Cangaço: equilibrando maturidade e inovação em estreia
Resenha - Cangaço - Rastros
Por Thiago Pimentel
Fonte: Hangover Music
Postado em 20 de fevereiro de 2013
Rastros. Com esta palavra, os pernambucanos do Cangaço batizaram seu vindouro álbum de estreia. Estreia esta que traz consigo um grande lote de expectativas: afinal, o grupo conseguiria mostrar evolução – se comparado com as demos e o EP "Positivo" (2011) – e, também, coesão em sua ousada proposta?
Ao iniciar o disco, a breve introdução instrumental "Atrito" desenvolve-se em sua atmosfera 'hermeto-pascoaliana' – principalmente pela inserção de flautas feitas pelo músico convidado Rico Albino – com melodias e abordagem rítmica tipicamente nordestinas. De forma ininterrupta, a calmaria é logo interrompida pela agressividade de "Cantar às Excelências das Armas Brancas".
Aqui destacam-se, sem dúvidas, o excelente duo de vocais realizados entre Magno Lima (baixo/vocal) e Rafael Cadena (guitarra/vocal). O poema do cangaceiro Pedro da Santa Fé é vociferado sob uma instrumentação tipicamente death metal – se não fosse, obviamente, a identidade nordestina que, desde a sua fundação, ronda a existência do Cangaço. O final da composição, realizado em uníssono pelos vocalistas, denuncia um bom potencial desta faixa para performances ao vivo. Além disso, a produção já mostra que pequenas nuanças (abundantes no som técnico da banda) possam ser mais apreciadas que nos registros anteriores.
Disponibilizada há alguns meses, "Arcabuzado" eleva o nível técnico do disco com suas boas variações e riffs bem desenvolvidos. Liricamente, a faixa traz trechos da clássica obra do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, 'O Auto do Frade'. Neste ponto, torna-se perceptível como o grupo levara a sério a rara missão de utilizar o português em seu heavy metal. Um diferencial? Na minha opinião, sim. Especialmente pelo fato de encaixar-se bem no instrumental típico dos caras.
Logo em seguida, temos uma das faixas que mais me surpreendera neste trabalho: "Bombardeio no Ceará". Depois de uma introdução acústica, exótica e envolvedora, um dos melhores riffs do álbum surge e a canção desenvolve-se em um tempo mais acelerado. Não há muito o que comentar-se: basta ouvir. Mas, devo salientar, a incrível e explosiva sessão na metade final que, praticamente, evoca o black metal do Immortal (!). Além disso, o belo trabalho de bateria do músico André Lira se sobressai – a propósito, logo após a gravação de "Rastros", Lira deixou o grupo. Atualmente a banda, conta com o baterista Mek Natividade nesta função.
Na quinta composição ("Encarnação"), o metal extremo – em uma forma mais tradicional, digamos – ganha em evidência para, logo em seguida, ceder espaço para a envolvente, e totalmente instrumental, "Mental". Atingido a casa dos seis minutos de duração, desdobra-se em inúmeras sessões (acústicas e distorcidas) cujas ideias evidenciam o lado progressivo e, nas devidas proporções, jazzístico do Cangaço. Aqui o timbre estalado do baixo de Magno Lima – sempre com linhas criativas, vivas – mostra uma ótima relação com a guitarra de Cadena. Um detalhe curioso: apesar das músicas serem técnicas, não há "virtuosismo-por-virtuosismo".
A segunda metade de "Rastros" é dedicada as regravações. Regravações de faixas presentes nas primeiras demos e que, divergindo das outras músicas, tiveram suas letras escritas em inglês. Na ordem do disco, são elas: "Statu Variabilis", "Corpus Alienum" e, a composição mais velha deste álbum, "Devices of Astral". Curiosamente, estas são as três canções antigas que mais possuíam o toque da música nordestina incluso e que, também, mais conquistaram ouvintes.
Além da melhor produção, posso citar os novos arranjos e abordagens. Por exemplo, há até mesmo a inclusão de um pandeiro (!) na introdução da pesadíssima "Corpus Alienum" e que, dentro do contexto, funciona muito bem. Saliento que "Devices of Astral" foi extremamente beneficiada com essa regravação. No geral, suas inúmeras sessões instrumentais – como sua introdução, o refrão pegajoso e o curto, porém marcante, solo fuzzy – soam muito superiores a performance da primeira demo do Cangaço.
