Resenha - Pista Livre - Cachorro Grande
Por Cristiano Viteck
Postado em 01 de junho de 2005
O título do segundo disco da Cachorro Grande foi profético. "As Próximas Horas Serão Muito Boas", lançado pela revista Outracoisa em meados do ano passado, escancarou as portas para os gaúchos, que a partir dele conseguiram consolidar a Cachorro Grande como um dos principais nomes do underground nacional, tanto é que no início de maio a banda levou o Prêmio Claro de Música Independente na categoria "álbum de rock", o que também não chegou a ser nenhuma surpresa. Mas o caminho foi sofrido. Depois de serem recusados por uma gravadora no Rio Grande do Sul, por achar o material de "As Próximas Horas..." sem qualidade técnica, e de serem abandonados pela gigante Universal quando estavam prestes a assinar um contrato para o lançamento deste mesmo segundo álbum, os músicos da Cachorro Grande comeram poeira na estrada, tocaram em praticamente todos os cantos do país, consolidaram a fama de fodões do rock nacional até chegarem agora ao terceiro disco "Pista Livre", cujo título é tão profético quanto o do álbum anterior.
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O negócio é o seguinte: 2005 é o ano da Cachorro Grande e não tem pra mais ninguém.
Além de contar pela primeira vez com um esquema de divulgação e distribuição decente, resultado do contrato com a Deckdisc, a banda tem nas mãos um álbum digno de figurar desde já entre os maiores já gravados no Brasil. De forma inédita, o grupo conseguiu trabalhar em um estúdio profissional no Rio de Janeiro, onde registrou as canções que, para a surpresa de Beto Bruno (vocal), Marcelo Gross (guitarra), Jerônimo Bocudo (baixo), Gabriel Azambuja (bateria) e Pedro Pelotas (teclado) foram receber a lapidada final nos estúdio Abbey Road, em Londres, onde foi masterizado por Chris Blair, que tem no currículo trabalhos com Radiohead (o que não significa muita coisa para a Cachorro Grande) e Supergrass (aí sim na praia deles). Isso significa que o som tosco de "As Próximas Horas Serão Muito Boas" ficou para trás para dar lugar a canções melhor acabadas que, se por um lado, se afastam do espírito garageiro, por outro dão maior credibilidade à fase mais profissional que a Cachorro Grande tem vivido atualmente.
Não entendam mal. Dizer que a banda está mais profissional não quer dizer que os caras amoleceram. As faixas "Você Não Sabe o Que Perdeu" e "Agora Eu Tô Bem Louco" estão aí para provar isso. Enquanto que a primeira remete imediatamente aos rocks clássicos dos anos 70 com seus riffs stonianos, a segunda é a canção mais ensandecida que a Cachorro Grande conseguiu registrar até hoje - a guitarra alucinada de Marcelo Gross encontra um par perfeito na voz rasgada de Beto Bruno, que juntos fazem o sucesso "Hey Amigo", do disco anterior, parecer canção de ninar.
Até aí, nada de muita novidade. As surpresas e experimentações da banda começam a aparecer a partir da terceira faixa "Desentoa", onde a Cachorro Grande flerta com a música disco do final dos anos 70 e o resultado é hipnotizante. Enquanto isso, "Longa-Metragem" começa quente para receber uma quebra no tempo e voltar toda esporrenta no refrão. Mas é em "Interligado", canção escrita há mais de cinco anos, que a banda surpreende de verdade ao trazer o vocalista Beto Bruno acompanhado por um arranjo de cordas que inclui violino, cello e viola. Nem a banda nega: é a "Eleanor Rigby" da Cachorro Grande. A última novidade no quesito "experimentações" é "Sinceramente". A música é um baladão meloso, quase brega, do tipo que vai embalar muitos amantes durante os momentos de maior intimidade. Sucesso radiofônico, pode ter certeza; o que também deve acontecer com a faixa "Bom Brasileiro", outra balada, mais aí sim mais com a cara da banda mesmo. No mais, o resto do disco é a Cachorro Grande mostrando o que sabe fazer de melhor: rock canalha, simples e direto, sendo os melhores exemplos "Eu Pensei" e "Novo Super-Herói", aqui tirando sarro das bandas que mudam de estilo buscando sempre acompanhar o sonzinho da moda. Para encerrar tem "Velha Amiga", um road rock em que a banda faz uma declaração de amor e ódio pela vida na estrada.
Não há muito mais o que dizer de "Pista Livre" sem soar repetitivo. Dizer que é um item obrigatório na coleção de qualquer um que tenha um mínimo de consideração pelo rock n’ roll é chover no molhado. Bom, você pode até fazer biquinho, dizer que o Beto Bruno já não berra mais tanto como antes, que a Cachorro Grande já não quebra os instrumentos nos shows, que agora isso e aquilo. Mas aí o risco é seu e você realmente nunca vai saber o que perdeu.
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