ‘Exciter’ Bersogli: A formação do Comando Nuclear, na verdade, teve início com a banda Warage, em 2000/2001. Filippe, Ron e eu tocávamos juntos nessa época, então o princípio de tudo foi ali. Durou pouco, mas foi importante para nos conhecermos. Quando o Comando Nuclear se formou, aconteceu tudo muito rapidamente – em boa parte, devido a esse entrosamento que já tínhamos, aliado à nossa vontade de gravar algo logo. Então entramos em estúdio para gravar uma demo que, na verdade, não chegou a ser lançada oficialmente. Logo em nossos primeiros shows – o segundo, para ser exato –, o selo ‘Unsilent Records’ propôs lançar nosso álbum de estreia, o que intensificou ainda mais esse processo de urgência que marcou o início da banda. Como a demo já estava sendo produzida, resolvemos investir naquelas composições que estavam sendo gravadas em estúdio - ‘Comando Nuclear’, ‘Vingança Metal’ e ‘Batalhão Infernal’ - como parte do álbum oficial. Já havíamos composto ‘Caçada Mortal aos Falsos’, ‘Capital da Luxúria’ e a intro ‘Chamado ao Combate’, porém ainda era um EP, não um disco. Então durante essa última etapa compusemos a instrumental ‘Puro Ódio’ e, por fim, ‘Resistir’, entramos em estúdio rapidamente e finalizamos as gravações em poucas sessões. O álbum saiu, rodamos o país tocando essas músicas e foi um momento fantástico para nós.

Quanto ao projeto de relançamento de ‘Batalhão Infernal’, haverá prensagens com conteúdos especiais?

Rodrigo: Sim, inclusive o material já está na fábrica! O relançamento do ‘Batalhão Infernal’ será especial, pois o disco está esgotado há cerca de seis anos e muita gente nunca teve acesso aomaterial original. O relançamento será feito pela ‘Mutilation Records’, em formato ‘digipack’ e repleto de fotos de época do lançamento. O CD virá também com quatro faixas bônus, gravadas na época e pela mesma formação que gravou o álbum: Ron, Filippe, Erick e eu. São versões ao vivo registradas durante os shows de divulgação do disco, então será uma maneira de preservar não apenas as composições que fazem parte do álbum como também manter a energia e o sentimento daquele período.

A turnê de ‘Batalhão Infernal’ gerou mais de cinqüenta shows pelo Brasil, foram sete estados e muitas apresentações ao lado de grandes nomes do Metal nacional e mundial. Como foi a experiência de tocar no mesmo palco onde tocaram tantos ídolos noite após noite?

Rodrigo: Acho que a melhor definição para esse período é: Intensidade. Rodamos São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Bahia logo em nosso primeiro lançamento, então foi algo que realmente nos trouxe uma carga muito intensa de ligação com o que o Comando Nuclear se propunha a fazer. Todos nós sempre tivemos nossos empregos formais, então foi bastante pesado conciliar essa agenda com nossas vidas profissionais em São Paulo - e ainda é, vale ressaltar -, mas tivemos a possibilidade de fazer tudo isso num espírito totalmente ‘DIY’, sem apoios ou patrocínios, apenas contando com a força, a colaboração, a iniciativa e atitude da galera que curte metal e faz a cena acontecer, seja onde for. Pudemos tocar ao lado de bandas de renome como Tankard, Stress, Possessed, Salário Mínimo, Taurus, Toxic Holocaust e outras que curtíamos há bastante tempo, mas o mais legal mesmo foi dividir o palco, a estrada e as ideias com bandas que, assim como nós, estavam ali simplesmente por curtir tocar e viver esse espírito underground e independente de uma forma autônoma e autêntica. Bandas como Selvageria, Clenched Fist, Flageladör, Farscape, Apokalyptic Raids, Em Ruínas, Panndora, Violator, Omitah, Kremate, Battalion, Amazarak, Sodomizer, Blasthrash, Devilon Earth, Sounder, HoleofHell (depois Fire Strike), Vingança Suprema, Eternal Devastation, Prellude, Side Effectz, Guerrilha, Evil Sense e tantas outras que participaram dos primeiros anos da banda e ainda são próximas a nós são nossos verdadeiros heróis no metal.

Depois da mudança de baterista com Erick MadDog cedendo o posto para Guilherme Incitatus, o Comando Nuclear seguiu com as atividades que resultaram no álbum atual, ‘Guerreiros da Noite’ (2011). Com mais faixas e uma qualidade sonora diferenciada do anterior a banda mostra um grande amadurecimento, mas sem distanciar-se da idéia original. Como foi a receptividade do público à época do lançamento?

