Resenha - Tonight's The Night - Neil Young

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Por Guilherme Rodrigues
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Oitavo álbum de Neil Young (pela ordem cronológica de lançamento), "Tonight’s The Night" é o retrato deste canadense numa das principais encruzilhadas - senão a principal - de sua carreira.

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Era 1973 e Young sofrera dois knock downs daqueles impossíveis de suportar de pé... as mortes de dois amigos chegados, Danny Whitten e Bruce Berry (ambos por overdose), respectivamente guitarrista e roadie de sua eterna Banda de apoio, a Crazy Horse (e eventualmente roadie do super-grupo Crosby, Stills, Nash & Young)...

Suas composições da época, natural, vinham embebidas de noites perdidas, estrada, tristeza e rock & roll... refletiam um lado soturno, descrente, "cruelmente realista" (é pleonasmo? bom, desde que você considere que todas as realidades possíveis são cruéis... no caso de Young, creia-me, não eram!) sobre a farsa que era a "cultura da droga", então no apogeu (farsa, mas até justificável... digamos que se você fosse um rockstar nos ‘70s e não se drogasse, certamente estaria credenciado a participar do show de fim-de-ano na Casa Branca junto com os Osmonds e Burt Bacharah... o que você faria se, artisticamente, te chegasse esse dia?)

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A reunião das canções compostas nesse período resultou em "Tonight’s The Night", um projeto que Neil concebeu como:

A) um tributo a seus amigos mortos, numa tentativa de transmudar a dor que sentia por estas perdas em algo produtivo, arte;

B) uma banana daquelas bem grandes, descascadas e escorregadias para as pressões que a indústria fonográfica (nominalmente a Reprise Records, subsidiária da Warner Bros.) vinha exercendo para que ele engendrasse uma linha de montagem de hit singles com aquele charme new mother nature de seu premiadíssimo disco anterior, "Harvest" (se bem que "Alabama", "The Needle & The Damage Done" e "Words [Between The Lines Of Age]", canções de "Harvest", nada têm de leves e pastoris)...

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Solidária com Neil na dor e sensível artisticamente, a Reprise Records vetou o lançamento de "Tonight’s The Night" pelo caráter, digamos, excessivamente "pesaroso" das letras e das performances "anormalmente desafinadas" de Neil (isso é que é sensibilidade, não?)... confrontado, Young passou o ano de 1973 praticamente se sabotando com trabalhos absolutamente fora de foco como o ao vivo "Time Fades Away" e a trilha sonora do documentário sobre sua carreira "Journey Through The Past".

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1974 chegou e o medo de perder o Young galinha dos ovos de ouro fez com que os engravatados da Warner refletissem melhor, ultimando por dar plena liberdade para que Neil concebesse projetos, compusesse e interpretasse canções da maneira que mais lhe conviesse como artista. Só que, então, o vilão passou a ser a imprensa, que (da mesma maneira como hoje incensa inapelavelmente) na época crucificava qualquer coisa que Young fizesse (ele próprio assumiu mais tarde que foram tempos ruins, que ele detonava gratuitamente os jornalistas, pouco se importando com críticas e resenhas de "desentendidos", por aí afora)... Young sabia que se soltasse "Tonight’s The Night", o disco seria despedaçado pela crítica e, provavelmente, mal recebido pelo seu público (chegou mesmo a testar as canções em shows, mas invariavelmente não despertavam reação no público, ansioso por ouvir o #1 hit "Heart of Gold"). Então, deu um tempo no projeto, compôs novas canções, ensaiou e produziu o tão excepcional quanto cult "On The Beach" (1974), que tratava de assuntos não menos azedos do que a temática de "Tonight’s", mas que tinham um viés mais abrangente e cotidiano (esculhambando o esquema rockstar de LA, enxovalhando os críticos de vida críptica ou dando uma - a primeira de várias - resposta ao Lynyrd Skynyrd [Banda que fez "Sweet Home Alabama" em resposta aos libelos de Young, "Southern Man" e "Alabama"])... Beicinhos da crítica não resistiram à beleza violenta de "On The Beach" (inexplicavelmente fora de catálogo mesmo nos EUA) e Neil cativou novamente o imaginário de seu público, como que preparando-o para o réquiem-roll de "Tonight’s The Night".

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O disco acabou lançado em 1975 e certamente não causou furor na crítica nem no grande público da época... mas também não foi um trabalho desprezado nem mal entendido... conseguiu até emplacar uma de suas músicas, "New Mama" nas top 40 (única canção que não trata do tema drogas, mas que ainda assim tem um verso bastante ambíguo ao final... "I’m livin’ in a dreamland")... o que valeu mesmo foi que quando o seu público sacou o álbum (depois de uma breve rejeição inicial causada pelas letras nada sutis sobre drogas, drogados e conseqüências... cá entre nós, bem depressivo, né não?), percebeu a delicadeza do momento retratado nas canções e performances de "Tonight’s", e acabou por valorizar a honestidade e coragem artística de Young ao se expor tanto num trabalho...

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Veias abertas... vastas viagens sob céus nebulosos... paradeiros incertos... assim é "Tonight’s The Night"... quando na faixa "Borrowed Tune" Neil canta o verso "I’m singing this borrowed tune / I took from the Rolling Stones / Alone in this empty room / Too wasted to write my own" (nota: a melodia é emprestada de "Lady Jane", dos Rolling Stones), sinceramente... é de demolir qualquer preconcebida antipatia... Young usou até mesmo da autopiedade que sentia como tema para versos devastadores... é apenas um dos vários destaques do Álbum...

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A sonoridade do disco é um capítulo à parte... ela capta o frescor das emoções de um Artista e de uma Banda interpretando suas criações de forma desesperada, premente, como que tentando alcançar absolvição na música que fazem... e aí rolam falhas de quase todos os músicos envolvidos (em especial, as "anormais desafinadas" de Neil), mas tudo mantido orgulhosamente, integralmente, conceitualmente... de se destacar as não menos extraordinárias participações de Nils Lofgren nas guitarras (e eventualmente ao piano) e Ben Keith na steel guitar (este, certamente um dos grandes responsáveis pela textura sonora tão peculiar do disco - numa perfeita tradução musical da poesia de Young - e especialmente genial nos solos de "Roll Another Number [For The Road]", "Lookout Joe" e "Tired Eyes")... as interpretações de Neil são tão intensas aqui que você ouvindo, quase pode vê-lo deixar o blues escorrendo numa baba fina do canto de sua boca escancarada num grito...

Aí você me pergunta: "então, se é um disco tão denso e triste, por que devo ir atrás do mesmo?"... Tem razão, compre "Harvest", "Comes a Time", "Decade" ou até mesmo "Mirror ball"... se você ainda é iniciante nas artes do jovem Neil, uma boa referência é "Everybody Knows This Is Nowhere" (se você não curtir este, desista)... Agora se você questiona: "ok, eu até gosto de algumas canções do Neil Young, mas por que essa badalação toda em torno dele?", ouça, veja e sinta "Tonight’s The Night", talvez comece a entender...

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