Como Ringo Starr, Isaac Azimov e Lúcifer inspiraram um dos maiores solos de bateria do rock
Por Bruce William
Postado em 09 de fevereiro de 2026
A internet tem uma habilidade especial de pegar uma informação torta e repetir até virar "verdade". Com "The Mule", do Deep Purple, aconteceu exatamente isso: jogue o nome da faixa num buscador e, volta e meia, aparece um "sexto membro" na ficha técnica: Ian Anderson, do Jethro Tull. Ian Paice se diverte com a confusão e mata a charada de forma bem direta: "Posso afirmar categoricamente que nenhuma influência de 'Aqualung' esteve envolvida na criação de 'The Mule'. Acontece que Anderson é meu nome do meio: Ian Anderson Paice."
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A revelação, feita por Ian Paice para a edição 198 da Classic Rock, de maio de 2014, foi republicada pela Louder, em matéria onde consta ainda que no disco "Fireball" (1971), "The Mule" dura 5:21. No palco, a coisa mudou de tamanho e de função: a música virou veículo para um solo de bateria que esticava o relógio sem vergonha. No "Made in Japan" (1972), ela aparece com o dobro do tempo, já no formato "agora é a hora do Paice".
E tem um motivo específico pra ela funcionar tão bem como base de solo. Paice explica que escolhia músicas "ritmicamente" para esse tipo de momento, e que "The Mule" quase foi escrita pensando nisso, embora você só descubra se dá certo quando leva para o palco: "Eu costumava escolher as músicas para solos basicamente pelo ritmo... 'The Mule' foi quase escrita com um solo de bateria em mente. Mas até você colocar no palco, você nunca sabe se vai funcionar."
O detalhe mais legal é que aquele padrão repetitivo de bateria, quase "em loop", veio de uma referência improvável para quem pensa em Deep Purple como sinônimo de peso: Ringo Starr. Paice conta que a ideia nasceu de "Tomorrow Never Knows", do "Revolver", e resume a diferença do jeito mais simples possível: "A ideia veio de 'Tomorrow Never Knows'... O padrão do Ringo é mais escuro e mais estranho do que o meu. Eu só peguei a ênfase rítmica e toquei de um jeito um pouco mais violento." Ele ainda deixa claro o tamanho do respeito: "Sou muito fã do Ringo... Cada música em que o Ringo toca simplesmente 'encaixa'... e isso não é sorte, é puro talento."
O título também não é aleatório. "The Mule" é um personagem conquistador de galáxias e bem pouco simpático na série Foundation, de Isaac Asimov: "inspiradas em Asimov… era leitura obrigatória nos anos 60 e 70", contou Ian Gillan, que, ao vivo, costumava apresentar a música com uma frase que antecipava todo o clima: "Essa música é toda sobre Lúcifer e alguns amigos dele."
Paice, por sua vez, tem uma leitura pessoal de um trecho logo no começo ("No one sees the things you do / Because I stand in front of you / But you drive me all the time"). Ele diz que demorou décadas para perceber, mas que aquilo poderia ser literalmente sobre ele: "É tudo sobre mim… eu fico atrás do Ian no palco, eu vou cutucando ele com a minha forma de tocar." E explica como notou isso tarde: "Uma noite os vocais estavam particularmente altos no palco e eu pensei: 'Peraí, tem algo aqui que eu nunca tinha notado antes'."
Na gravação, ainda rolou um acidente de estúdio bem anos 70. Paice lembra que eles usavam fita de oito canais e que, para certos efeitos, viravam a fita ao contrário - técnica que os Beatles também usavam - para gravar sons "ao reverso". No meio de "The Mule", o engenheiro virou a fita, mas errou a trilha e apagou a bateria. Como o kit que ele tinha usado já tinha sido despachado para a Europa, ele voltou no dia seguinte com outro conjunto: "Como eram diferentes, não soavam exatamente iguais... então, quando você ouve 'The Mule', chega na metade e o som da bateria muda de forma significativa."
Com o tempo, o Deep Purple tirou "The Mule" do show, mas o solo do Paice continuou encontrando espaço em outras músicas quando o ritmo ajudava. E a faixa acabou voltando ao repertório anos depois, por demanda do público - só que com um corte cirúrgico: "A gente trouxe de volta porque muita gente queria... é bem mais curta - o solo tem só dois ou três minutos. Hoje em dia, isso provavelmente já basta."
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