Rodrigo: Penso sempre que cada lançamento é como uma fotografia do momento. O primeiro álbum, gravado com o Erick, transparece toda a urgência daquele período. Tudo aconteceu rapidamente, toda aquela inocência do disco retratava exatamente o que era o Comando Nuclear naquele contexto. Quando o Guilherme entrou e gravamos o segundo disco, a banda já tinha mais de cinquenta shows feitos, experiência que foi fundamental no processo de gravação. Além disso, a produção foi feita com muito mais calma, afinal aquela urgência do primeiro álbum já não se fazia mais presente. Pudemos trabalhar sem pressa, exploramos mais as influências do Heavy Metal tradicional ao Thrash Metal que já tínhamos, buscamos timbres e sonoridades e o resultado foi exatamente o que buscávamos. A receptividade da galera foi excelente porque mantivemos o espírito e a proposta da banda, não houve mudança de direcionamento. As críticas dos zines, blogs, revistas e rádios foram fantásticas, mas o principal reconhecimento foi nos shows, sentindo a energia e a interação da galera com a banda durante as músicas novas. Nesse ponto ‘Guerreiros da Noite’ criou uma coisa fantástica, uma troca de energia absurda ao vivo. E desde o final do ano passado o Guilherme não é mais nosso baterista; estamos tocando com o Hugo Golon (Side Effectz, Infected, Blasthrash, ex Em Ruínas, Toxic Holocaust, Apokalyptic Raids) desde então. Dessa forma, o processo agora se recicla: eu e o Ron buscamos desenvolver as ideias do Comando Nuclear baseadas na identidade natural que construímos ao longo desses anos, misturadas com as características e influências dos novos membros.

Filippe Lawmaker (ex-guitarrista) chegou a excursionar na nova turnê ou vocês já começaram as datas com a dupla Éric Würz e Rex comandando as seis cordas?

Rodrigo: Na verdade a saída do Filippe foi quase simultânea ao lançamento do segundo álbum. Logo que o disco saiu, tínhamos algumas datas marcadas em alguns estados do sul, sudeste e nordeste, porém a agenda acabou pesando e ele, infelizmente, pôde tocar apenas no primeiro show do disco, em Maringá, no Paraná. Mesmo para fazer esse show foi necessário um grande esforço logístico, mas era a primeira apresentação após o lançamento do álbum e ele precisava fazer parte disso. Por sorte acabei conhecendo o Éric num bar, ele trouxe o Rex e um mês depois já estavam no palco conosco, e assim fomos juntos por São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Norte, Pará, Acre e agora, Maranhão e Ceará.

Já passam de dois anos desde o começo da turnê de divulgação de ‘Guerreiros da Noite’ e a banda já está desenvolvendo material para o novo trabalho. Nos shows recentes vocês já estão mostrando músicas inéditas? Existem planos para um DVD?

Rodrigo: Temos trabalhado bastante em material inédito, existem algumas ideias bem desenvolvidas e outras em andamento, mas no geral já temos coisas interessantes para mostrar em breve. Ainda não executamos nada inédito nos últimos shows porque também tivemos a troca de baterista, o que nos forçou a voltar ao estúdio para ensaiar novamente as músicas dos dois primeiros álbuns, mas creio que ainda esse ano mostraremos algo novo ao vivo. Quanto ao DVD, não há dúvidas de que existem planos, inclusive já temos gravações desde o começo da banda para usarmos como material extra, porém particularmente acho interessante ter pelo menos mais um álbum lançado, para termos um repertório realmente grande e aí sim gravar um DVD com material mais farto e diversificado.

A questão dos ‘downloads’ irregulares hoje divide muito a opinião dos artistas. Quando a Internet ainda não era um item comum nos lares houve-se até campanhas ‘antipirataria’ nas gravadoras e revistas especializadas, hoje o assunto parece não ser mais relevante para a indústria fonográfica, porém muitas bandas se sentem prejudicadas com isso. Qual a opinião do Comando Nuclear nesse sentido?

Rodrigo: Particularmente defendo uma posição de compartilhamento máximo, não apenas de músicas, mas de informações em geral. A questão é que o marco da Internet no Brasil está atrasado ao extremo e já existe um ‘lobby’ fortíssimo para que seja totalmente podado. Entendo que seja possível proteger o artista sem a necessidade de ver a internet como inimiga; mas da maneira como estamos encarando o problema, uma resolução parece distante. Discordo da posição de quem se defende dizendo que não prejudica as bandas quando baixa conteúdo sem autorização, ao alegarem que as únicas prejudicadas são as gravadoras, ricas e exploradoras, por um motivo bem claro: basicamente não existem grandes gravadoras envolvidas no underground. A maior parte do trabalho é feito pelas próprias bandas, sem orçamento e com apoio de ‘selos’ e ‘distros’ de pequeno porte; dessa maneira, a venda de discos é sim uma atividade vital e importante para bandas independentes – sem desmerecer, claro, a divulgação que o download proporciona. Por outro lado, sei bem o quanto é difícil viver num lugar tão injusto socialmente; por isso, não acho que seja um absurdo o volume de downloads que rolam por aí. Eu mesmo baixo muita coisa, até porque não tem como comprar tudo que sai sem saber se o material é legal ou não. Costumo baixar e ouvir para ver se curto; se me agrada, procuro comprar o original. Das bandas independentes costumo comprar basicamente tudo o que consigo, principalmente nos shows. É uma maneira de manter um coleção bacana e fazer essa engrenagem girar.

