Beowulf: vocalista finalmente quebra o silêncio

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Por Leonardo M. Brauna
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Entrevistar Silvio Cesar, o ‘Silvio Beowulf’ é uma experiência única. Criador da banda que fez história no Nordeste, BEOWULF, Silvio finalmente solta o verbo depois de décadas sem se pronunciar sobre sua trajetória. Numa conversa mais que descontraída o "Pavarotii do Metal" nos conta como surgiu, progrediu e acabou esta que foi um dos maiores fenômenos do Heavy Metal cearense. Porém os saudosistas de plantão podem apostar num retorno aos palcos, ou mesmo aos estúdios, segundo uma notícia reveladora durante a entrevista!

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Você é uma das pessoas que dentro da Beowulf ajudou a dar mais significado ao Heavy Metal no Ceará. Primeiro gostaria que nos contasse como surgiu o seu gosto pela música e como o metal entrou na sua vida.

Silvio Beowulf: "Desde pequeno na minha casa se ouvia muita música. Meu pai ouvia muita coisa boa e meu irmão Marcus, que foi baterista das bandas ‘Trem do Futuro’ e do ‘Caco de Vidro’, era fanático por Queen, The Police, Yes e Rush. Então já comecei muito bem. Tive o privilégio de conviver e ver em ação dois grandes vocalistas do Rock Cearense (Paulo Rossglow e Zezé de Medeiros), já que os ensaios eram na minha casa. Mas veio o Rock in Rio e com ele uma ‘saraivada’ de bandas boas. Ouvi o Iron Maiden e me identifiquei na hora com o som. E junto vieram Judas Priest, Uriah Heep, Deep Purple, Mercyful Fate, Black Sabbath, Helloween, Manowar, Exodus, Slayer, Warlock, Venom, HellHammer, e muitas outras maravilhas trazidas por amigos como Lucas, Joaciro, Brémen, Jander e Franco, que já tinham uma história dentro da cena. Sempre ouvi todas as vertentes, embora a paixão maior fosse o Heavy metal tradicional. Uma das coisas que ajudou a me envolver ainda mais é que grande parte dos meus amigos de infância/adolescência também descobriram o metal na mesma época e se deixaram ‘contagiar’ pelo estilo. Então se formou logo uma ‘irmandade’ que permanece sólida até hoje".

Silvio Beowulf com a Final Prophecy
Silvio Beowulf com a Final Prophecy

As bandas de Metal em Fortaleza, nos anos oitenta, em sua maioria tocavam músicas extremas e as influências de nomes como Venom, Slayer, Sarcófago e Napalm Death entre elas eram muito grandes. Qual foi a reação dos bangers quando viram surgir o Beowulf com uma proposta de Heavy Metal mais apurado e cheio de melodias?

Silvio: "Antes da Beowulf já havia tido a Orpheus nos meados de 86 (que revelou o vocalista Marcos Ary). Mas foi extinta pouco tempo depois. Mais tarde surgiu a Revenger. Apesar de ser uma banda com excelentes músicos e um dos melhores vocalistas da região (Ribamar), faltava à banda o ‘espírito do metal’. A Beowulf surgiu justamente pra ser uma banda de metal com esse ‘elemento’. Não tivemos muitos problemas de aceitação já que tínhamos amizade com a grande parte do público. Só reclamavam um pouco do vocal ser muito melodioso (tem uma caricatura que circula no Facebook retratando isso). Eu estudava canto e meu vocal era meio voltado para o lírico. Teve um momento que tive de optar entre os dois estilos e acabei deixando o sonho de ser cantor lírico pra trás - e foi uma escolha que nunca me arrependi. As pessoas foram se acostumando e acabou virando uma marca registrada da banda. O som pesado do Beowulf aliado a um vocal melodioso foi o que nos fez vencer o London Rock. E isso abriu muitas portas pra banda. Até programa de TV nós tivemos oportunidade de participar (o que na época foi um feito)".

Tales Groo e Silvio Beowulf
Tales Groo e Silvio Beowulf

Como os membros se conheceram e como se desenvolveu a afinidade que resultou no estilo da banda?

