O guitarrista brasileiro que ouviu a real de produtor: "Seu timbre e sua mão não são bons"
Por Gustavo Maiato
Postado em 09 de fevereiro de 2026
No universo da música profissional, nem sempre talento e experiência prévia são suficientes para garantir espaço. Muitas vezes, é preciso ouvir verdades duras - e saber o que fazer com elas. Foi exatamente esse tipo de choque de realidade que marcou a trajetória do guitarrista Gustavo Corsi, conhecido por seu trabalho na banda Picassos Falsos e, posteriormente, por projetos ao lado de Tony Platão.

Em entrevista ao programa Corredor 5, Corsi relembrou um momento decisivo de sua carreira, quando foi confrontado de forma direta pelo produtor Fábio Fonseca. À época, Gustavo e Tony haviam criado uma banda e estavam prestes a entrar em estúdio. "A gente montou uma banda e, na hora que foi contratado pra gravar, o Fábio, que era um músico e produtor muito experiente, de cara limou a banda inteira. Só não me limou", contou o guitarrista, rindo da situação.
Segundo Corsi, a permanência dele tinha mais a ver com o contexto do projeto do que com aprovação plena. "Eu tenho consciência disso porque eu era o cara, eu era a dupla. Tipo assim: 'tem um cara junto, tem que aturar esse cara'", disse, reconhecendo que ainda estava longe de dominar as regras do mercado profissional. "Eu tinha migrado de um lugar onde eu não entendia exatamente as regras desse outro universo. Eu tava pisando ali, tateando ainda."
O momento mais marcante veio fora do estúdio, em uma conversa informal. "Um dia ele me chamou pra sair, tomar uma cerveja. A gente sentou num bar e ele falou: 'Gustavo, é o seguinte: teu tempo não é bom não, cara. Tem que cuidar disso. E teu timbre é ruim. Tua mão não tá legal. Tem que ver teu instrumento, a forma como você toca, como você pensa'", relatou.
Apesar da franqueza brutal, Corsi destaca que o tom nunca foi desrespeitoso. "Ele não me esculhambou em nenhum momento. Ele fez o que uma pessoa bacana faz com alguém que tá ali: jogou a real mesmo." Para o guitarrista, a forma como a crítica é recebida diz muito sobre quem está do outro lado. "Não sentir isso como esculhambação tem muito a ver com quem você é. Você pode ouvir isso como um ataque ou como um toque."
A conversa marcou uma virada. "Foi o dia em que eu entrei de cabeça na ideia de que eu tinha um universo novo pra explorar", afirmou. Gustavo percebeu que o nível de cobrança do músico profissional era completamente diferente. "A cobrança do músico - que não é o artista - não é permissiva. As pessoas querem que você seja tight, pontual, com tempo bom, com instrumento bom."
A partir dali, a rotina mudou radicalmente. "Comecei a estudar de verdade. Tocar com clique valendo", contou. Ele também mudou o foco das referências. "Eu sempre admirei o Jeff Beck, continuo amando. Mas chega uma hora que você tem que estudar quem tá do teu lado. O cara que tá competindo contigo pela próxima gig." Corsi passou a tirar discos de artistas que estavam em evidência na época. "Tirei tudo do Lulu Santos, da Marina. Os guitarristas que estavam tocando nesses discos passaram a ser meus professores."
Hoje, olhando para trás, Gustavo Corsi vê aquele choque como um divisor de águas. "A gente sempre acha que o nosso tá incrível, até alguém chegar e dizer: 'não tá não'", refletiu. E completa: "Pra ficar bom mesmo, você tem que subir o nível." Uma lição dura, mas essencial, que ajudou a moldar sua trajetória fora do conforto das bandas autorais e dentro do exigente mercado da música profissional.
Confira a entrevista completa abaixo.
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