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Cannibal Corpse: Entrevista exclusiva com Alex Webster

Em 26/06/04

Por Thiago Pinto Corrêa Sarkis

Não há introdução capaz de abranger a representação do Cannibal Corpse para os estilos extremos do metal e para a música underground. O nome forte, por si próprio, já diz muito sobre a banda. Os números então...: quinze anos de carreira, mais de um milhão de cópias vendidas e turnês por todo mundo. Mesmo o mais enlouquecido dos fãs não apostaria em tanto reconhecimento quando eles iniciaram a carreira com "Eaten Back To Life" em 1990. Coincidentemente, a época em que a moda grunge e alternativa tomava conta de rádios, TVs e revistas.

Quaisquer sejam suas preferências musicais e, gostando da música que eles fazem ou não, uma coisa é inegável: o Cannibal Corpse é a banda de death metal mais bem sucedida de toda a história.

Nestes já longos anos de estrada, muitas polêmicas cercaram o conjunto, especialmente por seu modo agressivo de compreender a música, suas letras rasgadas e as capas de discos com imagens nada ‘receptivas’.

Desta batalha que o Cannibal Corpse se propôs a encarar, apenas dois da formação original sobreviveram: o baixista Alex Webster e o baterista Paul Mazurkiewickz. Juntos eles formam a unidade que mantém o Cannibal vivo. E pode apostar que será difícil derrubá-los, pois a disposição que apresentam, o amor ao estilo que tocam, e o trabalho duro e mesmo vício por turnês e shows em todo mundo estão bem acima do normal.

Por trás de toda a selvageria, encontramos músicos incrivelmente educados e solícitos, dando apoio à sua cena, às bandas novas em seus primeiros passos, e ao underground em geral. No topo e com reconhecimento mundial, eles não se esqueceram dos velhos amigos e conquistam mais admiradores a cada lugar que passam. O tratamento dado à imprensa e aos fãs é especial, atencioso e sem restrições.

Com a baixa sofrida pela saída de Jack Owen, membro co-fundador, muitas dúvidas pairavam sobre o futuro do Cannibal Corpse. Porém, nesta entrevista exclusiva com Alex Webster conferimos como eles estão lidando com isto para seguir em frente, raivosos como nunca dantes. É o que podemos checar ao falar com ele sobre a saída de Owen, o passado do Cannibal Corpse, o futuro, as turnês, os discos, e o sucesso. Quinze anos resenhados pelo próprio Alex Webster.

Whiplash! - Comecemos pelo álbum mais recente, "The Wretched Spawn". Como você vem observando a resposta dos fãs e imprensa? Dentro das expectativas?

ALEX WEBSTER / Sim. Até agora todos parecem amar o disco. É claro que existem pessoas que não gostam e isto sempre acontecerá. Mas temos recebido mais mensagens e retornos positivos do que qualquer outra coisa. Então, acho que está tendo boa receptividade, e sim, dentro do que esperávamos.

Whiplash! - No processo de composição, desta feita, houve algo de diferente? Como vocês funcionam nestes termos?

ALEX WEBSTER / Geralmente seguimos o nosso método tradicional e para "The Wretched Spawn" não foi diferente. Cada um de nós compõe as próprias músicas em casa. Jack Owen, Pat O’ Brien, e eu normalmente fazemos isto. Temos este período trabalhando mais sozinhos e depois nos reunimos para trazer o que produzimos e aprendermos as músicas como uma banda. O instrumental sempre vem primeiro, e depois nos dedicamos a escrever as letras, tentando fazê-las próximas ao estilo da música tocada. Se for uma música rápida, escrevemos sobre algo violento, furioso. Uma música mais lenta pode receber uma letra um pouco mais reflexiva. Às vezes não é possível fazer isso, mas realmente gostamos das letras acompanhando o instrumental, bem ligadas a ele.

Whiplash! - E como vem sendo a turnê?

ALEX WEBSTER / Fantástica até agora. Desde o lançamento do álbum em Janeiro, fizemos duas turnês. Uma pela América do Norte, onde tocamos trinta e poucos shows e posteriormente tivemos a turnê pela Europa com mais vinte e cinco apresentações. Agora acabamos de vir de cinco shows no México e chegamos no Brasil para finalmente uma verdadeira turnê por aqui, passando por várias cidades.