Silvio: "A banda já surgiu com esse nome que escolhi, depois de ler parte do poema Beowulf. Coloquei um anúncio numa loja e um guitarrista me ligou (Daniel Vidal, irmão do Acácio Vidal, batera da Gstruds). Liguei para o Tales Groo (Guitarrista da Darkside que na época tocava na Procreation) sem nem conhecê-lo e ele gentilmente me convidou a assistir um ensaio e já me indicou um baterista. No nosso primeiro ensaio, meu irmão, que foi só pra assistir acabou tocando e vimos logo que o time de guitarras estava completo. Baixista foi sempre um problema, mas descolamos o primeiro de muitos. Começamos a ensaiar e resolvi fazer a estreia da banda pouco depois de um mês de trabalho. Eu e o meu Amigo Ribamar (R.I.P), resolvemos organizar um show no América Clube. Na véspera do show, o meu irmão teve de fazer um show com a Caco de Vidro e o Tales se ofereceu pra tocar conosco. Tocamos apenas 3 faixas: ‘Nuns Have no Fun’ (Mercyful Fate), ‘Seek and Detroy’ (Metallica) e ‘Darkness’ (autoral). As influências eram advindas das preferências dos integrantes, que no nosso caso eram similares. Iron Maiden, Mercyful, Fate, Manowar e Helloween (entre outras) eram o que mais ouvíamos. Foi basicamente dessa mistura que surgiu o som da Beowulf".

Uma das características principais do Beowulf está nas vocalizações, o equilíbrio nas entonações saem perfeitas até mesmo ao vivo. Hoje você faz participações como convidado em outras bandas, e é assim que percebemos que a sua voz está praticamente intacta.

Silvio: "Como já disse, antes de ser vocalista do Beowulf e durante parte do meu período na banda eu estudava canto. Eu teria sido um cantor lírico senão tivesse conhecido o metal. Então eu cultivava hábitos pra manter a voz sempre sadia, além de respeitar os meus limites. Cantar pra mim é algo natural e por mais que a emoção me invada quando eu subo em palco eu não deixo a técnica de lado e isso ajudou a preservar a minha voz. Além disso, nunca fumei e não bebo. Isso já é meio caminho andando pra quem quer manter a voz".

Beowulf
Beowulf

As duas demos gravadas, ‘Beowulf’ (1990) e ‘The Black Forest’ (1992), são tidas hoje como patrimônios históricos do Power Metal nordestino e ainda servem como influências para muitas bandas da região. Depois em 1994 o grupo lançou a faixa ‘Another Way’ na coletânea do ‘Projeto Mythus’. O que impediu a banda de ter lançado um álbum após isso?

Silvio: "O Beowulf sofreu muitas mudanças de formação e algumas das pessoas que entraram na banda pretendiam fazer um som diferente. Quando eu criei a banda, a proposta não era de fazer um som para atrair públicos e sim atrair ‘o público’ com o som que fazíamos. Não quis seguir com os novos rumos, então os membros continuaram com um novo estilo e um novo nome. Ainda tentei retornar com a banda mais todo mundo estava na fase de copiar Angra, Dream Theater e bandas do gênero, então achei que era melhor deixar o guerreiro adormecido. Justo na época, eu tinha recebido uma indicação que possibilitaria a banda de projetar-se um pouco mais. Mas isso é um segredo de estado (Risos)".

Hoje em dia como está o seu contato com os outros membros?

Silvio: "Alguns mantenho contato, outros sumiram. O Tales e o André encontro frequentemente. Em 2008 o André fez uma homenagem aos 20 anos do Beowulf e regravou ‘Angel Hammer’ (hino oficial da banda) e incluiu na demo da Fireline. Fui convidado a cantar. No mesmo ano, eu e o Tales subimos no palco no lançamento da demo. Foi emocionante. Também já cantei ‘Run to the Hills’ com o Tales no projeto Total Eclipse (Iron Maiden Cover). Já esse ano subi no palco com a Fireline pra homenagear o Revenger. Posso dizer que são os dois grandes irmãos que ainda mantenho contato, além de vez por outra teclar com o Marcelo Magoo (outro irmãoque tive orgulho de ter na banda) pelo Facebook".

