Resenha - Hittin' The Note - Allman Brothers

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Por Marcos A. M. Cruz
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Nota: 10


Existem duas formas de envelhecer quando se é um artista consagrado: uma consiste em viver basicamente dos louros conquistados no passado, recurso que se por um lado agrada aos fãs ortodoxos, vez por outra resulta em uma sensação de deja vu, denotando uma espécie de "estagnação criativa"; a outra é tentar a cada trabalho buscar coisas diferentes, que podem vir a resultar em algo palatável ou não, dependendo de cada caso, mas que também passa uma sensação incômoda, uma espécie de "insegurança" quanto aos rumos a serem tomados.

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Entretanto, há alguns poucos que conseguem produzir estritamente dentro de fórmulas pré-estabelecidas e consagradas, e mesmo assim obtém um frescor digno da juventude, ao mesmo tempo em que aliam algo que só o tempo nos traz, que é a experiência.

Pois este é o caso do ALLMAN BROTHERS neste seu novo álbum de estúdio, "Hittin' The Note", 17º de sua carreira, e primeiro a sair após um intervalo de nove anos (seu último trabalho inédito foi o "Where It All Begins", de 1994), período de tempo em que muita coisa aconteceu, a principal delas a saída do guitarrista Dickey Betts, um de seus integrantes mais emblemáticos, autor de clássicos como "In Memory Of Elizabeth Reed", "Jessica" e "Ramblin' Man", entre outros, e presente no grupo desde sua formação, no final dos anos sessenta.

A primeira vista, seria impossível substituir alguém com tamanha tarimba, tanto que inicialmente optou-se por Jimmy Herring, músico conceituadíssimo e de técnica irrepreensível, mas que aparentemente não conseguiu suprir a falta de Dickey.

Eis que a banda resolve tirar um ás da manga, chamando ninguém menos que Warren Haynes, que já estivera em suas fileiras alguns anos antes, e acabou se tornando um dos principais responsáveis pelo êxito deste novo álbum, graças à sua presença marcante, tanto que em certos momentos têm-se a impressão de estar ouvindo um disco do GOV'T MULE, banda liderada por Haynes, principalmente nas faixas onde ele também canta.

Porém, aqui e ali se percebe nas entrelinhas que o timoneiro do barco é Gregg Allman, que do alto de seus 55 anos muito bem vividos dirige tudo de forma discreta, com seu vocal ligeiramente enrouquecido pelas agruras e excessos da vida roqueira.

Mas os demais músicos, embora não destoem tanto quanto os dois citados, de forma alguma podem ser esquecidos, pois sua contribuição foi imprescindível para o resultado final do trabalho: de um lado, dois remanescentes da primeiríssima formação, os bateristas/percussionistas Jaimoe e Butch Trucks, e de outro, o guitarrista Derek Trucks (sobrinho de Butch) e o baixista Oteil Burbridge, ambos instrumentistas mais que excepcionais, além da participação discreta em algumas faixas do também percussionista Marc Quiñones.

Pois este timaço produziu um álbum que mantém as mesmas características do ABB, com longas canções recheadas de viagens instrumentais, mas que em hipótese alguma soam "auto-indulgentes", tanto que apesar de ultrapassar os 75 minutos de duração, este se trata de um daqueles discos que somos capazes de ouvir várias vezes seguidas, em cada uma delas descobrindo um detalhe aqui e ali que nos passou desapercebido.

Tomemos como exemplo "Desdemona", canção de quase dez minutos, que começa com uma levada bem blueseira, se transforma num furioso Jazz-Rock lá pela metade, e depois retorna ao ponto de partida; "High Cost Of Low Living", balada southern pontuada pelo órgão e pelos vocais de Gregg, cujos solos de guitarra fazem citação à clássica "Mountain Jam".

Há ainda "Woman Across The River", excelente versão para a canção de Freddie King; "Old Before I Die", outra balada com uma leve pitada Country; uma recriação de "Rocking Horse", que embora seja mais conhecida através da versão do já citado GOV'T MULE, na realidade foi composta por Haynes quando fez parte do ABB no passado; uma versão bluesy de "Heart Of Stone", do ROLLING STONES, e "Old Friend", faixa acústica que encerra o álbum, mais uma homenagem de Haynes ao baixista Allen Woody, falecido em 2000.

Sem contar "Instrumental Illness", verdadeira jam-session instrumental jazzística infernal de mais de doze minutos, que com certeza vai deixar muitos músicos por aí de cabelo em pé...

Nos últimos anos, surgiram muitas bandas de Southern Rock mundo afora, além de outras que assimilaram os princípios das jambands, que são grupos que sempre mudam o repertório em seus shows ao vivo, privilegiando a improvisação instrumental, herdada em parte do Jazz, e geralmente influenciados pelo ABB.

Sendo assim, talvez a melhor analogia que se possa fazer seja com um dos ícones do país natal da banda, a Harley-Davidson, que inspirou inúmeros seguidores e outros meramente copiadores, alguns tecnicamente falando até melhores e talvez mais criativos - mas só mesmo quem já andou numa sabe que a sensação de estar pilotando A ORIGINAL é outra coisa...

Faixas:
Firing Line
High Cost Of Low Living
Desdemona
Woman Across The River
Old Before My Time
Who To Believe
Maydell
Rockin' Horse
Heart Of Stone
Instrumental Illness
Old Friend
total time: 75:10

Formação:
Gregg Allman (vocals, keyboards)
Warren Haynes (vocals, guitars, slide)
Derek Trucks (guitars, slide)
Jaimoe (drums)
Butch Trucks (drums)
Oteil Burbridge (bass)
Marc Quiñones (percussions).

Site oficial:
www.allmanbrothersband.com.


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