Debute do grupo recifense, "Rastros" não desaponta e, até mesmo, excede as expectativas. Algumas pessoas torcerão o nariz antes mesmo de ouvi-lo? Com certeza. Outras nem levarão com seriedade a proposta da banda? Claro. Mas, felizmente, o som do Cangaço tem culhões suficiente para, inclusive, abrir a mente dos ouvintes mais tradicionais da música pesada e, também, chamar atenção de pessoas não ligadas ao metal. Dois feitos homéricos, diga-se de passagem.
De forma paralela a música, toda a arte do disco chamou-me atenção. Em conjunto com o aspecto sonoro, tem-se um conceito muito interessante.
Apesar de ser um trabalho coeso e bem executado, o álbum mostra que ainda há limites – sejam eles artísticos ou técnicos – que, futuramente, ainda podem ser mais aprimorados e amadurecidos pelos músicos; afinal, a evolução deste registro para o que o foi feito anteriormente já é notória. Esperemos. Por enquanto, posso afirmar categoricamente e, felizmente, dentro do contexto: - que disco arretado.
Músicas-chave:
"Bombardeio no Ceará" ; "Cantar às Excelências das Armas Brancas"; "Arcabuzado"
Formação:
Magno Lima – vocais, baixo, zabumba, pandeiro
Rafael Cadena – vocais, guitarra e violões
André Lira – bateria
Ivo Laje – percussão
Tracklist:
01. Atrito
02. Cantar às Excelências das Armas Brancas
03. Arcabuzado
04. Bombardeio no Ceará
05. Encarnação
06. Mental
07. Statu Variabilis
08. Corpus Alienum
09. Devices of Astral
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Floor Jansen quebra silêncio sobre saída do Nightwish em vídeo: "Também estou triste"
Bruce Dickinson impressiona John Bush, vocalista do Armored Saint
Os 10 maiores guitarristas de todos os tempos, segundo a Guitar World
A banda que Ozzy venerava, James Hetfield odiava e Bruce Dickinson ridicularizava
O clássico do Pink Floyd com letra ingênua e adolescente, de acordo com Roger Waters
Within Temptation faz mistério nas redes e fãs especulam: "Sharon no Nightwish?"
Tyketto recupera o fôlego com "Closer to the Sun", seu primeiro disco em uma década
A nova resposta de Tuomas sobre reunião do Nightwish com Tarja que animou os fãs
A banda liderada por uma mulher que Neil Young considera uma das maiores da história
O astro pop que questionou as guitarras do Guns N' Roses e recebeu um conselho de Axl Rose
O cover de Jimi Hendrix de 1968 que arrebatou Bob Dylan e fascinou David Gilmour
Revista coloca disco do Sleep Token como um dos piores de 2025: "entediante e desagradável"
Baixista fala sobre luta do System of a Down por ingressos mais baratos
As seis músicas preferidas de David Gilmour, incluindo um surpreendente clássico do Van Halen
O melhor show que Ringo Starr dos Beatles viu em todos os tempos, segundo o próprio
Edu Falaschi se surpreendeu com a qualidade de vida na Venezuela
Noel Gallagher elege a canção Pop perfeita; "é simplesmente incrível"
Hall Of Fame: 500 Músicas Que Marcaram o Rock and Roll


Com "Not Your Kingdom", Madball retorna fiel ao estilo que ele ajudou a definir, o NYHC
Kiss - há 44 anos, "Creatures of the Night" marcou o retorno da banda ao hard rock pesado
Ninguém tinha sobrenome na casa onde os Rolling Stones gravaram "Exile on Main St."
A Tempestade (ou O Livro dos Dias): 30 anos da despedida
"Se o Rádio Não Toca", o raro registro ao vivo de Raul Seixas que ganhou edição definitiva
Carach Angren - Sete histórias para um inferno
Paura mira em velhos problemas humanos e entrega muito metalcore em "Primitive Chaos"
Flotsam and Jetsam entrega fúria e maturação em "Rats in the Temple"
Os 50 anos de "Journey To The Centre of The Earth", de Rick Wakeman