Já que tocou no assunto, eu gostaria de saber sua opinião sobre o "suposto" plágio que os fãs de Fireline acusam Timo Tolkki (ex-Stratovarius, Symfonia) de ter feito da música ‘Fireline’ dos cearenses, para a canção "Enshrined in my Memory" de seu projeto Avalon. (veja abaixo matéria de Daniel Tavares)

Timo Tolkki: fãs da banda cearense Fireline o acusam de plágioTimo Tolkki
Fãs da banda cearense Fireline o acusam de plágio

Silvio: "Já havia lido e comentado a respeito disso na ‘Rede’. Já vi algumas bandas com músicas ‘parecidas’ até demais com composições de outras bandas (inclusive um amigo meu disse que tem uma banda japonesa com uma versão de Angel Hammer). Pode ser plágio? Claro que pode. Angra teve um riff copiado por uma banda de outro gênero, cujo próprio plagiador assumiu a culpa. Com o advento da Internet fica fácil o acesso ao material de bandas de vários lugares. ‘Fireline’ tem um trabalho muito interessante, visto que o André é um grande compositor, e digno de ser copiado. Considero o André e o Regis Richael (ex-Revenger) os dois melhores compositores em termos de Heavy Metal da nossa época. Pena que o último saiu totalmente da cena. Com relação ao possível plágio, se for comprovado, deveria o ‘infrator’ pelo menos dar os créditos ao real autor".

Como você compara a cena metálica de hoje com aquela de vinte anos atrás?

Silvio: "Vinte anos atrás não tinha espaço para bandas nem mesmo de Rock, imagine Heavy Metal. Mas existia um público fiel que fazia questão de fazer os eventos acontecerem. As bandas tinham um apoio fantástico. Os shows aconteciam raramente e o público comparecia em massa. O que impulsionou a cena foi a devoção do público. Sinto-me na obrigação de fazer um reconhecimento. Com o surgimento da Rock Shop, liderada pelos guerreiros Rita Lima e Kleiber Militão, a cena começou a se transformar e tivemos a oportunidade de tocar com grandes bandas em estruturas incríveis. O Tony Cochrane da Opus (N.E.: primeira loja de artigos para Headbangers no Ceará) também resolveu investir e Fortaleza nunca foi mais a mesma. Foram tempos de ouro. Na cena atual eu já vejo maior disponibilidade de espaço, um apoio enorme por parte dos produtores e apoiadores como: Doge e Marisa (Bar Rock 80), Roberto Gino (Gino Production), Fabrício Moreira (Underground Produções) e outros. Mas eu sinto que o público não valoriza como deveria. Grandes nomes que passaram por aqui não tiveram o público que mereciam. Até poderia associar isso a um enorme número de shows, o que faz com que muitos tenham que escolher qual show vai comparecer, porque ‘pesa’ no bolso. Mas já fui a eventos com entrada franca cuja presença do público foi aquém do que eu esperava. Esse é um fato preocupante. Bandas como Beowulf, Obskure, Darkside, Insanity e Gstruds só conseguiram a projeção que tiveram devido ao apoio do público. Poderia citar também a contribuição de várias bandas que passaram por Fortaleza e deixaram suas experiências, como: Morcegos, Megahertz, Avalon, Sanctifier, Deadly Fate, Dorsal Atlântica, Angra, entre outras. Foi a soma de tudo que fez a cena crescer. Hoje o intercâmbio entre as bandas acontece, mas a força do público é menor do que antes. E é isso que está impedindo de que a mesma tenha o devido reconhecimento nos dias de hoje. Ouço com tristeza os mesmos relatos de vários amigos espalhados pelo país".

