Louder Than Life: documentário foge do óbvio
Resenha - Heavy Metal - Louder Than Life
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 23 de março de 2007
Nota: 8 ![]()
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Talvez você não seja lá dos maiores fãs de documentários, ainda mais se a sua visão do gênero estiver estereotipada naqueles vídeos a la "hábitos de acasalamento dos elefantes asiáticos", cortesia de canais como National Geographic e Discovery Channel. No entanto, já é hora de fazermos você mudar de idéia - começando, talvez, por um tema bem familiar, conforme denuncia o título de "Heavy Metal: Louder Than Life". Assim como "Metal: Headbanger's Journey" e o vindouro "Global Metal", este vídeo fala longamente do gênero companheiro e velho de guerra que deve estourar todos os dias nos seus ouvidos e chacoalhar bem o seu cérebro - se você está acessando o Whiplash neste exato momento, é o que a gente pode supor, pelo menos. E o grande segredo deste DVD em particular está, além da tentativa de aprofundamento do tema fugindo da abordagem óbvia e já esperada, na carismática e provocativa presença de Dee Snider, frontman do Twisted Sister.

Produzido por Jim Parsons (do programa especializado em metal "Headbanger's Ball", da MTV norte-americana) e dirigido por Dick Carruthers (cineasta responsável por DVDs de bandas como Led Zeppelin, White Stripes e Aerosmith) o documentário pode ser conferido na íntegra já no primeiro DVD, mesclando cenas de clipes de diversas eras - sempre é divertido relembrar como o Rob Halford era quando ainda tinha cabelo - a uma série de entrevistas com membros (e ex-membros) de bandas variadas como Black Sabbath, Deep Purple, Kiss, Thin Lizzy, Rainbow, Dio, Scorpions, Judas Priest, Whitesnake, Motörhead, Metallica, Anthrax, Testament, Overkill, LA Guns, Ratt (Stephen Pearcy), Napalm Death, Korn, Static X, God Forbid e até as meninas do Kittie e do The Donnas. Também prestam depoimento alguns produtores (como Kevin Shirley, a onipresente figura responsável pelas bolachas do Maiden), jornalistas (Metal Hammer, Kerrang), pessoal das gravadoras especializadas (Roadrunner, Megaforce, Century Media) e até um psicólogo, veja você. Além de Snider, é claro, o dono das frases mais divertidas e memoráveis - e sobre quem eu falo um pouco mais pra frente.
É evidente que a coisa toda começa de maneira a situar o estilo, fazendo uma abordagem histórica que remete ao flower power de Woodstock e aos três pilares setentistas que foram contra a corrente do "paz e amor" e contribuíram para o surgimento do metal: Purple, Led Zeppelin e principalmente o Sabbath, aqui representado pelo baixista Geezer Butler, em momento muito bem-humorado e espirituoso. No entanto, a obra caminha por um caminho mais interessante do que seria tentar apresentar meramente uma linha do tempo ao esmiuçar diversos aspectos do movimento metálico: as diferenças entre os instrumentos (e suas afinações) com relação ao restante dos estilos roqueiros, a importância das turnês e da presença de palco, o relacionamento dentro da banda e em estúdio com o produtor, o visual (e o boom glam dos anos 80), as mudanças com o passar dos anos, a fidelidade e o comportamento dos fãs... Tudo tratado de maneira respeitosa e inteligente, mas sempre levantando questões importantes a um gênero cinematográfico que, antes de tudo, é conhecido por ser um retrato "imparcial" daquele pedaço da realidade, de maneira que seria quase investigativa. Como quando o tal psicólogo e estudioso levanta a questão de que os fãs de metal seriam "politicamente dúbios e propensos a comportamentos erráticos como sexo sem proteção e direção em alta velocidade". Mas, de acordo com o cara, talvez este seja o caso de pensar em quem veio primeiro, o ovo ou galinha: os headbangers sempre foram assim ou são desta forma por causa da música? Pensem vocês e me digam.
