Resenha - Acústico MTV - Ultraje a Rigor

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Por Sílvio Costa
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A história é velha. Artistas esquecidos ou que não andam bem em termos de vendagens acabam sendo resgatados pela MTV para a gravação de um acústico. Eu não saberia explicar o que acontece, mas quase todos seguem a mesma receita: músicas consagradas em arranjos "encorpados" por naipes de metais, orquestras e convidados "especiais". Alguns acabam cheirando a uísque paraguaio, mas outros acabam ficando bem interessantes. Mas, mesmo assim, o Ultraje a Rigor – que, de resto, nunca foi muito bom em cumprir regras e acordos – fugiu de todo esse esquemão e estabeleceu "novas" regras para o seu acústico. O resultado não podia ser melhor. O que temos aqui é um excelente disco de rock, antes de qualquer outro rótulo.

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Há vinte anos o Ultraje revolucionava o já agitado cenário do rock brasileiro daqueles tempos lançando o inacreditável "Nós Vamos Invadir Sua Praia". Desbocado, irreverente e muito bem sacado são alguns adjetivos que caracterizam esse trabalho, que, poucos se recordam, foi o primeiro disco de rock brasileiro a conseguir discos de ouro e platina. O acústico MTV utilizou esse disco como base (nada mais lógico, afinal, é o disco mais conhecido da banda). Oito das onze faixas de "Nós Vamos Invadir..." estão nesse acústico.

Músicas esquecidas foram resgatadas e ganharam vida nova nesse acústico. É o caso de "Ponto de Ônibus", cantada pelo baterista Bacalhau (para quem não se lembra, ex-baterista do Little Quail and the Mad Birds) e "Jesse Go", cujo vocal é levado com competência ímpar pelo baixista Mingau (ex-RDP). "Cada Um Por Si" é a música inédita obrigatória. O cover, também obrigatório, é, na verdade, uma versão para "I Can´t Explain" do The Who, que virou "Eu Não Sei".

O maior destaque desse acústico é mesmo o peso que predomina, graças ao desempenho excepcional de Sérgio Serra e Roger nos violões. Sérgio foi integrante da banda nos anos 80, ele retornou ao Ultraje em 2002 para a gravação de "Os Invisíveis". Seu violão soa como uma guitarra enfurecida e nem podia ser diferente, enquanto Roger constrói bases pesadas a partir de pouquíssimos truques, fazendo tudo soar meio pauleira mesmo. O Ultraje não é uma banda "bonitinha" e qualquer suavizada no som acabaria falseando tudo. Em vez de fazer uma caricatura de si mesma, ou mesmo fazer um disco mais "suave" para os fãs, o Ultraje manteve-se original.

Até na questão dos convidados especiais esse acústico conseguiu se diferenciar. Em vez de chamar alguém para dividir os vocais em uma ou outra faixa, o Ultraje estabeleceu uma banda de apoio, com ex-integrantes (Osvaldo Fagnani, que já foi baixista do Ultraje e aqui toca piano), alguns vocais de apoio (Paulinho Campos e Ricardinho, que também toca violão) e a grande surpresa: Manito, ex-Incríveis, que participa tocando sax, clarinete e flauta. Assim, em vez de reescrever as músicas, o Ultraje as reproduziu fielmente, valorizando os arranjos vocais, resgatando aquela atmosfera rockabilly que sempre foi marcante na banda.

A única música que sofreu uma mudança com relação ao arranjo original foi "Ciúme". Um clima meio havaiano, meio em tom de brincadeira, mas que logo é substituído pelo bom e velho rock quando chega o refrão. É uma das versões mais interessantes do disco, não pelas mudanças, mas pela forma como a banda inteira parece estar se divertindo às pampas.

Desnecessário comentar acerca das letras do Ultraje. Algumas continuam tão atuais como há vinte anos. Outras acabaram envelhecendo e ganhando novos significados. Palavrão em música não é mais tão chocante quanto era há duas décadas. Ainda assim, a pureza singela dos versos de "Nada a Declarar" e "Filha da Puta" estão ainda mais intensas no formato acústico. Já ouvi alguém dizer que o verdadeiro hino nacional é "Inútil" e não aquele outro cheio de empolações e figuras de linguagem.

O melhor desse acústico é que talvez agora as gravadoras resolvam acordar e recolocar no mercado a discografia do Ultraje a Rigor. De resto, fica a lição de que rock se faz assim mesmo: direto, sem frescuras e sem invencionices. O Ultraje acabou ensinando a MTV como se faz um acústico. Tomara que ela tenha aprendido.




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Sobre Sílvio Costa

Formado em Direito e tentando novos caminhos agora no curso de História, Sílvio Costa é fanzineiro desde 1994. Começou a colaborar com o Whiplash postando reviews como usuário, mas com o tempo foi tomando gosto por escrever e espera um dia aprender como se faz isso. Já colaborou com algumas revistas e sites especializados em rock e heavy metal, mas tem o Whiplash no coração (sem demagogia, mas quem sabe assim o JPA me manda mais promos...). Amante de heavy metal há 15 anos, gosta de ser qualificado como eclético, mesmo que isto signifique ter que ouvir um pouco de Poison para diminuir o zumbido no ouvido depois de altas doses de metal extremo.

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