Whiplash! - Vocês tocaram bastante nos Estados Unidos. Como está a cena por lá atualmente? Há muitos comentários de que não anda muito bem das pernas (risos).

ALEX WEBSTER / Ah, posso te dizer que está de fato muito boa até. Óbvio que não é considerada boa se compararmos aos estilos mais populares de música. Por exemplo, se você comparar a cena death metal e a cena das bandas pop, aquelas que estão na MTV e rádios, aí sim, é claro que a cena death será menor. Sempre existirá uma vertente com mais espaço que o death metal, mesmo no contexto do hard rock e heavy metal. Death metal não é algo que vá chegar e crescer simplesmente. Não acontecerá de repente, rapidamente, e mesmo assim não é um estilo que alcançará grandes massas. As pessoas procuram pela "próxima grande coisa", mas o fato é que enquanto estão à procura disso, o death metal esteve aí, sempre. As modas vêm e vão, e o death metal persiste e bem. Não só na América do Norte. Podemos ver isso quando excursionamos e estamos sempre fazendo isto.

Whiplash! - Acho interessante a posição do Cannibal Corpse em sua cena. É uma banda underground, mas assim mesmo vendeu mais de um milhão de cópias e tem espaço na mídia. Como você vê isso e o que fez o Cannibal Corpse tão grande?

ALEX WEBSTER / Nós alcançamos a marca de pouco mais de um milhões de cópias vendidas, mas nisto estão incluídos todos os discos, e no mundo inteiro. Sobre como crescemos, acho que é apenas uma combinação de fatores. Muito disto é devido à sorte. Há várias outras bandas excelentes por aí que não tiveram a mesma sorte que nós. É uma questão difícil. Não vendemos um milhão de cópias porque somos muito mais talentosos do que as outras bandas, isso não é verdade. Outros grupos não se tornaram tão famosos por falta de sorte realmente. Mas se há um detalhe a mais que tenha nos tornado maiores, acredito que seja o fato de termos feito e ainda fazermos muitas turnês. E também em todo álbum que gravamos realmente tentarmos fazê-lo melhor que seu anterior. Trabalhamos muito... e possivelmente você alcança o sucesso quando trabalha desta forma, e conta com a sorte.

Whiplash! - Em termos financeiros, você pode dizer que tem uma situação boa e estável atualmente?

ALEX WEBSTER / Sim, agora é estável. Mas levou muito tempo para chegarmos aqui. Em nossos primeiros álbuns, demorava muito para conseguirmos pagar todos os custos e não dar prejuízo. Atualmente, a maioria de nossos discos antigos já conseguiu também recuperar todo o dinheiro investido. De fato conseguimos ter um lucro com estes álbuns depois de tantos anos. E com as turnês, nos tornamos reconhecidos como uma banda muito competente ao vivo. Acho que as pessoas que vêm nos ver sabem que trabalhamos muito e tentamos fazer o melhor. É curioso que nossas melhores turnês aconteceram nos últimos dois anos.

Whiplash! - É raro ver uma banda por tanto tempo numa mesma gravadora. Aliás, vocês estão com a Metal Blade desde o início. Você acha que este ‘casamento’ com a gravadora também contribuiu para a situação estável atual?

ALEX WEBSTER / Acho que a boa relação que construímos com eles nos ajudou bastante, decerto, pois eles realmente trabalham muito para o Cannibal Corpse. Eles sabem que somos a banda deles. Estamos na Metal Blade e chegamos até ela não como uma banda que procura por dinheiro. Fomos até eles quando não éramos nada e recebemos a proposta de um contrato que não era muito bom, mas válido. Eles foram trabalhando conosco e os termos de contrato melhoraram com o passar dos anos. Somos amigos de todos na gravadora e quando você estabelece uma relação assim com as pessoas que trabalha, com certeza elas estarão mais dispostas a dar duro por você.

Whiplash! - Mudando de assunto e falando sobre a saída de Jack Owen. Quais foram as razões para a saída dele?

