Kamelot: Epica é um disco verdadeiramente primoroso

Resenha - Epica - Kamelot

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Ricardo Pagliaro Thomaz
Enviar correções  |  Ver Acessos

Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Estou de volta com o Kamelot para finalmente falarmos sobre a primeira parte do álbum The Black Halo, chamada Epica, um disco verdadeiramente primoroso! Eu até peço perdão pela demora entre o ano passado e agora, mas uma obra dessas realmente requer muita atenção e cuidado com as palavras.

Kamelot: ótima produção, mas faltou um pouco de criatividadeThin Lizzy, Metallica: A história de "Whiskey in the Jar"

Meu primeiro contato com o Kamelot foi em 2005, quando o grupo americano surfava na visibilidade adquirida com seu famoso álbum The Black Halo. Foi nesse álbum que a banda apareceu no mapa para mim. Anos depois, eu resolvo ir atrás da discografia dela, e descubro a contraparte menos famosa da dupla de álbuns da banda que compoem a adaptação da história de Fausto, o disco Epica, e curioso, vou atrás de ouvir.

Ao final, acabo estupefato... fazia muito tempo mesmo que eu não sentia isso por um disco. Foi paixão à primeira ouvida. Crescia em mim aquela necessidade latente de memorizar cada bom momento, cada faixa do disco, cada letra, e isso é muito difícil de encontrar hoje no meio musical.

Na resenha que fiz de The Black Halo, eu ainda não havia escutado este disco aqui. Após isso, consegui ouvir Epica com cuidado, e repeti a audição inúmeras vezes, em vários momentos, até memorizar cada momento deste álbum magnífico. Depois disso, comecei a ouvir Epica e The Black Halo um após o outro, e meu fascínio com estas duas obras só aumentava mais. Portanto, eis finalmente minha opinião sobre Epica.

Façamos como eu fiz na resenha de The Black Halo e vamos ver um pouco da parte narrativa:
Ela se inicia exatamente no céu, em que Deus reune todos os seus anjos para estarem ao lado dos humanos servindo e protegendo, mas um em particular, Mephisto, se recusa, e por isso é banido do céu. Então Deus lhe dá uma chance: Mephisto conquista e corrompe a alma do escolhido de Deus, Ariel, e retorna para o céu, ou então será condenado eternamente ao fogo do inferno.

Sim, é Fausto mesmo, você que já leu a peça de Goethe ou viu a adaptação cinematográfica de Murnau sabe disso, dá pra identificar na hora.

Então somos apresentados a Faust... digo, Ariel, hehe, um cientista que debate consigo mesmo sobre o significado da vida, e ele quer descobrir a razão da miséria humana e sai de seu vilarejo para cumprir tal objetivo. Ele se despede de seus amigos, de seu amor Gretch... digo, Helena, hehe, e parte para uma viagem prometendo não voltar até cumprir seu intento.

Só que isso resulta em coisas ruins, porque ele começa a se viciar em drogas, se envolver com práticas ocultistas, e por último, termina por querer cometer suicídio, mas em sua loucura, ele tem uma breve visão de Mephisto.

Eis que o espírito caído aparece a Ariel e promete lhe conceder poderes, imortalidade e resolver seus problemas mundanos em troca de sua alma. Ariel aceita e os dois vão ao castelo de Mephisto onde eles celebram a decisão com um banquete. Mas Ariel estabelece a condição de que Mephisto só terá sua alma se Ariel alcançar prazer e satisfação em sua empreitada. E Mephisto aceita, meio resignado.

Pouco tempo depois, Ariel se reencontra com Helena. Eles tem uma noite de amor e Helena fica grávida, mas Ariel decide aproveitar seus poderes ilimitados e retornar em sua busca pela verdade dizendo a Helena que de nada lhe vale o amor se ele pode alcançar coisas mais elevadas. Helena se sente traída, mas ainda assim ama Ariel incondicionalmente, e resolve se suicidar no rio, pedindo a Deus que poupe a alma do bebê não-nascido. Ela e o bebê então são levados para o céu por Deus, e observam Ariel, enquanto este, após saber da morte de sua amada, se afoga em angústia e culpa Deus pelo seu sofrimento, mas Ariel é novamente tentado por Mephisto e decide continuar em seu caminho.

A história termina sua primeira parte aqui e continua então no próximo disco do grupo, The Black Halo.

