David Gilmour: Disco bacana, divertido e com ideias interessantes

Resenha - About Face - David Gilmour

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Por Ricardo Pagliaro Thomaz
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Nota: 8

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Vamos tomar um tempo e relembrar um disco clássico, mas pouco falado. Em 1978, o já consolidado guitarrista do Pink Floyd, David Gilmour resolve apostar suas fichas em uma possível carreira solo, seguindo os passos de seu ex-companheiro de banda Syd Barret, lançando então seu debut solo no mesmo ano. Seis anos depois e, aproveitando o hiato que o Pink Floyd passava após o álbum The Final Cut, Gilmour estaria lançando sua segunda empreitada solo, intitulada About Face, em Março de 1984. Produzido pelo próprio guitarrista/vocalista em parceria com o produtor Bob Ezrin, o álbum ainda conta com a participação inusitada do guitarrista e compositor do The Who, Pete Townshend. Na época, o The Who estava desativado, portanto Gilmour, que é muito amigo de Townshend, resolveu chamá-lo para participar do disco.
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Além de Townshend, outros nomes de peso também compunham o casting de performers do álbum de Gilmour, entre eles o nosso querido e saudoso John Lord, ex-tecladista do, também desativado na época Deep Purple, que só iria retornar em Outubro do mesmo ano com um novo álbum, Perfect Strangers. Outros nomes incluem o percussionista português Luís Jardim, o super-renomado percussionista e arroz-de-festa Ray Cooper que é bem mais conhecido por seus trabalhos com Elton John e Eric Clapton, o grande músico inglês Steve Winwood que é bastante lembrado pelo seu trabalho no grupo de Spencer Davis, e outros nomes importantes da época.

Tendo como banda principal, Gilmour optou por não repetir parceria alguma de seu primeiro álbum solo ou mesmo chamar membro algum do Floyd para participar deste segundo álbum, portanto, participam desta vez com Gilmour do álbum os músicos Jeff Porcaro, baterista, falecido em 1992 e que é muito lembrado por ter sido membro fixo da banda Toto do guitarrista Steve Lukather, Pino Palladino, baixista que já tocou com muitos artistas famosos, velhos e novos, incluíndo aí Elton John, Eric Clapton, John Mayer, Tears for Fears, Paul Young, Oleta Adams, Richard Wright, Jeff Beck, J. J. Cale, The Who e Nine Inch Nails, e finalmente o tecladista Ian Kewley, mais conhecido por seu trabalho de composição e arranjos com o músico Paul Young.

Neste álbum, que já é clássico somente pelo cast de músicos que participam, Gilmour se permite colocar um pouco mais de sua identidade musical própria, que é o passo natural de um músico quando aposta em uma empreitada solo. No entanto, não é possivel desvencilhar o som de Gilmour em muitas passagens com o seu som no Floyd, mesmo que o álbum seja uma empreitada mais pessoal. Também não podemos deixar de notar o apelo mais radio-friendly que o Gilmour tenta imprimir em algumas canções, numa tentativa de conquistar fãs de uma forma mais abrangente.

Dito isto, nos deparamos com a faixa de abertura, "Until We Sleep", que já nos dá uma vaga ideia do que será o som do Pink Floyd nos próximos discos capitaneados por Gilmour, Wright e Mason, sem a presença ilustre de Waters. A faixa é um Pop Rock up tempo com alguns efeitos de sintetizador. Também temos a balada bem floydiana "Murder", com um enfoque bem maior nos vocais de Gilmour e os solos característicos do guitarrista que sempre executa um trabalho ímpar em suas passagens e uma mudança de andamento inusitada faltando 1:30 minutos de música, demonstrando-se algo bem na linha experimental do Floyd. "Love On the Air", a primeira das duas contribuições líricas de Pete Townshend é uma balada de Rock bem característica daquelas dos anos 70, feitas por gente como Allman Brothers e outros grupos da época, bastante agradável e contando com a bela e emotiva letra de Townshend.