Talvez cause alguma polêmica ainda a última meia-hora da película, que trata justamente do cabeludo e espinhoso assunto do surgimento do "new metal" (ou nu metal, como queira) - e que, neste caso, acaba retratando o Korn como seu principal nome e genitor (sobre isso, tenho minhas ressalvas, já que artistas distintos como o SOD e o Rage Against The Machine já misturavam e mesclavam estilos antes mesmo do Jonathan Davis fazer seus primeiros dreadlocks). De qualquer forma, a discussão é válida e deveria ser ainda mais incentivada: afinal, qual é o futuro do metal? Você arrisca um palpite?
O único porém que levanto acerca deste "Louder Than Life" é justamente o fato do mesmo ser um tanto quanto regional demais, focando boa parte de suas forças no cenário norte-americano e esquecendo as fortes presenças européias no estilo. O que dizer do thrash e do power metal da Alemanha, do death da Suécia ou da fortíssima área de atuação metálica que se estabeleceu na Finlândia nas últimas décadas? Mesmo o Iron Maiden, banda de vital importância tanto quanto o próprio Judas Priest, mal é lembrado - assim como a explosão da New Wave of British Heavy Metal, uma linhagem de bandas que ajudou a dar novos rumos para toda uma geração de músicos. E ainda cabe um último e decisivo porquê: onde diabos foi parar o Slayer nesta brincadeira?
Já no disco 2, apenas com extras, as atrações são variadas:
CONFISSÕES DE UM HEADBANGER - Uma bobagem que dá para pular facilmente e que seria bom evitar na frente de qualquer pessoa que não entenda direito o que é o metal, com um suposto fã escondido nas sombras e que, sem revelar o rosto, está disposto a revelar os segredos de ser um fanático do estilo. Não dá para precisar se é algo sério ou uma piada, mas em qualquer um dos casos tudo que se obtém é um estereótipo babaca, preconceituoso e ignorante, de um daqueles imbecis que promovem verdadeiras flame wars nos fóruns pela internet acerca do que é ou não ser true. Se isso é ser fã de metal, juro que não sei o que eu sou.
DEE SNIDER E O METAL - A grande cereja neste bolo - e principal responsável por uma nota acima da média. A entrevista com o cantor do Twisted Sister ficou tão legal que, além de usar trechos dela no documentário, os produtores resolveram disponibilizar a dita cuja na integra, para que os fãs pudessem se escangalhar de rir com o sujeito. Ácido, bombástico, sarcástico e sacana, talvez ele não agrade a todos (mas até aí, quem gosta de agradar a todos?), mas vale (e MUITO!) a pena ouvir suas histórias do meio metal e suas opiniões sobre Nikki Sixx (Mötley Crüe), sobre as inevitáveis baladas e sobre bandas díspares como Firehouse e Cannibal Corpse. Sensacional.
METAL SKOOL - Outra bobagem que poderia ter sido evitada. Trata-se de uma entrevista meio mockumentary com uma banda de mentira que supostamente brincaria com os clichês do gênero, na mesma linha do Spinal Tap - só que mais focada no hair metal dos anos 80. O resultado final, no entanto, é desastroso e não tem graça nenhuma. Nem um único sorriso, nem daqueles amarelos de canto de boca, dá para esboçar. E mais: sabe aquela sensação que acabou apelidada por aqui de "vergonha alheia" ou "vergonha terceirizada"? Bem por aí.
LENDAS DO METAL - Os entrevistados do documentário original contam histórias dos bastidores do estilo. Vale especialmente pela confissão do sempre venerável Ronnie James Dio acerca do comportamento insuportável de Ritchie Blackmore e seu tratamento nada educado com os fãs.
DEPOIMENTOS DE ÁLBUNS - Novamente, alguns dos entrevistados do documentário original retornam, só que para citar aquele que seria o seu disco definitivo. Snider surpreende ao relembrar o UFO, e ficaram faltando as aparições de Halford e do próprio Dio. Mas é impagável presenciar Butler errando o nome do disco de sua própria banda ("Master of Reality") e logo na seqüência caindo na risada, pedindo para gravar novamente.
LINHA DO TEMPO - Uma aula de história em formato texto que elenca os principais discos e acontecimentos do universo metálico desde 1969.
Distribuidora:
Focus Music
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