Ricardo Cesar: Noite Neon e a espiral mental pós-pandemia
Resenha - Noite Neon - Ricardo Cesar
Por Gerson Boaventura
Postado em 11 de outubro de 2021
Noite Neon é, na verdade, um disco duplo em um único conjunto. São duas partes que dialogam o tempo todo e até dialogam de certa forma com o disco anterior, Just Another Day, e com um possível disco posterior (dedução minha, o artista não anunciou nada).
O disco começa com a faixa Onda sonora. Bem, não é bem começa porque é tipo quando você tem um filme desses tipo Adrenalina que já inicia em uma cena com a ação a todo vapor. A faixa é uma quebra intensa com o que quer que estivesse acontecendo antes do disco ser colocado pra tocar e abre espaço para a seguinte, Ensaio Sobre a Retórica. A voz um pouco baixa e o contrabaixo destacado dão uma impressão psicológica muito forte. Contrabaixo e guitarra fazem uma parede de som que recobre os outros sons. É uma música que precisa ser escutada em volume bastante alto para captar suas nuances. Depois do estado de euforia de Ensaio Sobre a Retórica, entra a lisérgica Luzes da Cidade. Sozinha, Luzes talvez faça pouco sentido, até porque a letra só tem uma frase, mas dentro da sequência, com seu instrumental que lembra bastante um low-fi, ela é uma música de transição subliminar para Oh Jane, a faixa seguinte. Oh Jane claramente tem resquícios fortes do disco anterior com pegadas bem estilo Lou Reed. A diferença para o material anterior é que aqui o personagem se impõe muito mais (a palavra eu/meu aparece mais de 10 vezes em pouco mais de 3 minutos).
O disco segue para um interlúdio na faixa Introspecto / Fantasma na Pista de Dança (outra faixa que deve ser ouvida muito alto ou, de preferência, com fones de ouvido) com mudanças ambientes muito claras. O vocal, quase inaudível exceto por uma pequena pausa no instrumental, é coberto por uma parede de som de distorção que faz uma espécie de limpeza na climatização do disco. E então começa a parte muito mais sombria da obra.
As seis músicas seguintes mudam completamente a mensagem de lisergia e intensidade que vinha sendo passada antes. Pequena Reflexão Sobre o Amor é uma canção sobre culpa, pesada, que arrasta o ouvinte pra baixo com força. É como acordar na manhã seguinte depois da farra, olhar o celular e ter que lidar com as ressacas morais depois de uma noite cheia de loucuras etílicas.
Suicídio, a música seguinte, é a mais pesada do disco. É uma carta de não suicídio, na verdade, mas eu não recomendaria pra alguém em estado delicado de saúde mental. O refrão "Será que Deus me abandonou?" Já diz mais que suficiente sobre os motivos.
Confusão, foi a música que me fez pensar no título dessa matéria. Se coubesse a mim escolher uma música de divulgação, seria essa. Ela dialoga bem com as várias partes do disco, é bem elaborada. Seria dificílima de executar ao vivo pela grande quantidade de efeitos, mas é linda.
Ricardo fala diretamente com os ouvintes na faixa O Instante. Não que não falasse antes através das outras músicas, mas aqui a letra não é cantada, mas falada diretamente, como em uma conversa. Um vocal extremamente distorcido e o instrumental eletrônico contribuem para um certo retorno ao ambiente da primeira parte do disco. Ou talvez seja um flashback em uma mente ainda parcialmente ancorada naqueles momentos.
As duas últimas músicas, O Melhor Pra Mim e Me Prometa, são uma saída gradual do clima pesado dessa parte do disco. O Melhor pra Mim é uma música bem alegre, leve e descontraída e Me Prometa é um acústico de despedida. Chocante é escutar Me Prometa seguida direto por Suicídio.
Pontos positivos do disco: um disco muito bem feito, apesar de ter sido feito todo por uma pessoa só, muito bem costurado, empolgante e muito profundo em suas mensagens. Deixa você com vontade de escutar mais, te faz pensar muito sobre seus próprios momentos. É um disco ótimo pra escutar bebendo (contanto que você não esteja numa fase depressiva). É um disco bom de se conversar sobre ele e, se você escutar o anterior, Just Another Day, vai perceber ainda mais detalhes. Tem faixas, como Introspecto / Fantasma na Pista de Dança, que você pode escutar várias vezes e sempre encontrar coisas novas.
Pontos negativos do disco: complexo, não dá pra absorver tudo escutando poucas vezes e nem escutando só durante uma viagem de carro: você tem que parar e escutar do começo ao fim senão não vai absorver a ideia dele por completo. Não recomendo escutar as faixas aleatoriamente. Tem muitas faixas que sofrem uma quebra muito grande quando colocadas uma depois da outra (como Me Prometa e Suicídio, como falei). Da mesma forma, o disco tem um clima que vai da leveza a um peso de melancolia muito grande, então escutar aleatoriamente não funciona muito.
Escute agora o Noite Neon!
Gerson Boaventura
Mestre em Linguística Aplicada
Servidor Público na SEDUC-CE
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