Heroes: a visão detalhada do clássico de David Bowie
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 22 de novembro de 2017
Se houve uma década significativamente ceifadora de carreiras no nicho musical, essa foi, indubitavelmente, a de setenta. Na amarga passagem do final da esperançosa (e ingênua) claridade do decênio anterior, os dez anos que seguiram foram marcados pela iconoclastia, pelas ditaduras latino americanas sanguinárias, por crises sócio-econômicas na Europa, pelas drogas sintéticas. Encharcados pela heroína seus costumeiros excessos muitos se foram; outros como LOU REED e IGGY POP flertaram perigosamente com o outro lado. Nesse freneticismo químico, também estava a (então) pálida e anoréxica figura de DAVID BOWIE.
"A vida em Los Angeles me deixou com uma sensação horrível de presságio. Eu tinha, várias vezes, chegado à beira daquela tragédia causada pelas drogas, e era essencial fazer algo positivo", afirmou o cantor sobre o fato motivador de sua mudança de Los Angeles para Berlim em meados dos anos 70. Afinado com o expressionismo de BRECHT e REINHARDT, já atento ao Krautrock e, sobretudo por questões de ordem econômica ( BOWIE estava a beira de uma falência e a vida em Berlim era barata comparada a da Califórnia), o camaleão chega em terras germânicas em um ambiente marcado pela divisão, pela arquitetura reta e fria, pelo clima cinzento e melancólico- todo o material primário necessário para a (então nascitura) de trilogia de Berlim.
"Heroes", magnum opus da carreira de BOWIE e presente no disco homônimo de 1977- o segundo da trilogia que começa em Low (1977) e termina em Lodger (1979)- conta a história de um casal alemão que está tão determinado a estar juntos que se encontram todos os dias sob uma torre de armas no Muro de Berlim. Fato menos conhecido e que, segundo BOWIE a composição fora inspirada por um caso entre o produtor TONY VISCONTI e a cantora ANTONIA MAASS, que teriam se beijado "pela parede" na frente do cantor enquanto o mesmo olhava pela janela do Hansa Studio como o mesmo afirmou à revista Performing Songwriter em 2003: "Eu tenho permissão para falar sobre isso agora, algo que não tinha na época. Eu sempre disse que era um casal de amantes inspirado pela divisão pelo Muro de Berlim que me levou a idéia. Na verdade, era TONY VISCONTI e sua namorada. Tony estava casado na época; eu nunca poderia dizer quem era. Mas agora posso dizer que os amantes eram Tony e uma garota alemã que ele conheceu enquanto estávamos em Berlim. Pedi a sua permissão para que eu pudesse dizer isso. Penso que possivelmente isso aconteceu no fim do casamento dele- e foi muito emocionante, porque eu podia ver que TONY estava muito apaixonado por essa garota- e foi essa relação que motivou a música". O não menos célebre co-autor da faixa, BRIAN ENO, disse para a Q Magazine em 2007: "É uma bela música, mas incrivelmente melancólica ao mesmo tempo. Podemos ser heróis, mas na verdade sabemos que algo está faltando, algo está perdido".
Se em termos líricos "Heroes" reflete o épico do amor desconcertado pela analógica divisão política (Eu, eu me lembro /De pé, junto à parede/E as armas dispararam acima de nossas cabeças/E nós nos beijamos, como se nada pudesse cair /Igualmente, estava do outro lado/Oh nós podemos vencê-los, para todo o sempre), instrumentalmente reflete um conceito de wall of sound: potente, agressivo, neuroticamente insistentes em um mantra que JOHN CALE chamou de "aqueles dois acordes especiais". A dinâmica imposta por BOWIE repetir-se-ia à exaustão no anos posteriores ( talvez por influência de BRIAN ENO, o U2 usaria exaustivamente esse recurso posteriormente) ; em alguns casos beirando o plágio (é gritante a semelhança com "Times like these" do FOO FIGHTERS). Segundo a crítica SOPHIE HARRIS, a faixa "começa como se já estivesse na metade: com o piano a toda, os saxes nas alturas e a guitarra de ROBERT FRIPP injetando gás". BOWIE tinha razão: "podemos ser heróis por um dia" vaticinou. E cumpriu.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A reação de Dirk Verbeuren ao anúncio do fim do Megadeth
Shows que vão agitar São Paulo no segundo semestre de 2026.
James Hetfield revela sua maior influência como guitarrista de metal: "É o mestre dos riffs"
Pearl Jam sobe ao palco pela primeira vez com Abe Laboriel Jr. na bateria
A maior e melhor banda de metal de todos os tempos, segundo Jerry Cantrell
O grande clássico do Metallica em que Kirk Hammett não tocou uma única nota
A única banda de metal que nem o Metallica conseguiu superar, conforme Regis Tadeu
A superbanda com integrante dos Rolling Stones que Jimmy Page nunca esqueceu
Turnê de despedida do Megadeth ainda não começou, segundo Dirk Verbeuren
A canção polêmica que o Guns N' Roses tocou só duas vezes e abandonou; "Ninguém entendeu"
De Black Sabbath a Elis Regina, os 10 discos que mudaram a vida de Kiko Loureiro
Com ex-membros do Primal Fear e Gamma Ray, Fearless V anuncia primeiro álbum
Como e por que Dave Mustaine decidiu encerrar o Megadeth, segundo ele mesmo
É verdade que John Paul Jones toca piano em "She's a Rainbow", dos Rolling Stones?
"Odiei"; quando Carole King confrontou Eric Burdon sobre cover feito pelo Animals
Porque Gene Simmons tem o dobro da fortuna de Paul Stanley, com quem co-fundou o Kiss
O hit do Sepultura que banda compôs na casa do saudoso Canisso do Raimundos
A confusão sobre a banda de black metal da Simone Simons, vocalista do Epica

A excêntrica melhor maneira de começar a ouvir David Bowie, segundo Regis Tadeu
A banda "fantástica" que David Bowie temia que fosse esquecida pelo público
O dia que David Bowie pagou Robert Fripp para tocar guitarra como Ritchie Blackmore
Guitarrista fala sobre influência de Queen e David Bowie no Def Leppard
O rockstar que Noel Gallagher idolatra, mas não se lembra de quando conheceu
5 versões cover tão ruins que te fazem odiar a versão original, segundo a Far Out
Como Regis Tadeu conseguiu de Slash uma revelação inédita sobre David Bowie
Os 11 melhores álbuns do glam rock setentista, segundo a Loudwire
A curiosa trajetória de Wagner "Antichrist" Lamounier um dos fundadores da lendária Sarcófago
AC/DC: os últimos dias do vocalista Bon Scott



