Resenha - Temple Of Shadows - Angra

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Por Sílvio Costa
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Quem se acostumou ao metal melódico luxuoso com texturas progressivas que o Angra sempre praticou deve se preparar para grandes surpresas em Temple of Shadows. Isto não quer dizer que a banda abandonou o velho estilo e resolveu se aventurar por novos caminhos em busca da “modernização” da sua música. Na verdade, a gama de influências presentes no novo trabalho do Angra é a mesma dos seus outros quatro trabalhos de estúdio. Entretanto, a maneira como esses elementos foram arranjados para dar vida a Temple of Shadows é inovadora e provocativa. Reflexo da liberdade criativa e do nível técnico alcançado pelo quinteto, o disco novo é um largo passo à frente da mesmice que o estilo vem atravessando ultimamente e prova definitiva de que talento não se toma emprestado nem se disfarça com campanhas publicitárias milionárias. É preciso esforço, muita disciplina, mas, acima de tudo, amor pela música. E esses ingredientes o Angra sempre teve de sobra.
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Em linhas gerais, Temple of Shadows não é apenas o melhor disco do Angra até o momento. É também um marco no estilo, que tem sido bastante criticado pela pouca capacidade de renovação. São músicas que mantêm uma certa aura “cinematográfica”, já que a história é muito parecida com um daqueles épicos que têm passeado pelas telas ultimamente. Mas o Angra foi muito mais além e criou um conceito que provoca reflexão, questionamento, mas, acima de tudo, deslumbramento.

Shadow Hunter é um cruzado que, ferido numa das inúmeras batalhas para a reconquista da Terra Santa, caída nas mãos dos “infiéis”, acaba sendo socorrido por uma família muçulmana. O conflito começa quando o protagonista começa a questionar a validade dos valores pregados pelo catolicismo que, simultaneamente, diz que se deve amar ao próximo, mas promove matanças indiscriminadas contra todos aqueles que não professam sua doutrina. Shadow Hunter se casa com uma jovem oriunda da família que o socorrera. O tempo passa até que ele e sua família precisam ir à Jerusalém e, no período em que estão naquela cidade, o exército cristão invade e mata todas as pessoas. A esposa e os filhos de Shadow Hunter morrem. Ele se torna um peregrino que acaba criando uma nova religião e, por isso, é perseguido, capturado, torturado e morto pela Igreja Católica.

Desde a abertura, com “Deus le Volt”, uma daquelas faixas introdutórias tão típicas dos discos do Angra, dá para perceber que alguma coisa mudou. A seqüência, com “Spread your Fire” e a rapidíssima “Angels and Demons” mostram que a banda não abandonou as antigas influências, mas apenas as trabalhou de modo a tornar Temple of Shadows mais dinâmico e diversificado. “Spread Your Fire” traz a voz de Sabine Edelsbacher (Edenbridge) e backing vocals grandiosos. O interlúdio instrumental é de tirar o fôlego. Estonteante é “Angels and Demons”, com uma introdução que parece saída de uma música do Dream Theater. O peso do baixo de Felipe Andreoli e das guitarras de Kiko e Rafael são de impressionar. Além disso, o refrão emocionante deve fazer desta música um dos pontos altos da nova turnê. É difícil destacar alguma faixa, já que todas têm um ou mais atrativos. “Winds of Destination”, por exemplo, ainda que não tivesse servido de palco para uma aula de agressividade por parte de Aquiles Priester nem fosse a música em que os teclados de Fábio Laguna soam mais expressivos, conta com a competência de Hansi Kürsh nos vocais, que, por si só, já a transforma num dos principais destaques do disco.

Mas não são apenas as faixas rápidas, como a maravilhosa “The Temple of Hate” (com os vocais de Kai Hansen) que impressionam. Músicas mais complexas, como “The Shadow Hunter” e “Sprouts of Time” são os maiores atrativos do disco. As composições são repletas de variações harmônicas e, mesmo naquelas em que o heavy metal predomina e não dá espaço para experimentalismos, há sempre uma preocupação enorme em soar diferente e original.

Se o assunto são performances individuais, não há muito que se falar de Temple of Shadows. Kiko Loureiro nunca precisou provar que é um dos melhores guitarristas do mundo, mas fez questão de se mostrar diversificado em Temple of Shadows, indo desde o heavy metal mais básico ao violão clássico com tranqüilidade e segurança. Rafael é o criador do conceito e responsável pelas letras mais inspiradas que o Angra já apresentou até aqui. Aquiles Priester e Felipe Andreoli já haviam mostrado todo o seu potencial em Rebirth, mas aqui eles foram ainda mais longe.

Que Edu Falaschi é um dos melhores vocalistas da atualidade já era notório desde Rebirth. Porém, o nível exigido por Temple of Shadows, em virtude da profundidade dos temas abordados, criaram um novo parâmetro para que se compreenda o trabalho do cantor. Ele não se limita a cantar, mas também interpreta de modo magistral todas as canções do álbum. “Late Redemption”, por exemplo, é uma das faixas mais densas do disco não apenas pela presença de Milton Nascimento, mas pelo trabalho magnífico de interpretação de Edu. Feeling e técnica na medida exata. Não foram apenas os músicos que evoluíram monstruosamente. Edu é um novo cantor e isso tende a ser ainda mais explorado pelo Angra não somente no estúdio, mas, especialmente, ao vivo.

Talvez na pressa de contar-lhes minhas impressões do novo álbum do Angra eu tenha perdido alguns elementos-chave para a compreensão da profundidade tanto lírica quanto musical de Temple of Shadows. Na verdade, esse é um disco que exige sucessivas audições, significando sucessivas descobertas. O Angra ampliou incrivelmente o espectro de suas influências e, talvez isto represente um novo sopro de ânimo ao estilo e, principalmente, para a banda. De qualquer modo, Temple of Shadows ultrapassa os limites do heavy metal e eleva a música do Angra a um patamar artístico jamais sonhado. O Angra criou uma música que é, antes de tudo, ousada e criativa e é isso que tem feito muita falta no cenário do heavy metal nos últimos tempos.

Site Oficial: www.angra.net

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Sobre Sílvio Costa

Formado em Direito e tentando novos caminhos agora no curso de História, Sílvio Costa é fanzineiro desde 1994. Começou a colaborar com o Whiplash postando reviews como usuário, mas com o tempo foi tomando gosto por escrever e espera um dia aprender como se faz isso. Já colaborou com algumas revistas e sites especializados em rock e heavy metal, mas tem o Whiplash no coração (sem demagogia, mas quem sabe assim o JPA me manda mais promos...). Amante de heavy metal há 15 anos, gosta de ser qualificado como eclético, mesmo que isto signifique ter que ouvir um pouco de Poison para diminuir o zumbido no ouvido depois de altas doses de metal extremo.

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