Vamos nos ater agora à parte musical da obra.
E eu já vou adiantando, apesar de Epica não ser tão conhecido quanto a sua segunda parte, eu pessoalmente considero este álbum até mais bonito e mais bem arranjado, mais inspirado e surpreendente. Gosto muito dos dois, mas prefiro o Epica. São dois momentos. Epica é sobre deslumbramento, enquanto The Black Halo é mais sobre reflexão, tem um caráter mais intimista. Vamos às faixas e destaques de Epica.

Após a introdução instrumental "Prologue" com a passagem de Poe, ouvimos uma das melhores faixas de toda a carreira do Kamelot, a sensacional "Center of the Universe"; com sua batida acelerada e arranjos impecáveis, melodias cativantes e inclusive uma ponte melódica que remete à música folk, o grupo mete o pé direito na porta e emplaca um clássico instantâneo. Eu lembro quando eu escutei a versão ao vivo no disco extra do álbum Poetry for the Poisoned, a apresentação no Wacken de 2010, e ficar bastante impressionado pela música, inclusive escutando o próprio Khan dizendo ao público "aqui está uma música que vocês amam"; uau, compreendo exatamente isso agora! Absolutamente fantástica e apaixonante, me fez voltar o play inúmeras vezes antes de seguir em frente, e se tornou uma das minhas favoritas do Kamelot.

Dando sequência à narrativa, temos "Farewell", outra aceleradíssima, pesada, com linhas melódicas igualmente fascinantes e cativantes, linhas de guitarra bacanas, e outra performance fantástica do grupo. Uma pequena passagem chamada "Interlude I: Opiate Soul" contendo um coro no que parece ser latim, marca a introdução da ótima "The Edge of Paradise" que repete a mesma frase em latim, "Dolcissimae... oh Fortuna... Venit Meos...", que mais ou menos significa "docílima... ó, fortuna... venha até mim...", compondo um quadro de aguda desilusão em que o protagonista da história, afogado nas drogas, está inserido.

Logo depois ficamos com a belíssima e doce balada "Wander", música que aproveita o momento para nos relaxar, mesmo que de maneira meio dramática e agridoce, porque após ela, temos a esperada descida do arcanjo Mephisto. E que descida! Após a curta introdução "Interlude II: Omen" que prepara terreno, somos levados à rápida e dramática "Descent of the Archangel", e eu não sei bem o que acontece, mas a instrumentação é tão boa, as melodias são tão bem escritas, que soam como trilha sonora de um filme; eu posso visualizar na minha cabeça a chegada do anjo caido, o acordo que ele fecha com Ariel, o banquete que se dá na próxima e também excelente faixa "A Feast for the Vain", que vem logo após a outra curta apresentação "Interlude III: At the Banquet", ambas faixas aceleradas e muito bem escritas.

É hora de relaxarmos com uma acústica, a linda folk "On The Coldest Winter Night", neste momento de reflexão e encontro da história, mas logo depois o desencontro de nossos personagens acontece na pesada e emotiva "Lost & Damned". Então Nas próximas faixas curtas temos interlúdios belíssimos que expressam muito bem a tragédia de Helena, e a mais bonita é "Helena's Theme", cantada inclusive pela cantora soprano Mari Youngblood, que interpreta Helena na peça; um trecho da letra é o espírito do rio onde ela cometeu suicídio, pedindo a Deus e à misericórdia de Cristo para poupar a criança que ela carrega no ventre, conforme as letras do lamento indicam: "If the grace of God is real, and the word of Christ can heal, bring their souls to heaven's light, bless the unborn child tonight".

Logo mais, vemos a angústia e o desespero de Ariel no arrastado e grandioso climax de "The Mourning After (Carry On)", com arranjos fenomenais, coro sensacional e instrumentação ímpar. E então chegamos na tentação de Mephisto, no grandioso fechamento desta primeira parte desta recontagem de Fausto pelo Kamelot, "III Ways To Epica", terminando um disco inesquecível e uma obra verdadeiramente... é... como o nome diz: ÉPICA! Só que essa última faixa termina meio inconclusiva. Eles simplesmente param de tocar, indicando que terá a continuação, que se dará em The Black Halo, a qual nós já analisamos aqui. Para a faixa bônus, depende da versão que você pegar, na versão limitada americana temos a belíssima rápida "Snow", que parece uma breve reflexão de Ariel em relação a Helena em algum ponto da narrativa, e na versão japonesa temos "Like the Shadows", bonita, mas não tanto quanto sua contraparte na versão americana, e parece novamente Ariel refletindo, desta vez sobre a natureza de sua relação com Mephisto; colocado em contexto na letra, até faz sentido.