Beowulf em 1989
Beowulf em 1989

Você passou muito tempo se dedicando a outras atividades fora da música, mas agora está com o projeto de reunir os antigos colegas para colocar novamente a banda no palco. Dessa vez o fã pode contar com o tão sonhado CD do Beowulf?

Silvio: "Existe uma vontade minha de registrar algumas músicas que não gravamos e também repaginar algumas que eram pedidas durante os shows da banda. Não ia revelar ainda mais existe um projeto pra relançamento das duas demos em forma de CD. Não posso dar muitos detalhes, mas há dois produtores na execução, e um deles eu posso considerar um dos caras mais importantes na trajetória da banda, o Luciano Elias (que também produziu a Darkside). O outro é praticamente da família. Vamos ver se conseguimos por isso tudo em prática".

Você é um grande conselheiro das bandas cearenses de Heavy Metal. Quais os grupos novos dessa região que lhe chamam mais atenção?

Silvio: "Quando começamos há 25 anos tivemos um apoio gigantesco do público. Hoje eu sinto que esse apoio se perdeu no tempo. Decidi tentar retribuir de alguma forma esse apoio, como agradecimento por tudo o que conquistamos. Por isso estou sempre indo aos shows, apoiando as bandas e tentando passar pra nova geração as nossas experiências. Conheço várias bandas da nova geração, mas algumas tenho um contato mais direto e me declaro fã do trabalho. ‘Final Prophecy’ que eu sinto uma similaridade de som e de atitude em relação ao Beowulf. Essa banda de Power Metal é a minha maior aposta para o futuro. Grandes músicos e melhores ainda como pessoas. ‘The Knickers’ que faz um hard/heavy metal de qualidade e muita energia. Sempre achei que as mulheres deviam ter sua importância no metal e essa banda é uma prova de que estou certo. A banda Speed/Thrash oitentista ‘Fist Banger’ é outra grande surpresa que tem de trunfo um vocal poderoso (Vinny Fist), assim como o das outras duas bandas citadas (João Júnior e Alinne Madelon). Já no estilo mais pesado eu vejo o Krenak e o Blasphemador como dois expoentes. O novo ‘Gstruds’, já que o conceito é mesmo, mas veio repaginada pelo mestre Luiz Lemos, também vem com força total com o álbum ‘Only Tia Gertruds is real’. Existe uma gama de muitas bandas promissoras que eu tenho menos contato mas que já teve o prazer de ouvir como: ‘Warbiff’, ‘Oráculo’, ‘Knigths’, ‘Scariotz’, ‘Encéfalo’, ‘Agressive’, ‘Facada’ e ‘Sethirus’, entre outras".

Fã do Beowulf com o logo da banda tatuado no ombro
Fã do Beowulf com o logo da banda tatuado no ombro

Eu agradeço muito por essa chance que você me deu de resgatar um pouco da sua história e da Beowulf, onde acredito ser também um grande presente para os seus fãs que vivem na expectativa desse grande retorno.

Silvio: "Eu que lhe agradeço por ter me dado a chance de falar sobre a banda, minhas experiências pessoais e minha visão da cena em geral. Aproveito pra lhe fazer um agradecimento pessoal por tudo que você tem feito em prol da cena e pela amizade que nos faz irmãos. Sempre digo que somos uma grande família e ver um dos membros da mesma tentando engrandecê-la me deixa orgulhoso. Você e o Daniel Tavares são dois guerreiros. Sobre o retorno da Beowulf, é apenas hora de ‘pagar a conta’. São anos de respeito, dedicação e amor ao trabalho da banda. Temos de retribuir de alguma forma a esses irmãos espalhados por vários cantos do Brasil e do mundo. Tenho uma gratidão enorme a todos que fizeram parte da nossa jornada e deixaram seu nome gravado na trajetória da banda.

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Sobre Leonardo M. Brauna

Leonardo M. Brauna é cearense de Maracanaú e desde adolescente vive a cultura do Rock/Metal. Além do Whiplash, o redator escreve para a revista Roadie Crew e é assessor de imprensa da Roadie Metal. A sua dedicação se define na busca constante por boas novidades e tesouros ainda obscuros.

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