Spectrum: raridade psicodélica do Brasil

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Por Roberto Rillo Bíscaro, Fonte: Spectrum
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Em torno dos anos de 1967 a cidade de Nova Friburgo, situada no Estado do Rio de Janeiro-Brasil, era uma localidade pacata e bem localizada, provida por razoável parque industrial e por uma privilegiada situação proprícia à atividade agro-pecuária, cercada de uma natureza exuberante, vinha tornando-se, como outras mundo afora, palco de um cenário que teria abrangência mundial - o mundo hippie! e, em especial, das músicas que marcaram aquela época.

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Ainda ouvindo Elvis Presley e outros expoentes de então, começaram a surgir os primeiros acordes dos Beatles, Rolling Stones e outros mais, o que veio a acender o estopim de um movimento local que se generalizou.

Vários jovens, já com dotes artísticos, começaram a se "assanhar" e ensaiar os primeiros acordes nos instrumentos que viriam a surgir. Em especial, o então jovem casal Dna. Gilda e o Sr. Fernando - ela tocava acordeão e ele amante da fotografia e também da música - viriam despertar em seus dois filhos mais velhos, Fernando e Ramon o interesse pela música, principalmente para aquele novo gênero que vinha se difundindo cada vez mais.

Paralelamente, em toda a cidade o gosto se espalhou. Entretanto, enquanto alunos do centenário Colégio Anchieta (até então extensão da formação Jesuíta), encontraram outros colegas que manifestaram a mesma intenção - o Nando e o Caetano -, e resolveram montar uma banda. Cada um buscou aprimorar-se nas suas opções e aptidões:
- Fernando, na bateria;
- Ramon, no contra-baixo
- Caetano, na guitarra-solo e
- Nando, na guitarra-base.

Os ensaios foram se repetindo, inicialmente em suas próprias casas dentro do possível, tendo como repertório base, evidentemente, os Beatles, com variações da emergente Jovem Guarda e versões de músicas internacionais que mantinham a linha pretendida. Porém, à medida que os rústicos equipamentos iam aparecendo, surgiu a idéia de utilizarem possíveis locais disponíveis no Colégio Anchieta.

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Em princípio, contrariando os valores até então vigentes, tiveram dificuldades para sensibilizar os gestores da Instituição quanto ao propósito. Mas, felizmente, encontraram no Coordenador Spencer, o facilitador para que tivessem um local adequado e, assim, pudessem dar continuidade ao trabalho.

Até então a banda não tinha um nome que a caracterizasse. Ocorreu, então, que num dos ensaios o Ramon - que usava um aparelho para correção dentária - levou um tremendo choque elétrico junto ao microfone, que o fez exclamar: "Parece que recebi um choque de mais de 2000 Volts...". A partir daí estava definido o nome da banda "2000 VOLTS".

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Então, começaram a receber convites para tocar em festas de aniversários, colégios, outros eventos, etc. Nesse ínterim, mais um músico, o Tião (Tiãozinho) irmão do Caetano, passou a fazer parte do 2000 VOLTS, tocando guitarra-base. Foi uma fase muito divertida e saudável, quando a Banda já tinha um certo conceito, ao lado de outras que iam aparecendo, e fazendo a festa da rapaziada. Os Grupos começaram a se apresentar nos diversos Clubes da cidade e locais de expressão.

Obviamente, os músicos locais foram se aprimorando e, naturalmente foram acontecendo mudanças. No caso específico do 2000 Volts, o Nando deu lugar ao Serginho, que veio de outro grupo, mantendo-se na guitarra-base. Nessa fase o Grupo, já com um bom amadurecimento, deu um salto enorme quando se destacou de forma magnífica, especialmente nos covers dos Beatles. Em seguida veio Simon & Garfunkel, e toda uma gama de grupos, que exploravam os arranjos vocais e mantinham a beleza e a riqueza que caracterizaram aquela geração.

A essa altura foi sentida a necessidade de alterar-se o nome do Grupo que veio caracterizar aquela fase mais infanto-juvenil.

A medida em que o trabalho ia assumindo um caráter profissional, passaram a buscar uma identidade mais apropriada à proposta. Entre inúmeras sugestões surgiu, através de um professor de Física a referência ao espectro solar que reportando às 7 cores primárias, os reportou às 7 notas musicais primárias. Com um pouco de imaginação e considerando até a sonoridade e universalização do termo definiu-se o novo nome do Grupo: "SPECTRUM".

Na sequência, o Ramon foi acometido por uma enfermidade, o que fez o Tião sacrificar-se no sentido de substituí-lo no contra-baixo, com muito estudo, muita dedicação, empenho e desempenho. Entretanto, quis o destino que Tião buscasse outros caminhos profissionais que o forçariam a deixar a cidade dando lugar então, ao Toby, contrabaixista admirado de outra Banda, que aceitou o convite.

Com essa nova formação a banda começou a ampliar seu repertório, sempre tendo os Beatles como ponto de referência, incluindo Led Zeppelin, Carlos Santana, Mama's and Papa's e adjacências, mas enfatizando uma identidade muito grande com Steppenwolf, o que provocou uma diferenciação acentuada com relação aos demais Grupos.

Veio, então, o convite para fazer a trilha sonora do filme "Geração Bendita", que começava a ser rodado em Nova Friburgo. Através de contatos comuns entre os interessados, foi efetivado o compromisso e com isso a Banda deixou os palcos para se dedicar à confecção do trabalho. Neste momento o David, músico que atuava "fora do circuito" de bailes e shows, amigo dos participantes - em especial do Serginho -, foi convidado a participar da elaboração da composições, letras, arranjos, etc.

Uma vez concluído o trabalho buscou-se, no Rio de Janeiro, um estúdio que se dispusesse a produzí-lo. Estranhamente as gravadoras se fecharam até que a Todamérica Música Ltda., abriu suas portas para a concretização do mesmo. Houve a habitual distribuição de cópias de divulgação, publicidade, e tal. Porém, com a censura feita ao filme, pelo Regime Militar então vigente - a qual vigorou por cerca de dois anos -, estagnou-se, como consequência, a pretendida e sonhada divulgação do trabalho musical o qual voltou às instalações da Todamérica, e caiu no esquecimento.

A formação do Conjunto Spectrum, que gravou a trilha sonora do filme "Geração Bendita", então desmotivado, decepcionado, endividado, etc, sem Agente, sem Empresário, enfim, sem apoio, veio a desfazer-se, sem sequer realizar uma única apresentação pública.

Sem repercussão alguma em sua época, o trabalho acabou vingando só 30 anos depois, por vias tortíssimas: depois de virar raridade, cult mesmo entre colecionadores europeus, Geração bendita foi relançado em outubro de 2001 em caprichada edição de vinil, numa tiragem limitada, pelo selo alemão Psychedelic Music. Mais: quem quiser comprar um LP original de 1971, em bom estado, tem que desembolsar até US$ 2.000.




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Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário e edita o Blog do Albino Incoerente desde 2009.

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