Resenha - In Utero - Nirvana

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Por Maurício de Almeida (Maquinário)
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A fama do Nirvana alcançava altos níveis quando a necessidade de um novo disco de músicas inéditas se fazia presente. Na verdade, esta necessidade já era realidade há algum tempo, e por isso mesmo foi lançada a coletânea "Incesticide", em 1992, a fim de acalmar os fãs mais impacientes. Funcionou, mas não por muito tempo. Músicas inéditas do Nirvana pós-Nevermind eram esperadas, e mesmo que sobras de estúdios do início da carreira alegrasse colecionadores, a curiosidade de ver por quais caminhos a banda iria se enveredar era muito maior. Entretanto, por volta de 1993, o estado do vocalista - e agora ídolo - Kurt Cobain já não era dos melhores, agravado principalmente pela ultra-exposição causada pelo disco de "Smells Like teen Spirit".

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Contradições e debates à parte, o sucesso incomodou não apenas a banda, mas principalmente Cobain. Avesso as conseqüências de ter vendido centenas de milhares de discos por todo o mundo, a idéia agora era fazer um disco que não desse continuidade a Nevermind, um disco sujo, que voltasse às origens. Não à toa Steve Albini foi chamado para produzir o então intitulado "I hate myself and I wanna die". Responsável pelo discos como "Surf Rosa", primeiro do Pixies, Albini produzira também Breeders, Tad e PJ Harvey. Conhecido por seu desapego a indústria fonográfica, ele seria o produtor que não faria a banda gravar um novo Nevermind e, principalmente, um novo "Smells like teen Spirit". Ou seja, exatamente o que a banda - principalmente Kurt - queria.

Apesar dos ataques de depressão, crises de choro e crises criativas de Cobain, a gravação de In Utero foi feita em pouco mais de dez dias. Seco, direto e sincero, In Utero é quase como um desabafo, e não precisa ser nenhum gênio para prever que a Geffen - gravadora da banda - não iria gostar do resultado de um trabalho como este. Após intensas discussões, o primeiro passo foi convencer a banda a mudar o título do álbum. "I hate myself and I wanna die" era um título muito forte, que causaria um certo mal estar no mercado. Convencido não só pelos executivos, mas também pelos companheiros de banda, Cobain cedeu e intitulou o disco de "In Utero", deixando o humor ironico do antigo título de lado. O segundo, e mais complicado passo, foi encontrar em meio aquelas canções um ou duas que poderiam ser os singles que levariam o álbum. Dentre todas, "Heart-Sharped Box" e "All Apologies" foram as escolhidas, e receberam um toque de Scott Litt, produtor do R.E.M, para torná-las mais acessíveis - entende-se aqui que as músicas levaram o chamado "banho de mesa", processo pela qual ela é "limpa" das sujeiras propositalmente deixadas pela banda durante sua gravação.

Em setembro de 1993 "In Utero" chegou às lojas, não vendendo tanto como Nevermind, mas alcançando ao topo das paradas muito mais rápido, afinal, o lançamento deste disco era mais do que esperado. Os pouco mais de quarenta minutos de crueza não agradaram muito aos que tinham o disco anterior como base de comparação. Além disso, muitas lojas proibiram a venda do disco devido ao título de uma das músicas ser "Rape me" ("Estupre-me"), só liberando as prateleiras quando o título foi trocado por "Waif me". Cheio de contravenções, ironias e sinceridades, "In Utero" é recheado, principalmente, de boas canções. Fugindo da fórmula que consagrou Nevermind, a auto-sabotagem de Cobain foi algo que a banda teve que lutar de tempos em tempos durante as gravações. As canções poderiam ser cruas ou diretas, mas não precisavam ser ruins, ou melhor, propositalmente ruins. Há alguns erros intencionais, como em "Frances Farmer will have her revange on Seatlle", onde uma nota escorregada serve para mostrar que somos tão humanos como Frances Farmer (atriz que foi internada num hospício), logo, suscetíveis a erros como ela, mas nada que possa comprometer o disco. Muito pelo contrário, diga-se de passagem.

Logo na abertura, a dissonância da primeira nota diz 'o disco é isso, esqueça o Nirvana verso-refrão-verso de Nevermind'. "Serve the Servents" é uma das canções mais autobiográficas do disco, pois versos como "I tried har to have a father but instead I had a dad" deixam transparecer a relação conflituosa de Kurt com Don Cobain, seu pai. Ainda no âmbito familiar, o refrão desta mesma música diz que "that legendary divorce is such a bore", retratando a influência do divórcio dos pais na vida do músico. Seguindo com o peso e as microfonias, há ainda "Frances Farmer will..." - que, como dito, é uma homenagem a Frances Farmer, atriz de Seatlle que alcançou certa fama em hollywood na década de 30, mas após isso passou por diversos hospitais psiquiátricos, se tornando uma espécie da obsessão de Kurt - "Very Ape", "Milk it" e "Radio Friendly Unit Shifter" - todas completamente dissonantes e estranhas numa primeira audição, teriam espaço garantindo no primeiro trabalho da banda -, além de "Tourette's" - música escrita e composta com base numa doença conhecida como "Síndrome de Tourrete", na qual seus portadores incontrolavelmente distribuem palavrões e resmungos.

Não menos pesadas, mas possuidoras de harmonias mais comuns, estão "Scentless Apprendice" - baseada no romance de Patrick Süskind chamado "O Perfume". A música se originou de uma linha de bateria composta por Dave Grohl, que, por sinal, é a mesma da introdução da música -, os singles de trabalho "Heart-Sharped Box" e "All Apologies", a balada "Dumb" - uma das letras mais comoventes já escrita por Kurt ao longo de sua carreira -, e "Pennyroyal Tea", talvez uma das músicas mais pesadas do disco, já que "pennyroyal" é um chá abortivo, e a letra - assim como o restante do álbum, inclusive seu título - pode ser encarada como uma necessidade de Kurt a voltar a ser bebê e evitar todo o sofrimento pelo qual vinha passando. O chá em questão o traria morto ao mundo. Além destas, há a controversa "Rape me", na qual a introdução propositalmente remete a "Smells like...", a fim de chamar a atenção do ouvinte à letra, que, conforme ressaltado pela banda no vídeo "Live, tonight, sold out", é anti-estupro.

Uma curiosidade do disco é a faixa fantasma (crediatada na edição nacional) "Gallons Of Rubbing Alcohol Flow Through The Strip", gravada nos estúdios da BMG Ariola, no Rio de Janeiro, quando da passagem da banda aqui no Brasil para o Hollywood Rock, em 1993. Outra curiosidade é que foi neste disco a primeira vez que Kurt dividiu a composição das músicas. Na verdade, foi apenas uma música, "Scentless Apprendice", creditada a Krist Novoselic e Dave Grohl, além de Kurt Cobain. Este fato demonstrava que a crise criativa de Cobain estava começando a se acentuar, e não à toa ele já começava a remexer em velhos rasunhos atrás de idéias. Ou seja, a famosa passagem de sua carta de suicício ("I haven't felt the excitement of listening to as well as creating music along with reading and writing for too many years now.") começava aqui.

O ponto é que, além de todas as controvérsias que rondam não apenas este disco, mas aquase a discografia inteira, "In Utero" é um passo, o penúltimo da carreira de uma das bandas que marcaram a música na década de noventa. E talvez a primeira versão da carta de despedida de Kurt Cobain.




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