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2022/07/09
2022/08/18

Resenha - Temple Of Shadows - Angra

Por Bruno Coelho
Em 27/09/04

Nota: 10

A primeira vez que sentei para escutar este novo disco do Angra foi com aquele nervosismo de quem aguarda um filho. Nunca tive um, mas imagino a angústia que deve ser aguardar a perpetuação de seu sangue feito vida. "Nascerá saudável? Sem defeitos congênitos? Será que vou amá-lo?" Não sei quanto a vocês mas estava extremamente curioso quanto a este trabalho. A banda encontrou em Temple Of Shadows a fórmula de Speed/Power/Prog Metal mais assombrosamente fantástica dos últimos tempos. Prometo ser curto nesta resenha já que insisto em escrever demais quando me empolgo com um CD.

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Mesmo sendo um fã inveterado da banda, sou um crítico ferrenho das bandas que mais gosto, por isso peço que não me tachem de "babão" pelo que direi nas linhas a seguir. Lembro de já ter dado uma nota baixa para uma das bandas que mais gosto - o In Flames e o seu "Soundtrack To Your Escape", por isso me poupem de comentários infundados do tipo: "esse cara deve ser parente do Kiko Loureiro". Não ganho nada com uma resenha positiva de qualquer que seja a banda ou sua gravadora.

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Muitas pessoas pela internet têm dito que o Angra perdeu várias de suas características principais - vendendo-se descaradamente para ganhar mais público na Europa. É verdade que o Angra soa um pouco diferente neste novo disco, mas nem de longe deixa de ter as principais características de sua carreira: refrãos marcantes, melodias belíssimas, técnica apurada dos músicos e um forte tom de musicalidade brasileira. Justamente este ponto tem sido bastante discutido nos murais e nos chats: a falta de elementos brasileiros neste disco. FALTA DE ELEMENTOS BRASILEIROS?!?!? Eu não sei de onde tiraram isso, mas foi a coisa mais infundada que li por aí sobre o "Temple and Shadows"! O Angra deixou de usar as "batucadas afro-brasileiras" e as maravilhosas tradições nordestinas para adotar um lado da música brasileira não menos importante: a bossa nova e a MPB.

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Bom, chega de blá-blá-blá. Vamos ao disco:

"Deus Le Volt" é a já tradicional faixa orquestrada de abertura. Uma peça bem escrita e com climas bem mais voltados ao das trilhas sonoras de filmes que à uma famosa sinfonia de Bach, Beethoven ou Vivaldi. Ela prepara o terreno para a chegada de uma das melhores faixas já gravadas pelo Angra e que, sozinha, já vale o disco todo: "Spread Your Fire". Esta faixa possui um refrão fantástico, aquela velocidade misturada à criatividade e técnica que poucas bandas conseguem fazer satisfatoriamente. Bem superior em todos os aspectos à faixa de abertura do Rebirth em termos de composição - o que deve ser visto como um grande elogio já que "Acid Rain" ainda é a favorita de muita gente dentro da carreira do Angra. "Spread Your Fire" já mostra uma forte mudança no estilo de composição, onde os mesmos elementos de sempre estão presentes, mas apresentados de uma forma mais viva, mais vibrante ainda - se é que isso é possível no Angra.

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Tá bom, tá bom... "Angels and Demons" realmente lembra o período André Matos em vários momentos e até os vocais do Edu parecem uma cópia do que Matos já fez no Angra. Alguns podem achar que pegou mal, mas é aí que eu defendo a banda! Não era Angra que vocês queriam? André Matos é ou não é um marco na carreira da banda? Pois aí está uma homenagem àquele grande vocalista! Uma faixa que parece ter sido feita sob medida pra quem criticava tanto o Angra após a saída de Matos, mas ainda assim cheia de novas cores e tonalidades - algumas nos remetem ao Dream Theater. Rápida e marcante como uma boa faixa da banda deve ser.

