Resenha - Fragile - Yes
Por Raul Branco
Postado em 21 de janeiro de 2001
Um dos mais elogiados grupos do rock progressivo escreveu em definitivo seu nome no cenário mundial com um álbum de 1972, intitulado simplesmente "Fragile". Com produção do lendário Eddie Offord e capa de Roger Dean (que daria início a uma longa parceria e passaria a ser uma das marcas registradas do Yes desde então), o disco trazia ao todo nove faixas: quatro músicas desenvolvidas pelo grupo e as cinco restantes por cada um de seus integrantes, onde sua individualidade era explorada em benefício do todo.
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A primeira faixa, "Roundabout" (que, lançada em compacto em versão reduzida, tornou-se o grande hit de "Fragile"), principiava por uma nota soando, imperceptível a princípio, e terminando não por um estrondoso acorde, como seria esperado, mas por um suave harmônico no violão de Howe. Seu arsenal de guitarras, violões, pedal steels (e o que mais você imaginar que tenha cordas), os diversos teclados de Rick Wakeman, o timbre agudo do baixo Rickenbacker de Squire (que acabou tornando o instrumento mundialmente conhecido e um must entre todos os baixistas do gênero), a bateria explorada como se fossem peças independentes de percussão por Bill Bruford e o vocal peculiarmente alto de Jon Anderson reinariam absolutos na cena progressiva nos anos seguintes e ditariam padrões para os grupos que surgiriam naqueles dias. "Roundabout" tem tudo isso numa composição de rara felicidade, onde letra, melodia e arranjo se completam. Os versos "I’ll be the round about/The world will make you out ‘n’ out/You change the day your way..." seriam cantados nos palcos de todo o mundo quase como um hino pelos fãs.
A segunda faixa, "Cans and Brahms" é a primeira das "idéias individuais, pessoalmente arranjadas e organizadas", como anunciava o encarte do disco. Na verdade não passa de um exercício de Wakeman sobre extratos do terceiro movimento da Quarta Sinfonia em Mi menor, do compositor erudito alemão Johannes Brahms, onde se utiliza, com maior destaque, do piano elétrico e do órgão. Dando continuidade à idéia de cada componente compor, arranjar e interpretar uma peça, ouvimos Jon Anderson se desdobrar nos vocais, inclusive eletronicamente modificados, em "We Have Heaven".
Ao fechar-se a porta (literalmente, em termos de áudio) e ouvirmos um cavalo trotando ao som do vento que anuncia uma tempestade, surge "South Side Of The Sky", com o grupo desenvolvendo o tema da peça por três vezes, onde a guitarra de Howe sobressai-se ao som da banda, em frases pequenas e gritantes. A banda pára, permitindo destacar-se apenas o piano de Wakeman em uma linda passagem, que conduz à outra (como convém a uma música dita progressiva), onde os vocais de Anderson, Howe e Squire traduzem uma imensa sensação de tranqüilidade, até morrerem no som do piano e preparar a volta ao tema central, forte e angustiante.
Para recomeçar, uma idéia de Brufford que dura somente 33 segundos, onde o ritmo sobrepõe-se aos outros elementos (melodia e harmonia). As cordas de Howe criam uma linha alegre e meio jazzística e preparam outro momento brilhante do grupo, em "Long Distant Runaround". Imperceptivelmente ela se liga ao momento de Chris Squire no disco, "The Fish (Shindleria Prematurus)". Ao contrário de músicas solos de baixistas, Squire utiliza os diversos baixos, vocais e percussões para gerar uma massa sonora que se assemelha ao som do Yes completo. Aí se tem uma real noção de sua importância na música e no timbre do Yes.
Chegamos a um ponto em que temos que dar uma pausa, pois a próxima peça (e a última das experiências individuais) é nada mais, nada menos que "Mood For A Day". Esta pequena jóia para violão, uma obra-prima de 2 minutos e 55 segundos, serviu de teste para violonistas e guitarristas por todo o planeta. Sua singeleza, suavidade e beleza, executada por Steve Howe com uma musicalidade extrema, deveria servir de bíblia para muitos guitarristas que acreditam que disparar qualquer nota com muita velocidade é saber tocar.
O álbum fecha com "Heart Of The Sunrise": analisar essa música é dissecar a própria essência do som do Yes. O tema inicial, criado a partir de uma escala de Lá menor, vigoroso e ao mesmo tempo reflexivo, é executado com uma velocidade e precisão atordoantes, e irá nos levar ao vocal de Anderson, que chega a soar diferente e distante, tamanha a suavidade que ele empresta à interpretação. Os temas vão e vem, permitindo que todos os músicos se destaquem e mostrem seu imenso talento. E embora se fale muito em Howe, Squire, Anderson e Wakeman, apure seus ouvidos nesta faixa para o trabalho de Brufford.
A porta se abre e o tema de "We Have Heaven" é repetido até suas notas morrerem ao longe e nascer, assim, a vontade de se voltar à primeira faixa e ouvir tudo de novo.
Não é exatamente isso que acaba fazendo de um disco um clássico?
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