Em conclusão, é uma obra verdadeiramente sensacional e que respira um fôlego sobre o gênero do metal melódico sem precedentes. A fase do Kamelot com Roy Khan é verdadeiramente a melhor fase do Kamelot, os fãs tinham absoluta razão quando diziam isto. Depois de você ouvir este disco, ouça The Black Halo se não ouviu, e tenha uma experiência de metal melódico progressivo como você jamais teve na sua vida. Obra recomendadíssima!

Epica (2003)
(Kamelot)

Tracklist:
01. Prologue
02. Center of the Universe (feat. Mari Youngblood)
03. Farewell
04. Interlude I: Opiate Soul
05. The Edge of Paradise
06. Wander
07. Interlude II: Omen
08. Descent of the Archangel
09. Interlude III: At the Banquet
10. A Feast for the Vain
11. On the Coldest Winter Night
12. Lost and Damned
13. Helena's Theme (feat. Mari Youngblood)
14. Interlude IV: Dawn
15. The Mourning After (Carry On)
16. III Ways to Epica (feat. Mari Youngblood)
Limited Edition bonus track:
17. Snow
Japanese bonus track:
17. Like the Shadows

Selos: Noise / Sanctuary

Banda:
Roy Khan: voz
Thomas Youngblood: guitarra
Glenn Barry: baixo
Casey Grillo: bateria

Músicos convidados:
Mari Youngblood: vocal nas faixas 2, 13 e 16
Miro: teclados
Sascha Paeth: guitarras adicionais
Luca Turilli: guitarra solo na faixa 8
Günter Werno: teclados
Jan P. Ringvold: teclados
Robert Hunecke-Rizzo: voz coral
Cinzia Rizzo: voz coral
Annie: voz coral
Herbie Langhans: voz coral
Fabricio Alejandro: bandoneón na faixa 12
Rodenberg Symphony Orchestra
Olaf Reitmeier: baixo acústico na faixa 11
Robert Hunecke-Rizzo: djembê na faixa 11
Andre Neygenfind: d-bass na faixa 11
John Wilton: diálogos nas faixas 9 e 13

Discografia anterior:
- Karma (2001)
- The Fourth Legacy (1999)
- Siége Perilous (1998)
- Dominion (1997)
- Eternity (1995)

Site oficial:
http://www.kamelot.com

Para mais informações sobre música, filmes, HQs, livros, games e um monte de tralhas, acesse também meu blog.

http://acienciadaopiniao.blogspot.com.br


Outras resenhas de Epica - Kamelot

Resenha - Epica - KamelotResenha - Epica - KamelotResenha - Epica - Kamelot




GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Todas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDsTodas as matérias sobre "Kamelot"


Kamelot: ótima produção, mas faltou um pouco de criatividade

Roy Khan: sair do Kamelot foi a melhor decisão que já tomeiRoy Khan
"sair do Kamelot foi a melhor decisão que já tomei"

Kamelot: Roy Khan homenageado por trabalho com jovensKamelot
Roy Khan homenageado por trabalho com jovens

Metal sinfônico: os 10 melhores segundo o TeamRockMetal sinfônico
Os 10 melhores segundo o TeamRock


Thin Lizzy, Metallica: A história de Whiskey in the JarThin Lizzy, Metallica
A história de "Whiskey in the Jar"

Pink Floyd: as brincadeiras e enigmas nas capas dos álbunsPink Floyd
As brincadeiras e enigmas nas capas dos álbuns

WatchMojo: os 10 guitarristas mais subestimados de todos os temposWatchMojo
Os 10 guitarristas mais subestimados de todos os tempos

Ultimate Classic Rock: as filhas mais belas dos rockstarsSteve Vai: as 10 melhores faixas de guitarra na opinião deleKreator: Millie Petrozza fala sobre respeito devido ao MetallicaKiss: Paul Stanley começa a quebrar guitarras da Ibanez

Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.

Mais matérias de Ricardo Pagliaro Thomaz no Whiplash.Net.

adGooILQ