Bon Jovi: um disco feito exclusivamente para o público americano

Resenha - What About Now - Bon Jovi

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Por Gabriel de Oliveira Mathias
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Nota: 8

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Eis em 2013, de surpresa, a banda chega com um CD que segundo o vocalista Jon Bon Jovi “as próprias circunstâncias forçaram o seu lançamento”. Temos aqui, um pouco de política, um pouco de romance, e uma tonelada de canções motivacionais de autoajuda. Uma forma compor quase didática, simples ao extremo, sem ser desleixada, e quase reciclável. Feita para ser assimilada antes mesmo da música acabar. Uma ideia para vender muito, e deixar os fãs antigos e os mais radicais de cabelos em pé, pois aqui não há sequer um resquício das guitarras envenenadas de outrora.
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01. BECAUSE WE CAN: Pop, feijão com arroz, com aquela pegada pra ficar brincando de repetir o refrão 10 vezes durante o show. Não é a primeira vez que o Bon Jovi aposta nessa fórmula, na verdade já fez isso antes nos tempos de Hard Rock, com “Bad Medicine” e a balada “I’ll Be There For You”. Mais recentemente fizeram com “Who Says You Can’t Go Home” e “I Love This Town”. São épocas incomparáveis tanto pelo perfil da banda (idade, roupas e objetivos) quanto o perfil das letras. Antes: rock, garotas, romance e glamour. Agora, uma banda envelhecida que se preocupa em falar de problemas do cotidiano, política e nesse último disco um clima de autoajuda, que é o ponto principal da música.

02. I’M WITH YOU: Talvez a música mais fraca do disco, destaquemos, entretanto, o solo de Richie Sambora, que é curto, mas não acaba nem antes e nem depois do estritamente necessário. Abramos aqui um breve comentário: se essa música estivesse no álbum solo do Jon “Destination Anywhere” seria perfeito ao contexto, tanto lírico, quando melódico. Nas letras um toque de romance e uma avalanche de autoajuda.

03. WHAT ABOUT NOW: Novamente temos o clima de autoajuda na letra. Música título do disco é definitiva para termos a tônica do que é o disco: uma mensagem constante de autoajuda e superação voltada exclusivamente para um país em recessão, com a autoestima abalada. Isto é WHAT ABOUT NOW! Aqui a banda apostou numa sonoridade mais voltada ao pop/rock, mas pecou ao não inserir nenhuma pitadinha de solo para o Richie, mas nada que gerasse desconforto na música. Pois é um chamado, uma mensagem que tem o objetivo de gerar ideias positivas em quem ouve.

04. PICTURES OF YOU: Na primeira vez que ouvi essa música eu pensei que algo estava vindo cortado, depois que ouvi no CD percebi que não era problema do MP3. Até aqui é a música mais “pesadinha” do disco. O solo é de feeling que assusta, nada daquela velha masturbação de guitarra e notas em grande velocidade do passado. Soaria até ridículo no contexto atual. Parte da música lembra um pouco canções da nova fase da banda como “The Distance”, “Novocaine”, mas agora temos um Bom Jovi que simplesmente conhece a própria voz e não faz música que na condição atual de suas cordas vocais, seria impossível de cantar. Quanto a letra, ela destoa das anteriores, é um clima de fossa no melhor estilo “vamos cortar os pulsos” consagrado na clássica “Always” e “Bed of Roses”, mas, por favor, não façamos comparações necessárias.

05. AMEN: É a “HALLELUJAH” do Bon Jovi. Após anos tocando o cover de Leonard Cohen, Bon Jovi resolveu fazer sua própria música com um cunho mais religioso. O arranjo de violão é excepcional, mas particularmente eu não achei uma música necessária.

06. THAT’S WHAT THE WATER MADE ME: Aqui temos a música mais rock do disco, mas uma letra quase incompreensível. Metáforas, antíteses, alegorias, não consegui entender o sentido dessa música. O arranjo de cordas é muito bom, o solo encaixa perfeitamente, a música para abrir o show da turnê, como a própria banda já descobriu. A letra, eu confesso não ter entendido o objetivo, mas talvez faça sentido para o público alvo da banda, ou seja, os norte-americanos.

07. WHAT’S LEFT OF ME: Aqui temos a primeira música politizada do disco. Aborda uma história provavelmente fictícia que mostra exatamente o início da crise no país das hipotecas, onde as pessoas tinha que se desfazer de tudo que tinham e ao final, temos o clima autoajuda, no melhor estilo “a idade está chegando, mas eu ainda tenho sonhos”. A fórmula é conhecida, Bruce Springsteen deve ter ensinado a escrever letras assim. Quando ao instrumental, novamente temos uma música pop/rock com bons arranjos e um solo que apenas preenche a música, sem sobrar nem faltar.

