Bacamarte: O ressurgimento do progressivo em Depois do Fim

Resenha - Depois do Fim - Bacamarte

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Por Rafael Lemos
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Desde o final da década de 70, o Progressivo andava em baixa, devido ao aparecimento de estilos menos elaborados e mais pesados, como o Punk, ou ainda de estilos mais pop e dançantes, como a Disco Music. Devido a isso, muitos grupos do gênero em questão encerraram suas carreiras nessa época ou, então, aderiram a sonoridades mais comerciais como as citadas, perdendo toda a progressividade e criatividade, sendo o Genesis e o Yes os exemplos mais famosos. Nesse ínterim, eis que foi lançado em 1983, em um improvável país chamado Brasil, um álbum que resgatou o que havia de melhor no estilo, sendo considerado um renascimento da erudição na música. Estamos falando de “Depois do fim”, álbum de estreia do Bacamarte.

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A banda surgiu no Rio de Janeiro em 1974 e, após quase dez anos anos trocando de formações e tentando conseguir um contrato, lançam “Depois do fim” em 1983, pela Som Livre. Seu fundador era o guitarrista Mário Neto que tinha, inicialmente, a ideia de montar uma banda instrumental. Além dele, gravaram o disco Sérgio Villarim (teclas), Delto Simas (baixo), Marco Veríssimo (bateria), Marcus Moura (flauta e acordeão), Mr. Paul (percussão) e, nos vocais, Jane Duboc (que, na verdade, não era da banda, pois só fez uma participação especial no disco). Ela não seguiu a carreira no Rock, mas sim a da MPB, onde fez muito sucesso com sua voz absurdamente afinada (que trabalho de voz que ela fez aqui neste disco!). Vale dizer que o álbum foi produzido também por Mário Neto.

Como é comum no Progressivo brasileiro, temos o uso de muito violão pela banda. Tanto que a faixa de abertura, “UFO”, se inicia com uma execução memorável de “Capricho árabe”, peça do violonista espanhol Francisco Tárrega, que logo se torna uma complexa canção progressiva com os órgãos comuns ao gênero. É na faixa seguinte que podemos nos deleitar com a voz de Jane Duboc em “Smog alado”, música em que inicia a história contada no disco de forma metafórica: o Apocalipse.

“No claro escuro
Imensa serpente vagueia
Movendo ares pesados
Pra dentro dos rios vermelhos
Já valas perfumadas pelo Smog alado

Luta contra o caldeirão da maga
Que o condão encantado criou
Início do fim
Da ebulição”

A partir de então, se intercalam uma música instrumental (sempre rica nos arranjos sinfônicos, onde todos os instrumentistas esbanjam talento) com uma maravilhosa música com voz, das quais “Pássaro de luz” é uma das que contém uma das melhores letras. Trata-se de uma música lenta, executada em um violão muito bem tocado. Nela, Jane Duboc tem o seu melhor momento no disco, impressionante seu alcance de voz:

“Surge no céu
Um pássaro de luz
Clareando o Sol
Colorindo o chão
Vem de muito além das estrelas
Vem semear a paz que ele reluz
Nosso mundo abençoar

Vai tornar reais
As formas das nuvens
Mais que um simples sonho:
O amanhã”

“Último entardecer” é uma música curiosa: ela abre com uma homenagem a uma importante banda alemã de Progressivo, o Triumvirat (a qual já resenhei todos os seus álbuns clássicos). O seu riff, na verdade, é o mesmo que a banda compôs em “I believe”. Ela poderia ser dividida em três suítes, pois ouvimos três partes distintas aqui. Enfim, temos aqui o momento iminente e o auge do Apocalipse, que é revelado em sua profética letra:

“O sangue brota no horizonte
A vida estanca na rua
As almas se trancam nos corpos
Que loucos se atiram à Lua

Crepúsculo que envolve a Terra
O medo paira no ar
O mundo se envolve em trevas
Que podem nunca acabar

Na noite repleta de trevas
Aos céus se eleva uma prece
Pedindo que o dia recomece
Num novo amanhecer”.

A faixa título nos mostra como ficaria a Terra após o término do Apocalipse. No fim da letra, é descrita a cena demonstrada na capa do disco, integrando, assim, toda a obra:

“Já se foram os quatro cavaleiros
Terminada a terrível missão
Olha o que restou sobre a Terra
Se é a Terra que olhamos agora
Agora compreendemos
Porque os que vivessem iriam chorar
Lamentando a triste sorte
Que o destino reservou

Se lembra das crianças que um dia vão nascer
Arranja uma pedra, nela temos que escrever
Palavras esquecidas com o tempo
Mensagem pro futuro
Passado pro presente”

Existem algumas edições em CD. A primeira saiu em 1995 e, a mais bela, com certeza é a mais recente, de 2009, em digipack, contendo um encarte com fotos e letras e o CD imitando um vinil. Porém, não sei de quem foi a péssima ideia dentro da Som Livre em retirar a última faixa na edição mais atual, “Mirante das estrelas”, na verdade uma música instrumental bônus que encerra o disco de forma portentosa, com sua bateria rápida e seus dedilhados na guitarra (sim, Mário Neto não costuma usar palhetas pra tocar guitarra).

A banda encerraria suas atividades no ano seguinte ao do lançamento do disco, 1984. Em 1999, Mário Neto lançou um álbum solo chamado “Sete cidades”, onde inseriu o nome Bacamarte na capa. Como ele era o fundador e principal compositor da banda, muitas pessoas o aceita como um segundo disco da banda, embora na prática ele não seja.

O bacamarte voltou a se reunir em 2012 para algumas apresentações e retornou às atividades em 2014 (não sei se continuam na ativa) com Alex Curi (na bateria) e Nilo Mero (nos pianos e teclados) se juntando aos demais integrantes originais.

Este maravilhoso disco merece ser ouvido muitas vezes pelos apreciadores da boa música.

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Faixas:
01 - UFO
02 - Smog Alado
03 - Miragem
04 - Pássaro de Luz
05 - Caño
06 - Último entardecer
07 - Controvérsia
08 - Depois do fim
09 - Mirante das estrelas (bônus não inclusa na última edição em CD)

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Sobre Rafael Lemos

Rafael Lemos começou a gostar de Heavy Metal, Hard Rock e Progressivo em 1991, sem influência de ninguém, realizando pesquisas sobre as bandas.

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