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"Waiting In Silence" é uma excelente faixa, com uma grande linha melódica e, o melhor de tudo, uma demonstração do que Felipe Andreoli e Aquiles Priester são realmente capazes de fazer! Aquiles brinca com seu bumbo duplo não só em velocidade, mas na linha em si, fazendo do bumbo mais do que um instrumento de marcação - algo que um de seus ídolos, Richard Christy, deve tê-lo ensinado em sua brilhante carreira no Death. Felipe humilha em um tapping cheio de bom gosto e técnica. Aliás, Felipe aparece muito mais neste álbum que em Rebirth.

Uma bem-vinda quebrada de ritmo chega com a bela "Wishing Well". Mais uma boa linha melódica criada pela banda, esta faixa é uma quase power-ballad, apresentando várias nuances prog e até algo de pop. Não consegui identificar as influências mais latentes nesta faixa e espero que os fãs me ajudem nessa!

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Aí vem aquela sacanagem que nem fã espera quando sabe de uma participação especial! Todos sabiam que Kai Hansen iria cantar uma faixa com Edu, o que ninguém sabia é que a faixa teria sido escrita justamente para a voz dele! Bom, se ela não foi escrita para a voz de Kai devo dizer que caiu com uma luva para ele! Além de ter aquele clima bem Gamma Ray do "Somewhere Out In Space", a faixa, mais uma vez, conta com um grande refrão e com um solo muito inspirado. Acho até que vou parar de escrever isto já que é uma gloriosa constante no álbum.

Taí! Taí, Brasil aí! Não tem Brasil no disco, é? Apenas os primeiros segundos são música flamenca. Depois você nota como o violão flamenco casa com o violão tipicamente brasileiro e com uma melodia que só falta berrar: BRASIL-IL-IL! Tudo isso cresce para desembocar em uma inspirada linha de guitarra. "The Shadow Hunter" é mais uma boa faixa do disco. Não saberia dizer se uma das melhores, uma das que os fãs terão como favoritas, mas com certeza um trunfo a mais no disco.

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E isso agora não é Brasil? A melodia, o violão? "No Pain For The Dead" pode enganar quem acha que tudo que o Angra fez neste álbum foi pasteurizado na Alemanha. Uma faixa bem estrutrada e que, assim como "Spread Your Fire", conta com a presença de Sabine Edelsbacher (Edenbridge) em um dueto emocionante com Edu. Edu mostra como se sai muito bem em faixas cadenciadas, lembrando muito, mas muito mesmo, Bruce Dickinson nas vocalizações de algumas passagens.

Infarto certo! Participação de Hansi Kursch (Blind Guardian) nos vocais? Quem é fã de Heavy Metal com certeza considera Kursch um gênio! Quando alguém participa de um álbum nunca se espera que ele apareça logo de cara... mas, espera aí... É o Hansi que entra antes do Edu! Diferente e inustitada, a participação de Hansi é, no mínimo, marcante e extremamente profissional. As linhas vocais dessa faixa apresentam aquelas sobreposições de vozes típicas do Blind Guardian e caíram como uma luva para Hansi. A faixa também é longa como a maioria das faixas do Blind Guardian e nesse momento me pergunto se, realmente, o Angra não tentou fazer algo mais voltado para o mercado europeu... ah! Quer saber de uma coisa? Se os europeus gostaram, ótimo! Tenho certeza que os fãs do Angra estão muito orgulhosos de ter Hansi cantando com Edu nesse disco! Por mim ele pode até cantar em todos. Infelizmente a faixa em si não é das mais bonitas do disco, tendo o invariável refrão marcante, uma boa quebrada no ritmo e um solo bem "Loureirístico", mas só.

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Dessas eu não gostei. "Sprouts of Time" e "Late Redemption" são duas faixas que ainda não consegui absorver adequadamente, mas tenho certeza que isso acontecerá com o tempo. Achei que era hora do pique subir ainda mais no CD e a coisa cai em certa calmaria (sim, mid-tempo para mim é calmaria, eu quero é porrada!), mas ainda assim é possível destacar a dupla Kiko/Rafael. Ouso até lançar um desafio: Qual banda de metal atual possui uma dupla de guitarristas tão talentosos e técnicos quanto o Angra? G3 não vale pô! É um trio!!!

