Resenha - Real Illusions: Reflections - Steve Vai
Por Nelson Endebo
Postado em 25 de abril de 2005
Os fãs do virtuoso guitarrista norte-americano Steve Vai já podem beijar o céu: "Real Illusions: Reflections", álbum de título pomposo, chega às lojas como o legítimo sucessor de "The Ultrazone" no cronograma dos discos "de carreira" do sujeito. Desde 1999 até hoje, Vai lançou as coletâneas "Seventh Song", só com as sétimas faixas de seus trabalhos anteriores – a numerologia explica -, "The Elusive Light And Sound", com composições feitas para o cinema, o falso duplo ao vivo "Alive In An Ultra World" e títulos menores, partes de um projeto de Box destinado somente aos fãs mais doentes (e ricos - a caixa não saiu por aqui), além do DVD "Live At The Astoria". A Epic, esperta, também colocou na praça uma retrospectiva em CD duplo, intitulada "The Infinite Steve Vai". Agora, seis anos depois, a pergunta é a seguinte: será que ainda vale a pena ouvir o trabalho de Steve Vai?

"Real Illusions: Reflections" é um produto conceitual. Tudo bem, "Seventh Song", de certo modo, não deixa de ser conceitual, assim como "Firegarden", de 1996. Definido pelo próprio Vai como "a primeira parte de uma coleção de vinhetas baseadas nos delírios de um louco que busca a verdade vivendo nesse mundo", o novo álbum é mais-do-mesmo em sua discografia. Tal como as cartas do Tarô, Steve Vai pretende explicar algumas cositas com sua música. Objetivos definidos, vamos ao disco em si.
Lembrar que Vai já fez parte da banda de Frank Zappa não é mais necessário. Todo mundo sabe disso. Além do mais, sua passagem pela banda de Zappa foi há muito tempo. Lembrar que Vai gravou um dos discos mais importantes da História da guitarra moderna, "Passion and Warfare", - agora sim! - é obrigação. Steve se torna, a partir de "Real Illusions: Reflections", sua própria referência. O novo álbum é, morfologicamente falando, um apanhado de tudo que ele já fez nesses vinte e tantos anos de guitarradas: possui o peso de "Passion and Warfare", a veia rocker de "Alien Love Secrets", o experimentalismo de "The Ultrazone" e "Firegarden".
Escudado por uma banda praticamente idêntica à que o acompanhou nas constrangedoras apresentações do G3 no Brasil, Billy Sheehan (baixo), Dave Weiner (guitarra) e Jeremy Colson (bateria) – Tony MacAlpine não -, o guitarrista naufraga em sua própria história. Desde sempre, Vai tem sido mestre em fundir seu vocabulário avançado de guitarra com o que há de mais imediato no mundo do showbusiness. Não funciona agora. Com a pretensão de ser a concretização de certas convicções do rapaz, "Real Illusions: Reflections" é risível. Ninguém, em sã consciência, poderá levar as elucubrações do guitarrista a sério. É como escrever ensaio literário sobre a trama de "Avantasia". Simplesmente não dá.
Em seu site oficial, Vai disponibilizou dezenas de informações sobre cada uma das onze faixas do novo álbum, incluindo a parte "cerebral" do momento criativo. As fraquezas e fragilidades de Vai enquanto músico ficam evidenciadas em carne viva. Megalomaníaco, grava (na sétima faixa, "Lotus Feet") com a mesma orquestra que acompanhou o guitarrista e amigo pessoal Mike Keneally, em seu último e obrigatório álbum, "The Universe Will Provide", já resenhado no Whiplash!. Escreve canções para serem cantadas por um vocalista, ao passo que o próprio imagina sê-lo. Não o é. Fica a saudade de Devin Townsend. Ouça "I’m Your Secrets" e tenha coradas as maçãs do rosto. Compõe música pesada instrumental seguindo a cartilha de Joe Satriani para contar historinhas metafísicas, em "Building The Church", a faixa de abertura.
Os experimentos são quase bem-intencionados. Senão vejamos: o talkbox em "Yai Yai" garante bons momentos e as brincadeiras com scat vocals em "Firewall" também são bacanas. E só. Sobram funks murchos (na própria "Firewall"), latinices de araque (na auto-indulgente "Freak Show Excess", de título auto-explicativo) e hard rocks que, caso fossem servidos com arroz e feijão, garantiriam o sorriso besta da família no domingo. Os fãs, em sua maioria desprovidos de qualquer senso crítico em relação ao próprio objeto de devoção, deverão aplaudir efusivamente a nova empreitada de Steve Vai. A técnica privilegiada (não por Deus – algum mérito ele tem) continua lá, com solos cada vez mais abusivos. A famosa fusão de escalas, a produção cuidadosa, os slides monumentais: tudo continua ali, firme e forte. Já a musicalidade... Esta fica em segundo plano, surrada e maltratada no canto do estúdio.
Steve Vai consegue, em "Real Illusions: Reflections", o mesmo que os irmãos Wachowski conseguiram com "Matrix": um grande aparato técnico para disfarçar suas próprias deficiências. Na aléia dos artistas, os três estão excluídos, ao mesmo tempo em que gozam de grande reputação junto ao público. Vai não faz arte, faz entretenimento. Como tal, é manipulador e estrategista. Não é sensível. Usa alegoria como estandarte e se dá bem.
Site oficial: www.vai.com
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