Labirinto: Ainda instrumental, porém mais pesado e tempestuoso
Resenha - Gehenna - Labirinto
Por Fernando Yokota
Postado em 13 de dezembro de 2016
Anualmente, o dicionário Oxford escolhe um verbete para elegê-lo como "palavra do ano" e, em 2016, a palavra escolhida foi "post-truth" ("pós-verdade", em tradução livre). Num ambiente político que envolveu o Brexit e a campanha eleitoral nos EUA (e, de forma semelhante, a atual conjuntura política brasileira), a expressão, torrencialmente utilizada principalmente nos veículos anglofônicos, se refere às situações em que os fatos objetivos são colocados em segundo plano, sendo preteridos por convicções pessoais e pelo mero apelo emocional.
No ano em que "distopia" e "apocalipse" foram amplamente utilizados para descrevê-lo, o LABIRINTO desvela um novo capítulo em sua carreira, apresentando Gehenna ao mundo. O novo álbum, que sucede os excelentes Masao (single, 2014) e Anatema (2010), mostra a banda ainda trilhando a rota instrumental, mas desta vez mais pesado e tempestuoso.
Em termos de produção, Gehenna é um passo adiante na discografia da banda, liderada por Muriel Curi e Erick Cruxen. O som é grandioso e corrobora com a vocação cinemática das faixas, qualidade que já era percebida nos trabalhos anteriores. O nervosismo inerente em Gehenna faz com que suas faixas se aproximem mais de uma cena filmada com a câmera no ombro, com cenas tremidas, frenéticas e cortes secos, enquanto Anatema ou até mesmo Masao têm a beleza de uma tomada panoramicamente majestosa de uma grande angular.
Produzido pelo experiente Billy Anderson (NEUROSIS, MELVINS, entre outros), o álbum pode ser a porta de entrada para o ouvinte mais acostumado com o lado pesado da música. Se a sequência inicial, com Mal Sacré/Enoch/Qumran, não será estranha àquele versado no léxico metálico, o lado mais contemplativo da sonoridade da banda não foi esquecido, sendo apresentado em temas como Locrus (na qual a carga dramática introduzida pela percussão se destaca) e Aludra.
Os títulos das faixas insinuam referências que vão do Livro de Enoque à ativista birmanesa Aung Suu, passando pelo Antigo Testamento e mitologia greco-romana. Dar o play em Gehenna é como escutar o canto da sereia, chamando o ouvinte para se afogar nas águas da suposição de que se trata de um disco conceitual no clássico sentido da expressão. A obra, no entanto, não parece ter sido concebida como uma história "dura", com começo, meio e fim. Por outro lado, da arte da capa ao último minuto de audição, trata-se de uma pintura em tons de cinza, uma experiência de imersão que ecoa os tempos turbulentos no qual foi concebido.
Como trilha sonora da distopia pós-apocalíptica dos tempos da pós-verdade, Gehenna é, enfim, a resposta na forma do pós-rock nacional. Ao leitor, uma última sugestão: faça uma caneca de café, coloque o álbum em seu aparelho de som, veja a chuva através da janela caindo num fim de tarde cinzento e, por uma hora, testemunhe esse talentoso grupo de artistas brasileiros transformando o caos em arte.
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