Alkaisers: recomendo a todos que vão atrás deste remédio musical

Resenha - Antídoto - Alkaisers

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Por Ricardo Pagliaro Thomaz
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Desde há muito tempo, eu vinha procurando bandas de Rock brasileiras novas e que realmente estivessem comprometidas com a tradição de se fazer o bom e velho rock'n'roll. Sentia falta de ouvir um grupo que fizesse um som marcante, e que não fosse engessado com os padrões que a mídia espera. Infelizmente o bom Rock acabou no Brasil, não existiam mais bandas com letras em português que fossem capaz de sair da casca; ou pelo menos era isso que eu pensava. Então me aparece o Alkaisers, e muda o jogo. Antídoto, seu álbum de estreia, prova que o Brasil ainda pode gerar trabalhos interessantes e muito marcantes. E com a atitude contestadora que o Rock deve ter.

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Eu conheci os paulistas do Alkaisers em 2014. Eles ainda não tinham disco lançado, só algumas músicas. Vi o vídeo que eles fizeram da música "Teoria da Evolução", e achei o som fantástico. A letra então, era um espetáculo à parte, e em português! Pensei: caramba! Será que o Rock brasileiro ainda pode voltar a ser relevante? Minha resposta é sim! Com uma banda dessas, pode sim!

Primeiramente eu vou deixar uma coisa bem clara: o que você vai ter com o trabalho do Alkaisers, é o Rock na sua mais perfeita essência; cru, contestador, sem frescuras, e sem a pretensão de agradar todo mundo. O grupo rema contra a maré da mesmisse, das bandinhas coloridas e das babaquices politicamente corretas que imperam nos grupos atuais, e rasgam o verbo em letras viscerais, melodias e arranjos agressivos, e muita atitude.

Seu primeiro disco, apropriadamente chamado Antídoto, é realmente o remédio que precisávamos para fazer com que o Rock brasileiro ressuscitasse de um coma que parecia permanente. E olha, eu prefiro ouvir Rock em inglês, quem já leu meus artigos sabe disso! Só que nesses últimos dias, eu acabei deixando de lado meu Rainbow, meu Royal Blood, meu Queen, até mesmo meu Poets of the Fall, para prestar atenção nesses caras do Alkaisers!! Cara, que banda brasileira é essa que conseguiu fazer eu virar as costas para minhas maiores paixões e começar a tocar o disco deles sem parar no rádio por dias à fio? E ouvir o disco no meu carro, quer eu fosse para o trabalho, quer para casa ou para outro lugar? Incrível! E eu ainda estou ouvindo o disco! Um tremendo discasso!

A embalagem é outra conversa! Completamente criativa, trata-se de uma bolsa de plástico térmica de soro, com um líquido verde dentro! O CD está lá, e junto dele, a "bula", contendo as letras! Uma das coisas mais criativas e bacanas que eu já vi em muito tempo, coisa de colecionador mesmo!

Mas vamos falar das faixas, identificadas na capa como "miligramas" de medicação. "Apocalipse Zumbi", por exemplo, é a música de Rock mais legal que eu ouço há tempos! Sensacional do começo ao fim, letra divertidíssima, que vai muito bem junto com a cozinha agressiva e enérgica dos caras, arranjos muito bacanas, e quando a gente pensa na letra, é quase impossível não imaginar os zumbis da música como esse povo lobotomizado pela mídia. Fora, claro, um episódio de The Walking Dead, é óbvio! E o mais foda, é que deixa aquela impressão, aquela melodia latente na sua cabeça! Esses dias, por exemplo, eu entrei em casa cantarolando "andando de Harley-ey, na rua deserta-a, andando de Harley na rua deserta matando zumbi"! E minha esposa viu e disse igual aquela velha dos memes, "diabéisso?" Eu olhei para minha filha de um ano, que é muito apegada a mim, e comecei a cantarolar também, e ela pulava tresloucada e sorria para mim, nos braços da minha mulher, enquanto tentava dar saltinhos no chão!

Além dessa diversão toda, temos fatores sérios também. Outra música divertida é "Frankenstein", com uma melodia bem alucinada e arranjos vocais bem doidos; eu conversei com a própria banda e eles disseram que a letra é sobre dismorfofobia, uma espécie de diagnóstico psiquiátrico que leva a pessoa ao bisturi por razões fúteis. Isso me levou a pensar no quanto de gente que não consegue se aceitar como são, até porque essa coisa de querer mudar o jeito que Deus te fez através da faca está muito em voga hoje em dia, então parabéns aos caras pela coragem ao tratar desse desvio.

"Meu Caro Amigo Vampiro" é outra que musicalmente é muito bacana, com aquela batida meio de marchinha, misturada com arranjo que parece ser inspirado em Deep Purple, e com uma letra fugaz, que critica frontalmente os sanguessugas de qualquer espécie. Quando eu ouvi a letra pela primeira vez, eu não pude deixar de pensar no Alan Harper, da série Two And a Half Men, mas a coisa se estende para qualquer tipo de vampiro da vida real, principalmente a classe política brasileira, que é o pior tipo de vampiro que temos hoje em dia.