Entre os shows do Nordeste, haverá em Fortaleza um festival com vocês, Selvageria e outros nomes locais que despontaram no cenário nacional, Encéfalo, Warbiff e Darkside. Vocês têm acompanhado o trabalho dessas e de outras bandas cearenses?

Rodrigo: Sem dúvidas! Esse envolvimento no underground é o que o torna tão fascinante, e acompanho bastante o trabalho de várias bandas do Ceará. Gosto muito de Blasfemador, Carcará, Warbiff, Facada, Flagelo, Encéfalo, Darkside, Clamus, G.S. Truds, Agony... Algumas dessas bandas eu conheço através de demos há mais de dez anos, outras são mais recentes e tenho mais contato via internet, mas a cena de Fortaleza é forte e caras como ‘Roberto Gino’, ‘Emydio’ e a galera do ‘Arquivo Underground’, só para citar alguns, são fundamentais nisso. Existem algumas bandas cearenses que procuro algum registro há muito tempo, como ‘Beowulf’ e ‘Insanity’!

Agora um assunto que há muito tempo está "assombrando" parte das bandas nacionais e tem causado muita polêmica. Alguns músicos brasileiros se dizem descontentes com o número de público em apresentações locais. Isso chega a atingir a esfera do Comando Nuclear?

Rodrigo: Entendo que isso ocorre em praticamente todo meio independente, e na música pesada é algo que vemos com frequência, infelizmente. Vejo a relação entre público e banda de uma maneira diferente, pois entendo que num meio de construção coletiva como o underground, ambos são protagonistas simultaneamente. Basicamente não existem distinções entre essas partes, e estimulamos isso ao máximo fazendo com que cada presente – no palco ou fora dele – se integre ao contexto e participe de alguma forma. Não existem coadjuvantes nesse cenário, então naturalmente a participação do público é vital para que esse ciclo seja efetivo. Porém entendo que esse envolvimento deva ser um processo natural e espontâneo, e não um fardo, uma obrigação. De certa forma, vejo que essa pressão que por vezes é exercida para que o público apoie e prestigie vai contra o próprio ideal de liberdade do Heavy Metal. Obviamente a presença de gente curtindo um evento é importante, mas aquele sujeito que está no show precisa realmente curtir estar ali, estar afim de fazer parte daquilo. Deve ser um momento de liberdade, e isso passa pela disposição e pela vontade do sujeito em ir a uma ‘gig’ e viver aquilo. Acho nociva essa forma imperativa de lidar com a cultura underground utilizando palavras de ordem como ‘vá a shows!’, ‘apoie a cena!’, ‘compre discos!’ e etc. O envolvimento deve ser natural, deve ser um prazer fazer parte daquilo, e não um peso. Acho péssimo a cena de ‘bandas cover’ ter um espaço tão amplo e privilegiado, por exemplo. Como concorrer com um ‘tributo ao Iron Maiden’ tocando na mesma noite e região que você se o público que frequenta um show cover basicamente só conhece Iron Maiden e as grandes bandas, e não o trabalho próprio que você desenvolve? A resposta é: não se concorre. Não se trata de disputar público nem de tentar superar alguém. Não é uma competição. Existe uma demanda por aquele tipo de atração, e as casas de show querem público para ter retorno financeiro. O ciclo é esse, alimentado pela suposta ‘mídia especializada’, rádios, TV... é a lógica de mercado nos estuprando mais uma vez, assim como a ‘Lei Rounaet’. Quero estar no meio em que acredito, no faça-você-mesmo, no underground. Não quero ser estrela do rock, não pago anúncio em revista, não pago para abrir show gringo, não faço post pago em rede social nem tenho pretensão de aparecer na televisão com a música do Comando Nuclear. Não abrimos qualquer concessão nesse sentido. Enfim, creio que é uma questão muito mais cultural do que qualquer outra coisa.

Como sou do Ceará e espero a visita de vocês no dia seis de outubro, gostaria que deixassem um recado para o Headbanger de Fortaleza que já se prepara para a grande noite. Obrigado pela entrevista!

Rodrigo: Valeu pela oportunidade, é sempre muito bom poder falar um pouco sobre o Comando Nuclear e sobre como pensamos. Temos certeza de que será um grande evento em Fortaleza, desde que começamos a cair na estrada recebemos muitas mensagens do pessoal do Ceará apoiando a banda e pedindo para nos apresentarmos por aí, então será fantástico encontrar toda essa galera pela primeira vez – ainda mais num local tão simbólico como o GRAB (N.R.: Grêmio Recreativo do bairro Antonio Bezerra onde a banda se apresentará), que representa muito para a cena fortalezense. Não temos dúvidas de que será uma noite fantástica, então queremos aproveitar o espaço e convidar a galera da região a aparecer por lá e tomar uma cerveja conosco, esse é o espírito! Valeu!

Contatos:

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Sobre Leonardo M. Brauna

Leonardo M. Brauna é cearense de Maracanaú e desde adolescente vive a cultura do Rock/Metal. Além do Whiplash, o redator escreve para a revista Roadie Crew e é assessor de imprensa da Roadie Metal. A sua dedicação se define na busca constante por boas novidades e tesouros ainda obscuros.

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