"Blue Light" é uma canção Pop up tempo que se tornou o single do disco, pense em uma daquelas músicas que Phil Collins escrevia nos anos 80, advinda de álbums como No Jacket Required por exemplo e você terá uma ideia. Início bem parecido com o arpejo de Gilmour em "The Happiest Days of Our Lives" um pouco mais acelerado, mas logo caindo para um popzão daqueles tradicionais com instrumentos de sopro bem ao estilo do que o Collins fazia em carreira solo. Como single, fez bastante sucesso em uma década regada a sintetizadores e drummachines. Era o padrão de música Pop da época, bem superior ao nosso padrão dos dias de hoje, diga-se de passagem. Pelo menos as pessoas mexiam o corpo com qualidade musical. Fica aí a minha crítica. Poucas bandas hoje conseguem praticar uma música pop mais honesta, sem abrir mão da qualidade.

"Out of the Blue" é mais uma belíssima composição de Gilmour, uma balada doce e simplesmente levada ao som do piano e à voz de Gilmour, com leves sacadas floydianas. "All Lovers are Deranged" é mais uma up tempo e a segunda contribuição lírica de Pete Townshend, devo dizer que é uma de minhas favoritas do álbum, tem um refrão bem pegajoso e um ritmo de Rock tradicional bastante agradável. "You Know I'm Right" é mais um Pop Rock bem característico da época, bem influenciado das bandas pop com influências dos artistas setentistas misturado ao estilo meio jazzístico da época, é você ouvir e já se dá conta de que é uma música vinda diretamente dos anos 80, dá pra fazer até aquelas vídeo-montagens da época que encaixa. Os solos, claro, são assinatura própria de Gilmour, inconfundíveis, portanto.

"Cruise" é uma doce canção pop country, tem bem aquela veia sulista gospel, incluíndo a letra "save our children" de mensagem positiva. Em um dado momento Gilmour adota uma levada meio reggae, talvez tentando aí ganhar um apelo de world music, como chegou a fazer Clapton. Agora, ouça a seguinte, "Let's Get Metaphysical" e, se a própria composição épica não te sugerir um Gilmour tentando mexer com os brios de Roger Waters, então meu amigo, você não conhece coisa alguma de Floyd, porque é exatamente isso que o cara está tentando fazer! Claro, a música é linda, um perfeito tema de vitória, com solos de Gilmour emocionantes, tudo isso crédito do próprio talento de Gilmour como compositor, mas há sim, aí no meio desse epicismo sonoro todo, uma referência velada ao seu desafeto da época. Por fim, o disco fecha com a melodia melancólica de "Near the End" e seus relampejos puramente floydianos.

Após este disco, Gilmour somente viria a tentar outra empreitada solo em 2006, com o lançamento do seu já clássico On an Island, e, na minha opinião, seu melhor disco solo e, talvez o trabalho solo mais conhecido do guitarrista inglês muito em decorrência de sua já conquistada fama com o Pink Floyd. De forma geral, seu segundo álbum caracteríza-se como um autêntico disco advindo dos anos 80, não somente pelos valores de produção, mas também pelo que Gilmour tenta alcançar com ele. Acho até mesmo um desperdício que Gilmour não execute suas canções solo em seus shows com mais regularidade, pois sua carreira solo também é bem rica em sonoridade e ideias. Enfim, About Face é uma boa pedida, um disco bacana, divertido e com ideias interessantes, que merece ser conferido por qualquer fã de música em qualquer época.

About Face (1984)
(David Gilmour)

Tracklist:
01. Until We Sleep
02. Murder
03. Love on the Air
04. Blue Light
05. Out of the Blue
06. All Lovers Are Deranged
07. You Know I'm Right
08. Cruise
09. Let's Get Metaphysical
10. Near the End

Selos: Harvest (UK) / Columbia (US)

Discografia anterior:

- David Gilmour (1978)

Site oficial:
http://www.davidgilmour.com

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Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.

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