Agora, o destaque que me fez conhecer a banda e me apaixonar pelo som deles. Trata-se da faixa "Teoria da Evolução", mencionada acima, que já existia desde Junho de 2013, integrando o perfil da banda no Youtube; eu escutei essa música até cansar, apenas esperando ansioso pelo dia que eu pudesse obtê-la em disco! Aqui em Antídoto, ela vem com a melodia retrabalhada, remixada, e com novos e arrepiantes arranjos, mais sensacional do que já era originalmente, e com a mesma e corajosa letra que critica todo mundo que leva a sério o que falam sobre moda e comportamento e que diz que a gente tem que evoluir, mas na verdade quer mesmo que a gente aja como se fôssemos primatas. Uma das letras mais corajosas que eu vejo em anos.

Um tempo depois na internet, eu também cheguei a conhecer a faixa "A Fantástica Fábrica de Idiotas", que com sua letra, fala do Brasil e dá outra solapada épica em gente conformista que só quer saber de sombra e diversão, e que se esquece que é idiotizada e manipulada de todas as formas possíveis. E isso não é surpresa alguma, considerando que a população brasileira é cotada como a terceira mais idiota do mundo, infelizmente. A música em si é bastante divertida, e tem uns arranjos com sonoplastia que realmente faz a gente pensar que vivemos em um país de gente idiota, uma realidade que precisamos começar urgentemente a mudar.

Tem também a faixa "Tubarões de Gravata", que faz menção direta e clara ao que temos de mais podre aqui neste país: a classe política. "Zebras Não Sabem Voar" me lembrou do livro Animal Farm, do George Orwell, porque basicamente pega tipos sociais de pessoas e comparam com animais, numa sacada bem inteligente do domínio dos fortes e mais influentes sobre os mais fracos, ou pelo menos aqueles que ficam quietos e simplesmente vão passando pela vida sem perspectivas de mudança. A comparação com a zebra, o animal diferentão do restante da fauna, foi muito bacana, porque é mesmo como se sentem aqueles que pensam diferente da massa.

Enfim, todo esse trabalho maravilhoso, hora politizado, hora realmente metendo a crítica na sociedade atual, me fez criar um profundo respeito pelos caras. Eu venho até mesmo a pensar se o próprio trio não se enxerga também nas zebras aí da música, porque o trabalho deles não se compara com quaisquer outro tipo de trabalho feito hoje por outras bandas ou artistas. Claro, tem o Capital Inicial que é uma banda brasileira mais politizada, mas o teor do Alkaisers se mostrou muito maior nesse quesito, e por isso, mais corajoso e digno de nota.

Volto a afirmar o que eu disse lá no começo: pelo que foi mostrado aqui, o Alkaisers é o choque anafilático que a gente precisava para ressuscitar o Rock brasileiro. Uma banda extremamente corajosa, com atitude, criativa, e que está cagando e andando para o politicamente correto, conforme a gente pode observar pelos próprios agradecimentos deles na bula da embalagem do CD:

"Obrigado, rock'n'roll, elenco do Chaves, Shiryu, Osho, Robert Rodrigues e Yusuke Urameshi por toda inspiração, frases de efeito e risadas. Obrigado políticos corruptos, pastores vigaristas, pessoas ingratas, desonestas e afins, por nos servirem como mal exemplo."

Direta, ao vivo, e sem usar o dinheiro público! Sensacional! Eu achei eles muito bons, e se continuarem a trilhar este caminho, quero estar sempre acompanhando o que fazem de novidade e ajudar a divulgá-los para o maior número de pessoas possível. Meu desejo é que nunca se vendam para qualquer pessoa que seja, por qualquer preço que peçam, que continuem a serem originais no que fazem, honestos e que nunca, jamais tenham o rabo preso com ninguém. Parabéns novamente à banda pelo trabalho! Eu recomendo a todos que vão atrás deste remédio musical, porque este Antídoto é exatamente o que o médico receitou! Administrem-no todos os dias, e em grandes doses, e o receitem também para os amigos e conhecidos.

Antídoto (2017)
(Alkaisers)

Conteúdo:
1mg. Contágio
2mg. Apocalipse Zumbi
3mg. Frankenstein
4mg. Meu Caro Amigo Vampiro
5mg. O Mundo dos Figurantes
6mg. Teoria da Evolução
7mg. As Flores do Seu Jardim
8mg. Tubarões de Gravata
9mg. A Fantástica Fábrica de Idiotas
10mg. Zebras Não Sabem Voar
11mg. Final Feliz

Selo: Independente

Alkaisers é:
Fernando Heanna: voz, baixo
Vini Palhares: guitarra, segunda voz
Thales Mazzi: bateria

Discografia:
- Antídoto (2017)

Facebook oficial: (vendas do disco inbox)
https://www.facebook.com/alkaisersrock/

Para mais informações sobre música, filmes, HQs, livros, games e um monte de tralhas, acesse também meu blog:
http://acienciadaopiniao.blogspot.com.br




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Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.

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