Almah: Uma análise da música "Zombies Dictator"

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Carlos Siqueira, Fonte: Blog Palavras Aleatórias
Enviar correções  |  Ver Acessos

"Zombies Dictator" é uma música da banda Almah, lançada no álbum Motion, de 2011. Composta por Edu Falaschi, mas interpretada por ele e Victor Cutrale, este é um dos fatores que chamam a atenção na música: dois vocais, um melódico e um gutural; além disso, há um "peso" e intensidade muito fortes na canção. A letra, assim como os vocais, divide-se em duas partes, uma agressiva e questionadora, e a outra, melódica e esperançosa. Farei uma tradução um pouco diferente das que existem por aí, deixando outras possibilidades:

Bob Daisley: baixista dá detalhes de sua briga com OsbourneHeavy Metal: 5 músicos que não são metaleiros mas amam o estilo

Anunciar bandas e shows de Rock e Heavy Metal

Ditadores zumbis

Como podemos viver com isto/este
Poder e miséria?
Eles lutam
Ou mandam outros lutarem por eles?

Alguém morre em vão
Porque alguém semeia o medo.
O que você vê?
Um futuro em uma rua sem-saída.

Há um motivo para restringir
Limites e liberdade: você fica forte!
Disfarce sua fé por trás de armas
Ditadores zumbis.

O povo come pão apodrecido
Enquanto suas almas destrutivas
Fazem um brinde
A indústria da morte.

Há um motivo para restringir
Limites e liberdade: você fica forte!
Disfarce sua fé por trás de armas
Ditador de zumbis
Há um motivo para resistir
A imposição do Terror!
Todos nascem livres
Ditadores zumbis

Morra

Você conduz o inferno através das colinas sem esperança
Você prevê toda a desgraça do Oeste

Morra

Empunhe armas e mire na cabeça
E adorne/decore o deserto com o sangue.
Salve-nos agora

E queime no inferno com sua máfia/gente.

Logo ao ler, percebe-se a diferença de pensamentos do eu-lírico, que, de tão diferentes, ainda mais com as diferenças de estilo e vozes utilizadas, pensa-se ser dois, mas são apenas dois sentimentos diferentes.

A música inicia-se muito agressiva, é uma das mais pesadas da banda, com um eu-lírico que questiona sua própria posição: como podemos viver nesta situação, com este tipo de poder, com esta miséria? É um chamado de consciência para nós mesmos, neste cenário onde a política, o poder, não age conosco, mas brinca. E termina a estrofe com a pergunta "Eles lutam ou mandam outros lutarem por eles?"; tratando-se de governantes e falsos líderes, o verbo "lutar" pode ser trocado por outros, "trabalhar" é um deles. No campo dos ditadores (que não foge muito do campo dos governantes), lembremo-nos das guerras, onde os soldados apenas seguem ordens de lutar, de representar o país, enquanto os ditos "representantes do povo", não fazem nada - na verdade fazem a "briga"; pois a luta não é de interesse do povo.

Na segunda estrofe percebe-se o pessimismo de uma parte do eu-lírico. "Alguém morre em vão porque alguém semeia o medo", na verdade, não é somente uma pessoa, mas várias que morrem em vão, lutando por falsas verdades (ideologias), lutando contra a mentira espalhada, lutando por um fato dito consumado, inexorável. E termina com uma projeção do lado ruim do eu-lírico; muitas vezes, o ser não possui escapatória, ou luta e morre pelo o que foi ordenado, ou luta e morre por ter se rebelado. É uma rua sem-saída.

Neste momento a sonoridade da música fica mais devagar e é o Edu quem canta, com uma visão diferente das duas primeiras estrofes, ele diz que há uma razão para tudo isso, que é ficarmos mais fortes. É como se fosse um pensamento para enganar a si mesmo, típico de algumas pessoas que não agem para mudar o seu meio (lembremo-nos do primeiro e segundo verso) ou não entendem como funciona o sistema/realidade, e arranjam desculpas ou convencem-se, de verdade, que há um motivo para tais atos acontecerem. Mas percebamos que enquanto uma parte do eu-lírico vê uma rua sem-saída, só vê os lados negativos, diferentemente, este vê um lado positivo.

Anunciar bandas e shows de Rock e Heavy Metal

No entanto, esse eu-lírico, mesmo que pensando diferente quanto ao futuro, é consciente da realidade do presente, pois mostra que sabe que esses "ditadores zumbis" apenas aparentam serem bons, disfarçando-se atrás de armas. É interessante percebermos esse termo "zumbi", pois mostra que os ditadores já estão mortos (como seres humanos, que, por ser assim, são entendidos por essa parte do eu-lírico como bons, assim como ele. É uma projeção), mas ainda pensam em matar.

Em seguida retorna a parte agressiva do eu-lírico e da música, comparando e diferenciando as realidades do povo e dos ditadores/políticos/ricos; enquanto uns comem pão apodrecido e vivem na miséria (a miséria é citada no segundo verso), outros tomam drinques, comemorando o poder (citado também no segundo verso) e lucros conseguidos pela indústria da morte. Devemos perceber que o povo, por estar vivo, come, alimenta o corpo; os "zumbis", por estarem mortos, só são alimentados a alma.

