Resenha - Tonight's The Night - Neil Young
Por Guilherme Rodrigues
Postado em 23 de fevereiro de 2003
Oitavo álbum de Neil Young (pela ordem cronológica de lançamento), "Tonight’s The Night" é o retrato deste canadense numa das principais encruzilhadas - senão a principal - de sua carreira.
Neil Young - Mais Novidades
Era 1973 e Young sofrera dois knock downs daqueles impossíveis de suportar de pé... as mortes de dois amigos chegados, Danny Whitten e Bruce Berry (ambos por overdose), respectivamente guitarrista e roadie de sua eterna Banda de apoio, a Crazy Horse (e eventualmente roadie do super-grupo Crosby, Stills, Nash & Young)...
Suas composições da época, natural, vinham embebidas de noites perdidas, estrada, tristeza e rock & roll... refletiam um lado soturno, descrente, "cruelmente realista" (é pleonasmo? bom, desde que você considere que todas as realidades possíveis são cruéis... no caso de Young, creia-me, não eram!) sobre a farsa que era a "cultura da droga", então no apogeu (farsa, mas até justificável... digamos que se você fosse um rockstar nos ‘70s e não se drogasse, certamente estaria credenciado a participar do show de fim-de-ano na Casa Branca junto com os Osmonds e Burt Bacharah... o que você faria se, artisticamente, te chegasse esse dia?)
A reunião das canções compostas nesse período resultou em "Tonight’s The Night", um projeto que Neil concebeu como:
A) um tributo a seus amigos mortos, numa tentativa de transmudar a dor que sentia por estas perdas em algo produtivo, arte;
B) uma banana daquelas bem grandes, descascadas e escorregadias para as pressões que a indústria fonográfica (nominalmente a Reprise Records, subsidiária da Warner Bros.) vinha exercendo para que ele engendrasse uma linha de montagem de hit singles com aquele charme new mother nature de seu premiadíssimo disco anterior, "Harvest" (se bem que "Alabama", "The Needle & The Damage Done" e "Words [Between The Lines Of Age]", canções de "Harvest", nada têm de leves e pastoris)...
Solidária com Neil na dor e sensível artisticamente, a Reprise Records vetou o lançamento de "Tonight’s The Night" pelo caráter, digamos, excessivamente "pesaroso" das letras e das performances "anormalmente desafinadas" de Neil (isso é que é sensibilidade, não?)... confrontado, Young passou o ano de 1973 praticamente se sabotando com trabalhos absolutamente fora de foco como o ao vivo "Time Fades Away" e a trilha sonora do documentário sobre sua carreira "Journey Through The Past".
1974 chegou e o medo de perder o Young galinha dos ovos de ouro fez com que os engravatados da Warner refletissem melhor, ultimando por dar plena liberdade para que Neil concebesse projetos, compusesse e interpretasse canções da maneira que mais lhe conviesse como artista. Só que, então, o vilão passou a ser a imprensa, que (da mesma maneira como hoje incensa inapelavelmente) na época crucificava qualquer coisa que Young fizesse (ele próprio assumiu mais tarde que foram tempos ruins, que ele detonava gratuitamente os jornalistas, pouco se importando com críticas e resenhas de "desentendidos", por aí afora)... Young sabia que se soltasse "Tonight’s The Night", o disco seria despedaçado pela crítica e, provavelmente, mal recebido pelo seu público (chegou mesmo a testar as canções em shows, mas invariavelmente não despertavam reação no público, ansioso por ouvir o #1 hit "Heart of Gold"). Então, deu um tempo no projeto, compôs novas canções, ensaiou e produziu o tão excepcional quanto cult "On The Beach" (1974), que tratava de assuntos não menos azedos do que a temática de "Tonight’s", mas que tinham um viés mais abrangente e cotidiano (esculhambando o esquema rockstar de LA, enxovalhando os críticos de vida críptica ou dando uma - a primeira de várias - resposta ao Lynyrd Skynyrd [Banda que fez "Sweet Home Alabama" em resposta aos libelos de Young, "Southern Man" e "Alabama"])... Beicinhos da crítica não resistiram à beleza violenta de "On The Beach" (inexplicavelmente fora de catálogo mesmo nos EUA) e Neil cativou novamente o imaginário de seu público, como que preparando-o para o réquiem-roll de "Tonight’s The Night".
