Resenha - Vida - Imago Mortis
Por Raphael Crespo
Postado em 01 de janeiro de 2004
Texto originalmente publicado no
JB Online e no Blog Reviews & Textos.
Chega a causar espanto a qualidade obtida pela banda carioca Imago Mortis em seu segundo e mais recente CD - Vida, The play of change. Batalhadora do underground, a banda alcançou com este lançamento um nível comparável a qualquer outro grande nome do heavy metal, não só do Brasil, mas do mundo. E o alto nível não se resume apenas ao som, mas a outros fatores, como letras e produção gráfica, que fazem deste trabalho uma verdadeira obra-prima.

Vida, the play of change, é um álbum conceitual, que fala de um indivíduo que sofre de 'vida', uma doença terminal. Para compor as letras, a banda fez uma grande pesquisa com pacientes terminais, com o objetivo de conhecer todo o sofrido processo pelo qual passa uma pessoa que tem uma doença incurável e está no leito de morte. E as músicas seguem a história do personagem ''Me (Eu)'', que começam com um sonho, quando ele está numa ambulância, e termina com sua morte, quando ele é libertado da dor e do sofrimento.
Ao longo do álbum, o que se vê, e se ouve, é uma sucessão de letras belíssimas, compostas de diálogos entre o personagem principal e outros como Dr. White (cirurgião), Dr. Grey (psiquiatra), Father Black (padre), God (Deus), The Devil (o Diabo), Christ, descrito como ''um personagem doente'', entre outros. Tudo isso regado a um instrumental fantástico, que varia do heavy metal melódico, passando muitas vezes pelo doom-metal - um estilo pesadíssimo e lento - e, em alguns momentos, até mesmo pelo metal mais extremo, como na faixa Pain.
O vocalista Alex Voorhees é um dos grandes destaques do álbum e sua versatilidade fica evidente na sequência das faixas Three parchae e a já citada Pain, uma das melhores do álbum. Na primeira, o vocal é mais limpo, com falsete, típico do metal melódico, enquanto a segunda é gritada como se o próprio Diabo estivesse de posse do microfone.
As músicas, apesar de seguirem uma ordem cronológica na história, no caso a agonia de ''Me'', diferem bastante na parte instrumental, justamente pelas variações vividas por um doente terminal. Pain é a mais pesada das faixas, justamente por retratar a fase mais revoltada, em que o paciente mais sofre e implora pela morte. ''Eu não preciso de mais flores/Eu não preciso de mais simpatia/Eu não preciso de mais integração/Tratamento, eu não preciso/Eu não preciso de mais dor... Me dê o que eu preciso'', diz a letra.
A letra de Envy (Inveja) é reveladora, pois aborda a inveja que uma pessoa nesse estado tem das saudáveis que a cercam: ''Me sinto tão mal quando te vejo tão feliz/Me sinto tão mau/Não me pergunte a razão... Como esses lábios podem sorrir, quando estão provando do veneno?''. Logo depois, a faixa Me and God descreve uma tentativa desesperada do paciente em se agarrar com Deus, pedindo mais uma chance. Quando vê que rezar não adiantou, ''Me'' sonha, em The Silent King, com o Diabo, que diz: ''Sim, eu sou o Rei do Silêncio/O espelho do passado/Como é pagar suas contas/Quando lhe resta apenas um minuto?''.
A morte de ''Me'' acontece na 10ª faixa, Unchained Prometheus, uma música instrumental, em que o descanso final do paciente é indicado apenas pela frase ''I am free (estou livre)'', grafada no belo encarte. A 11ª música, Saudade, é o enterro de ''Me'', com um longo instrumental em que ''You'', descrito no encarte como ''alguém que vá sentir falta do personagem principal'', diz no final, em português mesmo: ''Triste parto/Sonho de um sonho que se desfez/Dormir, talvez, e não ser mais/Vida que jaz num retrato/De onde não me vês, não mais estás''.
O CD termina com a excelente faixa multimídia Play of change, que possibilita ao jogador reconstruir a história contada nas letras através do sorteio de seis cartas. Ele faz uma pergunta e a resposta é dada pelo I Ching, o Livro das Mutações', que é o mais antigo livro de sabedoria do mundo. Epílogo perfeito para um trabalho irretocável.
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