ALEX WEBSTER / Bem, ele escreveu uma carta que está em nosso site oficial e basicamente ele declarou que perdeu a inspiração pelo death metal e queria trabalhar com a outra banda que ele formou. É mais no estilo hard rock, rock ‘n’ roll moderno e se chama Adrift. Eles tinham alguns shows agendados para as mesmas datas em que havíamos marcado shows no México, e nós não sabíamos disso. Ninguém sabia disso. Quando voltamos da Europa, vi na Internet que eles tinham estes shows e liguei para Jack e disse: "você não pode fazer isso. Estamos indo para o México." E há muito queríamos ir ao México, tínhamos muita vontade de tocar lá. Ele disse então que não faria os shows e não consegui convencê-lo do contrário. Ele sabia o que queria, e então nos deixou. A partir daí, tivemos que nos revirar em três semanas para achar um substituto.

Whiplash! - Vocês foram pegos de surpresa com a saída dele...

ALEX WEBSTER / Muito. Particularmente fiquei muito surpreso, pois tínhamos todas estas datas e estávamos prontos para realizá-las. Ele nos largou três semanas antes dos shows e não é fácil arrumar um guitarrista bom o suficiente para tocar e aprender todas estas músicas em tão pouco tempo. Tivemos que trabalhar em vários arranjos e tínhamos acabado de voltar para casa. Chegamos da turnê européia, e no outro dia já tínhamos que encarar testes para encontrar um guitarrista e ensiná-lo tudo. A decisão dele de sair da banda tornou o nosso trabalho muito difícil. Felizmente Jeremy Turner veio e trabalhou muito conosco e tudo vem dando muito certo desde então.

Whiplash! - Restaram mágoas desta saída de... (N. do E.: Alex não me deixa completar a pergunta)

ALEX WEBSTER / Ele não deveria ter nos abandonado no meio da turnê. Mas ele é nosso amigo e se não está mais inspirado a tocar death metal, então realmente não deveria tocar conosco, pois ainda estamos muito inspirados e com vontade de fazer death metal.

Whiplash! - Depois de quinze anos, não está sendo estranho quando você sobe ao palco, olha para o lado e não vê Jack Owen?

ALEX WEBSTER / É muito estranho, claro. Mas é também... como posso dizer isto? Bem, é bom olhar para o lado no palco agora e ver que todos estão entusiasmados para os shows e prontos para tocar death metal. Não há uma pessoa insatisfeita no palco. Todos parecem estar amando o que estão fazendo e isso é ótimo. Me dá uma ótima sensação.

Whiplash! - Em todos estes anos, você não pensou em largar a banda ou praticar outro estilo que não o death metal?

ALEX WEBSTER / Não!!! É nisto que sou bom, e é isso que amo. Meu estilo favorito de música é o death metal. Acho que a melhor música no mundo é o death metal quando bem tocado. Nunca ouvi nada melhor do que um death metal bem executado. Ouço outros estilos, jazz, clássico, e tudo mais, porém, definitivamente death metal é o meu preferido.

Whiplash! - Sobre Jeremy Turner, qual é a posição dele na banda?

ALEX WEBSTER / Bem, tudo está indo muito bem e acontecendo rapidamente. Neste momento o status dele na banda é de um substituto temporário para Jack. Mas veremos isso com o tempo. Jack estava na banda por quinze anos e não podemos substituí-lo em três dias. Tomamos a decisão de sermos muito cuidadosos com quem iremos trabalhar, e queremos alguém que possa também contribuir na composição das músicas, como Jack fazia. Porque, cara, sinceramente, Jack nos ferrou com a decisão que tomou. De repente estávamos fazendo testes e ensaios todos os dias por causa da atitude dele. Tivemos muita sorte com Jeremy, um ótimo guitarrista, o qual veio e trabalhou pesado. Ele é muito sério e dedicado, apaixonado pela guitarra e pelo detah metal. Ele vem trabalhando excepcionalmente, mas não sei o que nos aguarda no futuro. Apenas posso dizer que Jeremy veio e nos salvou.