Anunciar bandas e shows de Rock e Heavy Metal

Novamente volta a parte melódica da música, o refrão, mas acrescentado de algumas ideias. Se antes o eu-lírico acreditava que havia um motivo para tudo isso, aceitando a realidade, agora já diz que há um motivo para resistir a essa imposição de terror, pois todos nascemos livres. Nascemos livres, mas ao longo da vida prendemo-nos a lugares, pessoas e ideias de outras pessoas, deixando de sermos o que somos ou éramos.

Logo após isso, retorna a agressividade e o "pedido" (mas por estar gritando, o pedido torna-se ordem) para que esses ditadores morram. Este trecho é muito interessante, pois mostra o quanto após vivermos sob a violência, se nos deixarmos levar por ela, tornamo-nos violentos também. Esse trecho é a concretização de uma frase, que gostaria de citar aqui, do filósofo Nietzsche, em que ele diz: "Aquele que luta contra os monstros deve vigiar para não se tornar um deles. Ora, quando teu olhar se fixa por muito tempo no fundo de um abismo, o próprio abismo penetra em ti." (NIETZSCHE, 2013, p. 107). Se não tomarmos cuidado, agimos da mesma maneira dos que estão ao nosso redor, tornamo-nos a essência de nosso oposto. É o caso de policiais que agem como bandidos e cidadãos que agem como políticos, por exemplo.

O ritmo da canção muda, ficando novamente lento melódico, mas mais carregado, e a parte "boa" do eu-lírico diz que os ditadores conduzem, lideram, controlam o inferno, que seria nossa situação de vida, através das colinas sem esperança, que são as nossas vidas, sem esperança de um dia melhor. E termina por dizer que eles preveem toda a desgraça do oeste. O oeste, sendo o lado em que o sol se põe, dando início à noite e escuridão, pode-se pensar que signifique o fim de tudo, o fim da vida, que eles preveem, pois eles mesmos o causa. Ouve-se novamente o pedido, a ordem, o desespero para que morram.

Deve-se prestar atenção à sonoridade da música também, pois neste momento todos os instrumentos alinham-se para que, juntos, façam um som similar ao de uma metralhadora, o que tem tudo a ver com a letra da música, com a agressividade de uma parte do eu-lírico e com as ações dos ditadores.

Após o solo, dá-se início à última parte "inédita" da música. Percebamos que antes do "Morra", o eu-lírico apenas se questionava, mas agora ele dá "respostas" típicas de ditadores contra os próprios ditadores: "Empunhe armas e mire na cabeça/ E adorne/decore o deserto com o sangue./ Salve-nos agora/ E queime no inferno com sua máfia/gente." - essa estrofe não necessita de explicação. É a realização da frase do Nietzsche, aquele que lutava contra monstros, tornou-se um também; tornou-se zumbi, que só pensa em matar o outro. Depois disso só repete-se o refrão e os gritos de "morra", é uma luta.

Antes de finalizar eu gostaria de dizer que quando fui fazer esta análise/interpretação, pensei muito em quem seriam os zumbis: o povo ou os ditadores? Pois o zumbi é uma "criatura" facilmente enganada, tal como o povo; ao mesmo tempo, os zumbis perdem sua consciência humana e apenas pensam em matar, que é o caso dos ditadores. A tradução seria "Ditadores de zumbis" ou "Ditadores zumbis"?, acabei optando pela segunda opção. Sendo a arte subjetiva, fica a critério de cada um, desde que embasado nas explicações.

Liderada pelo vocalista Edu Falaschi, Almah é uma das maiores bandas brasileiras de Heavy Metal do país. Após participar do Rock In Rio e excursionar pela Europa e Estados Unidos, o grupo lançará seu novo álbum em 2016, sendo o mais recente de 2013, Unfold.

Referências

NIETZSCHE, Friedrich W. Além do Bem e do Mal. São Paulo: Editora Escala, 2013.




GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Todas as matérias da seção CuriosidadesTodas as matérias sobre "Almah"Todas as matérias sobre "Edu Falaschi"Todas as matérias sobre "Angra"


Angra: Fábio Lione comenta os estilo vocais de Andre Matos e Edu FalaschiAngra
Fábio Lione comenta os estilo vocais de Andre Matos e Edu Falaschi

Heavy Talk: Andre Matos explica porque não retornou ao AngraHeavy Talk
Andre Matos explica porque não retornou ao Angra


Bob Daisley: baixista dá detalhes de sua briga com OsbourneBob Daisley
Baixista dá detalhes de sua briga com Osbourne

Heavy Metal: 5 músicos que não são metaleiros mas amam o estiloHeavy Metal
5 músicos que não são metaleiros mas amam o estilo


Sobre Carlos Siqueira

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.

Goo336x280 GooAdapHor Goo336x280 Cli336x280