O disco acabou lançado em 1975 e certamente não causou furor na crítica nem no grande público da época... mas também não foi um trabalho desprezado nem mal entendido... conseguiu até emplacar uma de suas músicas, "New Mama" nas top 40 (única canção que não trata do tema drogas, mas que ainda assim tem um verso bastante ambíguo ao final... "I’m livin’ in a dreamland")... o que valeu mesmo foi que quando o seu público sacou o álbum (depois de uma breve rejeição inicial causada pelas letras nada sutis sobre drogas, drogados e conseqüências... cá entre nós, bem depressivo, né não?), percebeu a delicadeza do momento retratado nas canções e performances de "Tonight’s", e acabou por valorizar a honestidade e coragem artística de Young ao se expor tanto num trabalho...
Veias abertas... vastas viagens sob céus nebulosos... paradeiros incertos... assim é "Tonight’s The Night"... quando na faixa "Borrowed Tune" Neil canta o verso "I’m singing this borrowed tune / I took from the Rolling Stones / Alone in this empty room / Too wasted to write my own" (nota: a melodia é emprestada de "Lady Jane", dos Rolling Stones), sinceramente... é de demolir qualquer preconcebida antipatia... Young usou até mesmo da autopiedade que sentia como tema para versos devastadores... é apenas um dos vários destaques do Álbum...
A sonoridade do disco é um capítulo à parte... ela capta o frescor das emoções de um Artista e de uma Banda interpretando suas criações de forma desesperada, premente, como que tentando alcançar absolvição na música que fazem... e aí rolam falhas de quase todos os músicos envolvidos (em especial, as "anormais desafinadas" de Neil), mas tudo mantido orgulhosamente, integralmente, conceitualmente... de se destacar as não menos extraordinárias participações de Nils Lofgren nas guitarras (e eventualmente ao piano) e Ben Keith na steel guitar (este, certamente um dos grandes responsáveis pela textura sonora tão peculiar do disco - numa perfeita tradução musical da poesia de Young - e especialmente genial nos solos de "Roll Another Number [For The Road]", "Lookout Joe" e "Tired Eyes")... as interpretações de Neil são tão intensas aqui que você ouvindo, quase pode vê-lo deixar o blues escorrendo numa baba fina do canto de sua boca escancarada num grito...
Aí você me pergunta: "então, se é um disco tão denso e triste, por que devo ir atrás do mesmo?"... Tem razão, compre "Harvest", "Comes a Time", "Decade" ou até mesmo "Mirror ball"... se você ainda é iniciante nas artes do jovem Neil, uma boa referência é "Everybody Knows This Is Nowhere" (se você não curtir este, desista)... Agora se você questiona: "ok, eu até gosto de algumas canções do Neil Young, mas por que essa badalação toda em torno dele?", ouça, veja e sinta "Tonight’s The Night", talvez comece a entender...
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Mastodon oficializa nova formação, que conta com músico brasileiro
A música do AC/DC que Angus Young escolheu como sua favorita na guitarra
Bruce Dickinson escolhe qual turnê do Iron Maiden é a sua preferida
A gigante do rock que irritou Chris Cornell e virou alvo constante de Kurt Cobain
Ex-baterista do Guns N' Roses fala sobre o Axl Rose que a maioria não conhece
A banda que bateu um recorde dos Beatles e afundou em poucos anos
Steve Howe (Yes) conta como foi tocar em "Innuendo", do Queen
O clássico do Whitesnake que foi gravado durante um bate boca aos berros no estúdio
O disco de 1983 que Dave Grohl sabe tocar de cor e salteado; "Conheço cada virada de bateria"
Duração de "Rime of the Ancient Mariner" surpreendeu membros do Iron Maiden
Nicko McBrain surpreende ao eleger os álbuns do Iron Maiden do pior ao melhor
Mick Jagger não vê nada de bom em envelhecer, mas admite uma vantagem inesperada
A música do AC/DC inspirada na natureza que acabou associada a serial killer
Bono manda a real sobre o motivo do rock ter perdido espaço para o hip-hop nos anos 2000
O pior álbum dos Beatles de acordo com George Harrison
O melhor disco de Raul Seixas, apurado de acordo com votação popular
A melhor banda de rock progressivo de todos os tempos, segundo Geddy Lee
O clássico que o Pink Floyd descartou e regravou devido ao perfeccionismo de Gilmour

A música que Neil Young admitiu na própria letra que ele roubou de outra banda
Os cinco maiores compositores de todos os tempos para Roger Waters
A banda punk que fez Neil Young se reinventar nos anos setenta; "irritou muita gente"
O melhor disco ao vivo de rock de todos os tempos



