Tomahawk: estilo experimental e esquisito
Resenha - Anonymous - Tomahawk
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 15 de agosto de 2007
Nota: 8 ![]()
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Rapaz, se você chegou a esta resenha tendo em mente o fato de que Mike Patton foi um dia o líder daquela loucura roqueira conhecida como Faith No More, é melhor dar meia-volta. Em todos os projetos que se seguiram ao fim do grupo, a única coisa que o genial Patton manteve artisticamente foi mesmo a loucura. O Tomahawk não chega a ser o Fantômas, o ápice da esquisitice de Patton – uma colagem bizarra de onomatopéias sombrias que parecem a trilha sonora de um desenho animado infernal. Mas confesse: ver canções tradicionais dos índios americanos sendo reinterpretadas com o peso das guitarras metálicas não é a coisa mais natural do mundo, não é? Tudo naquele estilo experimental e esquisito que Patton já celebrizou. Eu particularmente adorei. Será que você vai curtir também?

Em seu terceiro álbum, o Tomahawk presta tributo à cultura dos nativos norte-americanos dos quais herdou seu nome. Tudo começou quando o guitarrista Duane Denison fez uma turnê que passou por algumas reservas indígenas. Ao ouvir um punhado de bandas locais, o músico se revelou desapontado. "Eles faziam geralmente coisas mais convencionais, tipo blues ou country, ou então algo meio new age", confessa ele em comunicado oficial. "Eu comecei a pensar que deveria existir música nativa em algum lugar que fosse mais agressiva, assustadora, cinética". Ele pesquisou muito. E, afinal, encontrou livros escritos na época do presidente Theodore Roosevelt, do começo do século XX, com transcrições de músicas do jeitinho que ele queria. E do jeitinho que Patton adoraria.
Ou seja: se em "Roots" tivemos o Sepultura buscando as sonoridades dos índios brazucas para incorporar ao seu som, imagine que em "Anonymous" o Tomahawk ensinou os peles-vermelhas a tocarem suas próprias canções em formato roqueiro. E você ainda perde tempo discutindo o que é ou não "true"? Se "Sun Dance" não for "true", eu não sei mais o que pode ser. Paulada total - e, ainda assim, duvido você resistir à tentação de sair dançando junto e balançando a cabeça, quer você use cocar ou não.
A introdução macabra "War Song" já dá o tom violento do que vem a seguir, com o entoar de uma canção de uma única sílaba em meio a uma tempestade que desaba dos céus. Mas este é um disco comandado por Mike Patton, caríssimo leitor. E não dá para esperar o esperado do sujeito. Este não é um disco tradicional de rock pesado, em especial porque, exatamente como em todos os outros trabalhos anteriores de Patton, "Anonymous" não tem medo de pisar em terrenos considerados proibidos pelos puristas ao flertar com outros tipos de sons além do peso das guitarras. Agora sem a presença do baixista Kevin Rutmanis, que saiu por motivos ignorados, o trio mescla flautas, batuques e até elementos eletrônicos – em um resultado que tem vislumbres de heavy metal, mas que não dá para classificar apenas e tão somente desta forma. Até quem gostou dos outros discos anteriores do Tomahawk deve se surpreender – alguns de maneira negativa...
"Mescal Rite I" e "Ghost Dance" são daqueles típicos cantos de batalha dos índios que a gente acaba conhecendo mal e parcamente por causa dos filmes - mas a primeira carrega nas tintas dos vocais berrados e angustiados de Patton, enquanto a segunda abusa de uma percussão torturante e quase claustrofóbica. Um dos melhores momentos do disco é, sem dúvida, a verdadeira mistura sonora que se dá em "Red Fox", que brinca com elementos eletrônicos em favor do peso e da melodia - e experimente escutar, sozinho em casa e com as luzes apagadas, Patton rasgadamente invocando o "skinwalker". Igualmente não-recomendada para criancinhas e pessoas de coração mais sensível é a absolutamente demoníaca "Cradle Song", na qual o cantor sussurra fantasmagoricamente sobre uma base com um pézinho no industrial.
"Anonymous" ainda tem espaço para o instrumental festivo de "Antelope Ceremony" e para a ousada "Totem", que vai da interpretação pop aos berros quase Cavalera em questão de minutos, deixando o ouvinte confuso e sem saber para onde ir por alguns minutos. "Song of Victory", apesar do título típico de música do Rhapsody (of Fire), é uma loucura curtinha que tem ares de System of a Down. Para encerrar, a banda pisa no freio e manda uma inesperada baladinha instrumental, "Long, Long Weary Day", um folk/country tradicional com cheiro campestre.
Muitas vezes, as canções não têm uma letra plenamente reconhecível, já que trechos em inglês se misturam a outros falados na língua de uma das muitas tribos estudadas por Denison para este projeto.
Se "Run To Hills", do Iron Maiden, convocava os indígenas a se esconderem e correrem por suas vidas contra a ameaça do homem branco, "Anonymous" funciona justamente ao contrário, como uma espécie de invocação para o contra-ataque. É hora de mandar o invasor de volta para casa. Pinte o seu rosto com os símbolos da guerra e peça proteção aos seus deuses. A batalha vai começar.
Line-Up:
Mike Patton - Vocal
Duane Denison - Guitarra
John Stanier - Bateria
Tracklist:
1. War Song
2. Mescal Rite 1
3. Ghost Dance
4. Red Fox
5. Cradle Song
6. Antelope Ceremony
7. Song Of Victory
8. Omaha Dance
9. Sun Dance
10. Mescal Rite 2
11. Totem
12. Crow Dance
13. Long, Long Weary Day
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