Yes: Em "Drama", sem o inimitável Jon Anderson
Resenha - Drama - Yes
Por Swancide
Fonte: Recanto das Letras
Postado em 21 de abril de 2007
Conseguem imaginar o Yes sem o inimitável vocalista Jon Anderson? Bom, isso não é lenda urbana. Aconteceu em 1980. Jon estava desafrutando de um enorme sucesso solo, em suas parcerias com o tecladista grego Vangelis (aquele, Carruagens de Fogo, Blade Runner). O Yes, pelo contrário, patinava disco a disco desde a saída de Rick Wakeman em 1974 (após o conturbado, mas legendário, "Tales From Topographic Oceans"). Discos irregulares como "Relayer", "Tormato", "Going For The One" se seguiram.
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Mesmo a volta de Wakeman não empurrou a criatividade da banda adiante. Em plena era Punk, o Yes era um dos alvos favoritos da imprensa musical. Alguns chegavam a dizer que, mais que dinossauro, falar mal do Yes era chutar cachorro morto.
Bom, o baixista Chris Squire (único integrante presente em todos os discos do Yes) felizmente tinha ouvido aguçado para novidades e tomou contato com o trabalho de dois músicos então de vanguarda (a chamada "New Wave", reação Pop à simplicidade do Punk), Geoff Downes e Trevor Horn. Os dois, membros da banda The Buggles, responsável pelo primeiro vídeo tocado na MTV - "Video Killed The Radio Star", um clássico New Wave e um hit.
A insistência de Jon Anderson (e Rick Wakeman) em exigir mais tempo para a carreira-solo adiar a gravação de um novo disco do Yes ajudou a mudança a acontecer. Downes e Horn, convidados inicialmente para "dar um gás" no novo disco do Yes, subitamente foram convidados a entrarem para a banda. Mais surpreendente, aceitaram no ato.
Daí surge "Drama", o disco do Yes sem Jon Anderson. Um disco que inicia a aproximação do Yes com os sons em voga na época. Há trechos de Reggae (1980, auge do The Police e época em que o Rush também se aproximava do estilo). Há forte trabalho dos teclados, porém distantes do virtuosismo erudito de Rick Wakeman, substituído por uma abordagem mais pop, voltada para as melodias centrais de cada canção, especialidade de Downes. Steve Howe deixou de lado o barroquismo de sua guitarra (já mostrado à exaustão nos seus inúmeros - e bons - discos-solo) e toca licks e riffs mais diretos, inclusive mais pesados que dantes. Chris Squire, como sempre, é a locomotiva da banda, colocando o baixo mais na frente possível na mixagem, sem masturbação virtuosa (as quebras de ritmo, dessa vez, são mais suaves e paulatinas, o exigido por ritmos como o Reggae e a New Wave). Trevor Horn, embora com um timbre diferente de Jon Anderson (óbvio), apresenta-se elegantemente eficaz para as canções apresentadas, nunca roubando para si o show. Alan White, já escolado por tocar com John Lennon antes do Yes, adota uma postura mais rítmica, sem gorduras e devaneios exibicionistas, na sua bateria sempre marcante.
Dito isso, o clima das canções (mais curtas, no geral) é mais sombrio que a média dos trabalhos do Yes (Jon Anderson sempre foi um pólo irradiador de luz e espiritualidade). Sombras, porém distantes da grandiosidade wagneriana dos discos anteriores da banda. Ademais, as sombras convivem com a luminosidade das melodias pop, surpreendendo os fãs de carteirinha da banda que um dia fizera "Close To The Edge". O futuro trabalho de ex-membros do Yes na banda Asia também nasceu aqui.
As músicas: a abertura, "Machine Messiah", é uma demonstração do potencial rítmico da nova formação do Yes, retendo algo da grandiosidade anterior. "White Car" é uma breve vinheta eletrificada, algo engraçada (isso é novidade, uma música bem-humorada do Yes). "Does It Really Happen" solta camadas e camadas de melodias New Wave que assustariam Rick Wakeman ("Into The Lens" salva o fôlego dos ouvintes com uma incursão quase-Prog, no entanto soa estranhamente "alternativa" para os fãs mais tarimbados). "Run Through The Light" destaca o trabalho dos novos integrantes da banda, o ouvinte já começa a não pensar mais em Jon Anderson (e Rick Wakeman, também). Mas nada preparou o ouvinte, Prog ou New Wave, para a jam-suíte regada a Reggae chamada "Tempus Fugit", uma usina de força que demonstra toda a versatilidade e potencial de Chris Squire e Alan White, seguramente uma das melhores cozinhas da história da Música. Essa última música é seguramente um dos momentos culminantes da produção do Yes, em todos os tempos.
Enfim, um disco surpreendente em vários sentidos. Para além das surpresas, uma grata adição à discografia do Yes (tanto que, na primeira oportunidade, Jon Anderson voltou correndo para a banda e não largou mais o osso).
Se você gostou do Yes de "90125", ou do "Asia", compre correndo. Se você franze a testa só de pensar em Jon Anderson fora do Yes... deixe os preconceitos de lado e dê uma chance ao disco. É diferente de tudo que o Yes fez antes, tem novidades em profusão. Mas também mostra uma articulação nova de elementos característicos deles, uma prova de sobrevivência e criatividade.
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