Whiplash! - Falando um pouco da história do Cannibal. Vocês tiveram alguns problemas por causa das capas dos discos, letras das músicas, etc. Como vocês viram estes obstáculos? Chegaram a impedi-los de tocarem em alguns lugares, certo?

ALEX WEBSTER / Sim. Tivemos alguns problemas aqui e ali. Provavelmente um pouco mais que outras bandas porque somos mais conhecidos. Passamos por dificuldades na Alemanha há alguns anos, porque não podíamos tocar músicas de nossos primeiros álbuns. Eles têm uma lista de discos que não podem ser tocados lá, e nossos dois primeiros discos constavam nesta lista. Também não pudemos tocar em alguns países. Lembro-me de uma vez quando fomos tocar na Virginia (Oeste) nos Estados Unidos e autoridades locais não cancelaram nosso show, mas nos fizeram tocar do lado de fora da cidade. É, tivemos muitos problemas e convivemos com coisas como estas.

Whiplash! - E as capas e as letras já se tornaram uma marca registrada do Cannibal Corpse. Não há muito como escapar.

ALEX WEBSTER / São definitivamente nossa marca registrada e queremos continuar nessa direção. Acho que nossas letras são apropriadas para a música death metal. Há diversas outras letras seguindo esta linha atualmente e se elas combinam com o estilo tocado, acho que não há problemas. Muitas bandas estão escrevendo sobre temas similares aos nossos e fazendo um ótimo trabalho. É o estilo delas, e é o nosso estilo, somos muito bons nisto. Queremos continuar fazendo exatamente isto.

Whiplash! - E qual a sua opinião sobre essa conturbada relação que vemos entre música e religião? No metal acompanhamos muito isso. White metal e black metal, o caso de Varg Vikerness e Euronymous, etc.

ALEX WEBSTER / Não dou muita atenção à religião e a relação dela com a música. Não sou mesmo uma pessoa religiosa, então não tenho interesse em assuntos religiosos e não conversamos sobre isso no Cannibal Corpse. Muitas coisas podem ser faladas sobre uma banda, mas o mais importante a ser dito está na música em si. Às vezes isso fica perdido e até mesmo conosco, muitos já vieram falar merda e reclamar. Muitas pessoas preferem focalizar as letras ou as capas, e ignoram a música. Aí você tem estas conseqüências insanas, como o fato que você citou.

Whiplash! - Gostaria de ter os seus comentários em alguns de seus ex-companheiros de banda...

Whiplash! - Chris Barnes...

ALEX WEBSTER / Chris está trabalhando muito bem com o Six Feet Under. Atualmente já gravamos mais álbuns com George Fisher do que com Chris e estamos mais felizes agora. Já se passaram muitos anos desde a saída dele, mas ainda nos falamos às vezes. Uma vez por ano, ou duas, além de também nos encontrarmos em shows.

Whiplash! - Bob Rusay...

ALEX WEBSTER / Não o vejo a onze anos, no mínimo. Acho que não nos falamos desde que ele foi demitido da banda.

Whiplash! - Rob Barrett...

ALEX WEBSTER / Rob está excelente com o Malevolent Creation. Excursionamos juntos há pouco tempo e foi muito legal. Ele está ótimo.

Whiplash! - O que você tem escutado ultimamente?

ALEX WEBSTER / Uma banda da Suécia chamada Spawn Of Possession. Eles são excelentes. Ontem à noite ganhei um álbum de uma banda brasileira, mas não me lembro o nome. Contudo, ouvi o disco, e é exatamente o estilo de música que gosto. Muito bons. Também escuto a alguns violoncelistas, sabe? O som do violoncelo tem semelhanças com o do baixo e gosto muito. Também curto ouvir alguns baixistas de jazz, como Michael Manring, Jonas Hellborg.

Whiplash! - Bem Alex, é isto. Muito obrigado pelo tempo e simpatia. Uma última mensagem para seus fãs?

ALEX WEBSTER / Eu gostaria de apenas agradecer imensamente a todos vocês. O apoio que recebemos de nossos fãs é fantástico e agradeço muito por isso e também pela preocupação que mostraram desde a saída de Jack Owen. Muito obrigado!

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