Titãs: Bom tributo ajuda a revelar novas bandas do Brasil
Resenha - O Pulso Ainda Pulsa - Vários Artistas
Por Victor de Andrade Lopes
Fonte: Sinfonia de Ideias
Postado em 24 de março de 2017
Nota: 8 ![]()
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Sem muito alarde, uma vasta carteira de bandas novas brasileiras decidiu se reunir em 2016 sob a batuta de João Pedro Ramos (Crush em Hi-Fi) e Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) para gravar um grande CD de tributos à maior banda do rock nacional em atividade: os Titãs. E esta última frase não foi copiada de nenhum comunicado de imprensa enviado pela assessoria da coletânea: os Titãs são, realmente, o maior grupo do rock brasileiro que ainda está gravando e se apresentando ao vivo.
Um tributo a uma banda deste calibre precisa ser muito bem bolado, urgindo um repertório bom e uma carteira de artistas que deem conta do recado. O resultado final atende a essas requisitos, mas não na totalidade da obra.
Eu dividiria as 33 faixas em três grupos: as que ganharam uma roupagem bacana e diferente, as que mudaram muito pouco e as que foram distorcidas além do que eu consideraria aceitável.
A abertura "Diversão", por exemplo, ganhou uma roupagem meio hard rock bem gostosa de ouvir nas mãos do Thrill and the Chase. "Polícia", por sua vez, aparece aqui numa interessante versão com elementos de punk e eletrônico criada pelo FingerFingerr. "Insensível" foi transformada numa melancólica balada grunge pelo Mundo Alto, enquanto que, com Cigana, "Deus e o Diabo" virou uma deliciosa peça de rock meio alternativo, meio funk. O clássico "Epitáfio" ganhou uma versão country nas mãos d'O Bardo e o Banjo, mantendo seu tom nostálgico e melancólico.
Coube ao tal do Danger City fazer a versão da faixa título, resultando em uma misteriosa canção que lista uma série de outras doenças, como que atualizando o sucesso. Não Há Mais Volta (com a participação de Badauí, do CPM 22) e Pedroluts mostraram mais ou menos (ou exatamente, no caso do segundo) como ficariam as faixas "Homem Primata" e "Não Vou Me Adaptar", respectivamente, caso fossem regravadas pelo Matanza. "Disneylândia" ficou ainda mais pesada na regravação da banda Penhasco, embora o vocal não imponha o mesmo respeito. A versão de "Comida", por BBGG, ficou um tanto peculiar, mas... a própria versão original deste sucesso não era lá muito convencional.
Você pode até achar que a versão de "Domingo" ganhou um tom um tanto deprê (mesmo para a letra melancólica da faixa), mas o resultado final ficou deveras satisfatório - parabéns aos Subcelebs. "Desordem", cuja letra aparentemente nunca será obsoleta no Brasil, foi transformada num simpático trabalho de rock agitado pela banda que atende pelo sugestivo nome de The Bombers. "Medo" virou um rock alternativo na voz feminina de Camila Garófalo. NÃDA fez uma interessante versão instrumental violada de "Os Cegos do Castelo" sobre o riff principal de "Eu Não Aguento". "Nome aos Bois" foi adaptada para uma peça alternativa pesada, que abre com um breve discurso do abominável deputado Jair Bolsonaro. A regravação é dos Giallos. O mesmo ocorreu com "Televisão", de The Hangovern. Os resultados não chegam a ser ruins.
"Isso Para Mim É Perfume" perdeu toda a sua agressividade nas mãos do Porno Massacre, mas neste caso não foi uma decisão tão infeliz porque o repaginação deu uma cara ainda condizente a esta que é a letra mais escatológica da história dos paulistas. "Clitóris", que também não é nada limpa, ganhou mais peso numa versão com elementos grunge de Sky Down. Assim como "Babi Índio", na versão de Ostra Brains.
Agora, como dito anteriormente, tivemos em O Pulso Ainda Pulsa alguns exemplos de interpretações que descaracterizaram as originais de tal forma que as novas versões parecem trabalhos autorais que meramente se inspiraram em obras dos Titãs.