Terminando, temos a excelente (porém, mais uma vez, cadenciada) faixa "Late Redemption" com a participação curta, mas belíssima de Milton Nascimento. Belo dueto Português/Inglês entre Milton e Edu, finalizando a saga do Shadow Hunter. Opa, nem falei que o disco é conceitual, né? AH! Vocês já sabem a história toda? Então tá bom! Mais uma vez uma bela mostra do quão virtuosos são Kiko e Rafael.

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"Gate XIII", que finalmente fecha este novo clássico do metal nacional, é mais uma faixa orquestrada como o Angra sempre fez e, como "Deus Le Volt", apresenta um clima bem mais parecido com o de uma trilha sonora de filme épico do que algo puramente clássico como o Angra costumava fazer. A faixa passeia por todas as melhores linhas melódicas do álbum e coroa muito bem este belo álbum.

Bom, para finalizar, posso garantir que este foi o melhor trabalho do produtor Dennis Ward até hoje e tenho certeza que ele concorda comigo. O som, em geral, supera, e muito, o do Rebirth e faz jus ao talento da banda.

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Se você ouvir dizer que este álbum não passa de uma cópia descarada do que o Rhapsody faz ou fez, te dou este conselho: RIA! RIA MUITO! Quem disse isso não conhece o Rhapsody e muito menos este álbum! É realmente notável a semelhança de algumas partes com trabalhos do Dream Theater, Blind Guardian e do Gamma Ray, as duas canções orquestradas me remeteram ao Symphony X (sendo que os americanos esbanjam muito mais talento do que o Angra para isso) e, em geral, o som está sim mais "europeizado". Dizer que é Rhapsody puro é assinar atestado de completo debilóde.

Parabéns ao Angra: ao Edu pela evolução tremenda (com uma mãozinha do Dennis), ao simplesmente monstruoso Aquiles (mas bá tchê, como tú fazes isso com os bumbos?), ao Felipe por toda a técnica e firmeza, tornando-se um substituto mais que espetacular de um ícone do metal nacional - Luís "Jesus" Mariutti - e, "last but no least", a Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, que mais uma vez compuseram uma obra digna de constar em todas as listas top 10 de todas as revistas especializadas em todo o mundo. E em primeiro lugar!

P.S. Prometi ser curto né? Foi mal! Não deu!

P.S.2 Companheiro de Whiplash, Sílvio Costa disse em sua resenha que este é o melhor disco do Angra até hoje. Concordo completamente com você Sílvio! Concordo e vou mais longe: é o melhor disco de speed/melódico dos últimos 5 anos. Estando bem acima do mundialmente aclamado e também conceitual "Epica" do Kamelot. Quem discordar que me diga qual é!

P.S.3 Recomendo muito a resenha do companheiro Sílvio Costa para que possam entender o conceito e a história central do disco. De uma forma ou de outra, tomei a liberdade de copiar aqui este trecho de sua excelente resenha.

"Shadow Hunter é um cruzado que, ferido numa das inúmeras batalhas para a reconquista da Terra Santa, caída nas mãos dos "infiéis", acaba sendo socorrido por uma família muçulmana. O conflito começa quando o protagonista começa a questionar a validade dos valores pregados pelo catolicismo que, simultaneamente, diz que se deve amar ao próximo, mas promove matanças indiscriminadas contra todos aqueles que não professam sua doutrina. Shadow Hunter se casa com uma jovem oriunda da família que o socorrera. O tempo passa até que ele e sua família precisam ir à Jerusalém e, no período em que estão naquela cidade, o exército cristão invade e mata todas as pessoas. A esposa e os filhos de Shadow Hunter morrem. Ele se torna um peregrino que acaba criando uma nova religião e, por isso, é perseguido, capturado, torturado e morto pela Igreja Católica."

CURTAM O DISCO!


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Sobre Bruno Coelho

Bruno Coelho é Arquiteto, escritor, poeta, produtor de eventos, pai, tradutor, intérprete e professor de inglês. Morou em cinco capitais brasileiras e hoje dedica-se ao árduo labor de organizar eventos na capital maranhense de São Luís. Fã do Dream Theater, Tool, Symphony X, Pain of Salvation e Evergrey, encontra espaço pra novas bandas e vertentes sempre.

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