08. ARMY OF ONE: Quando a música começou eu senti um toque de “Keep the Faith”, mas como a música não me levou pro mesmo lado, eu abortei a ideia. O que temos aqui é uma música essencialmente nacionalista, que busca através desse perfil da população norte-americana de amor a pátria, assumir a característica de um soldado que não pode se deixar abater, seja qual for o desafio. Novamente o clima de autoajuda de um país em tempos de pouca confiança econômica. Musicalmente, temos um clima claro para soar militar, que encaixam perfeitamente, nos dois solos de guitarra, no arranjo de guitarra, baixo e teclado.

09. THICK AS THIEVES: Uma letrinha que simplesmente não convence. É piegas. Tenta soar como um conto de fadas moderno, mas não atinge seu objetivo. É apenas um rascunho de qualquer romance fracassado já contado pela própria banda. A melodia é boa, mas também não emplaca, quando a música não funciona, ela simplesmente não funciona.

10. BEAUTIFUL WORLD: Aqui o clima de romance dá certo, a música é pra cima, embora a letra soe, ou tenta soar, reflexiva. Mas é algo mais light, um romance de aventuras, sem qualquer impedimento, num mundo que não é perfeito, mas onde nós podemos usar o que ele nos dá. O arranjo de guitarras é discreto, mas sob medida para música. E essa simplicidade transforma a canção em um dos destaques do álbum.

11. ROOM AT THE END OF THE WORLD: Ok, garotas. Essa é clássica letra romântica do Bon Jovi, feita sob medida para o público feminino predominante. Melosa ao extremo, um pop/rock simples, light e descartável, de fácil assimilação. Particularmente não me incomoda, mas não serve como destaque.

12. THE FIGHTER: Chega a ser irônico. Num CD feito para ser pop, temos uma clássica canção rancheira de Nashville que a banda tanto procurou no disco “Lost Highway” e não encontrou. Novamente faço menção ao Bruce Springsteen, pois Jon Bon Jovi tem tentado com frequência se espelhar no primeiro, seja nas composições, seja na performance de palco. A letra é bem interessante, uma típica viagem de um contador de histórias. Só foi feita com alguns anos de atraso. Em tempo, o arranjo de cordas é perfeito e encaixa perfeitamente na música.

Bonus:

13. WITH THESE TWO HANDS: Outra música motivacional que sinceramente merecia estar no disco e não apenas nas versões deluxe. É quase um livro de autoajuda para quem busca se erguer, se motivar para começar ou recomeçar uma vida. No melhor estilo “só depende de você”. A música em si é novamente um pop/rock simples, e se encaixaria perfeitamente no contexto do CD, mas a banda escolheu deixa-la de fora, é inexplicável.

14. NOT RUNNING ANYMORE: Mais uma música que poderia perfeitamente estar no álbum substituindo outra como por exemplo “Thick As Thieves”, é um clima ora gospel, que ora beira a redenção, um pedido de remissão aos pecados. É uma música interessante, que passa pelos discos acústicos de Bruce Springsteen e tem até um clima Johnny Cash quando escrevia de forma reflexiva. Uma balada que inspira e relaxa ao mesmo tempo. É como um personagem que atingiu a idade da razão, um senhor refletindo sobre o próprio passado.

15. OLD HABITS DIE HARD: Novamente temos uma canção que fala de um personagem já possivelmente em idade avançada. Mas aqui já temos em vez de alguém que aprende com o tempo, temos um sujeito mais sofrido, quase ranzinza, que se apega mais as cicatrizes de uma vida do que as possíveis bênçãos que ela pode oferecer. A melodia é pobre, faltou música.

16. EVERY ROAD LEADS HOME TO YOU: Na verdade essa música pertence ao CD solo do guitarrista da banda, Richie Sambora. Uma coisa interessante é que ela encaixa do CD da banda como uma luva, o que desfaz as teorias conspiratórias que a sonoridade pop seria uma espécie de totalitarismo do Jon Bon Jovi sobre os demais membros da banda. A forma de escrita já mais característica do Richie, combina perfeitamente com “Undiscovered Soul” e com o “Stranger In This Town” que tem diversas letras de um personagem que busca algo, uma fé, um motivo para seguir.

Em resumo, o disco é o que busca ser. Independente agradar ou não a mim ou a cada um dos ouvintes, ele buscou um direcionamento e foi bem sucedido nisso. Faltam músicas marcantes? Com certeza! Mas comparar o Bon Jovi atual com a banda dos anos 80 é simplesmente tapar os ouvidos e fechar os olhos para o que a banda faz ano após ano. É uma banda que embora não renegue seu passado, busca cada vez se distanciar dele, mostrando que amadureceu, que pode escrever e cantar de forma séria e reflexiva. Que pode levantar um posicionamento político como formador de opinião. Novamente se espelhando no conterrâneo Bruce Springsteen.

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