"Será Que É Isso Que Eu Necessito?", notório petardo de Titanomaquia, o disco mais agressivo da banda, ganhou uma versão risivelmente leve, com as frases "ninguém fez nada de mais, filha da puta" sendo proferidas por uma doce voz pertencente à vocalista do S.E.T.I. "Flores para Ela" também acabou ficando um tanto estranha cantada na voz de uma mulher que parece mais amedrontada por uma barata no teto do estúdio que pelo abusador abordado na letra - e olha que estamos falando de Paula Cavalciuk, um interessante novo nome da nossa música. "Taxidermia" e "Nem Sempre Se Pode Ser Deus", outros pesos-pesados de Titanomaquia, foram também tornados mais leves e combinadas no pout-pourri de clima gótico-eletrônico do Horror Deluxe. "Lugar Nenhum", que recebeu várias versões diferentes ao longo da discografia dos próprios Titãs, foi transformada numa chata peça eletrônica por Subburbia, o que também ocorreu em "Estado Violência" de Gomalakka - ambas perderam sua imponência com isso.
"Tô Cansado" ganhou uma versão condizente até demais com seu título: os Moblins parecem ter sido obrigados a criar a versão após cinco dias de privação de sono. E isto não foi um elogio. "Flores" perdeu seu encanto na versão de Ruca Souza, que tentou enfeitá-la com uns versos nada a ver em seu encerramento - um esforço em vão. Os vocais de "Go Back", a faixa que mais apanhou, parecem ter sido gravados apressadamente por áudio de Whatsapp e jogados no meio da salada instrumental bem amadora da banda All Acaso.
E houve as poucas faixas cujas versões não trouxeram grandes mudanças: "Corações e Mentes", do Der Baum; "Flat - Cemitério - Apartamento", do Aletrix; "Enquanto Houver Sol", do Jéf; "Vossa Excelência", do Color for Shane; "Hereditário", dos Videocassetes; e "Bichos Escrotos", dos Abacates Valvulados.
Se a escolha das bandas não foi 100% feliz, podemos elogiar bastante a montagem do repertório. Os Titãs já lançaram mais de 200 músicas diferentes e muitas delas foram sucessos radiofônicos - mesmo assim, a seleção não privilegiou os hits e deu espaço para algumas joias que só os fãs verdadeiros conhecem.
Sendo um disco tributo de vários artistas, o trabalho de cada banda e músico aqui deve ser analisado isoladamente; como um todo, o tributo é bom e faz jus ao maior grupo de rock que nosso país tem a oferecer hoje.
Abaixo, o vídeo da banda Cigana regravando "Deus e o Diabo":
Track-list:
DISCO 1
1. Thrills and the Chase - "Diversão"
2. FingerFingerrr - "Polícia"
3. S.E.T.I. - "Será Que É Isso o Que Eu Necessito"
4. Der Baum - "Corações e Mentes"
5. Mundo Alto - "Insensível"
6. Cigana - "Deus e o Diabo"
7. O Bardo e o Banjo - "Epitáfio"
8. Paula Cavalciuk - "Flores Para Ela"
9. Danger City - "O Pulso"
10. Não Há Mais Volta (com Badauí) - "Homem Primata"
11. Pedroluts - "Não Vou Me Adaptar"
12. Penhasco - "Disneylândia"
13. BBGG - "Comida"
14. Horror Deluxe - "Taxidermia/Nem Sempre Se Pode Ser Deus"
15. Aletrix - "Flat Cemitério Apartamento"
16. Subburbia - "Lugar Nenhum"
DISCO 2
1. The Bombers - "Desordem"
2. Camila Garófalo - "Medo"
3. NÃDA - "Os Cegos do Castelo"
4. Gomalakka - "Estado Violência"
5. Subcelebs - "Domingo"
6. Moblins - "Tô Cansado"
7. Jéf - "Enquanto Houver Sol"
8. Ruca Souza - "Flores"
9. Giallos - "Nome aos Bois"
10. The Hangovern - "Televisão"
11. Porno Massacre - "Isso Para Mim É Perfume"
12. Color for Shane - "Vossa Excelência"
13. Sky Down - "Clitóris"
14. Videocassetes - "Hereditário"
15. Abacates Valvulados - "Bichos Escrotos"
16. All Acaso - "Go Back"
17. Ostra Brains - "Babi Índio"
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