Coice de Mula: Punk Roça Stars
Por José Felipe Guatura
Fonte: Café in Sônia
Postado em 10 de setembro de 2010
Durante o final dos anos 90 e início de 2000, em Campinas especificamente, houve um boom de bandas independentes que tinham em comum o melhor do espírito do it yourself. Ao mesmo tempo observa-se o fechamento de vários estabelecimentos (por exemplo, o Bar Ozz) e inviabilidade burocrática de lugares públicos (como a Concha Acústica do Taquaral). O público campineiro se viu carente de eventos culturais e principalmente dos shows de bandas de garagem que alimentavam os ouvidos alheios, mesmo experimentando o surgimento de vários conjuntos.
Talvez essa seja uma boa linha de investigação para entender o caldo cultural que se formou em Campinas e que serviu de infraestrutura para o que está acontecendo hoje – o início de uma expansão, fora dos limites municipais, dos sons que enchem os ambientes das noites campineiras. Assim como na termodinâmica, o fechamento de canais e plataformas de divulgação fez com que a pressão cultural de Campinas aumentasse e configurou o que hoje é o Bar do Zé, Woodstock, o evento Rock’n’Beats, e tanto outros locais que, graça ao Deus da Cerveja, é possível escolher para gastar nosso ínfimo dinheiro. Assim, parece obsoleto hoje ouvir numa letra de música frases como essa:
"Morando no interior sem ter o que fazer
Ouvindo Ramones até o amanhecer
Montamos uma banda para nos entreter
E os nossos vizinhos enlouquecer
We are the punk roça stars
Fazemos barulho e nada mais
We are the punk roça stars
Tocando em botecos pelo interior
Para poucas pessoas mas com muito vigor
Não ganhamos dinheiro mas sim amor
E na capital não temos nenhum valor"
Coice de Mula – Punk Roça Stars
Esta canção é de uma das principais bandas que enfrentaram esse período medieval – mas nem tanto – de Campinas: o Coice de Mula.
Formada em ’99, o Mule’s Kick se consolidou pelos anos com a sua última formação, de 2007, com Carlos Granja (baixo/vocal), Vinícius Atauri (guitarra) e Adriano "Nano Catiola" (bateria), porém passando pela banda ilustres campineiros como Thiago "Batera" Atauri e Gilberto Nicolav.
O Power-Roça-Trio lançou uma demotape em ’99 mesmo, no formato K-7 (sim, aqueles que você, leitor mais idoso, rebobinava com uma caneta Bic para não gastar a pilha cara do walkman), e depois três fantásticos álbuns em formato Compact Disc.
O primeiro, de 2001, ironicamente intitulado Eu sei que vocês vão falar mal…, conta com uma pegada punk, tanto lírica quanto musicalmente. O CD apresenta à primeira ouvida vários hits onde o público acompanhava avidamente em seus shows. Os destaques são: a música que leva o nome da banda Coice de Mula, Punk is Punk que quem ouve sente um gostinho de Minor Threat, Querô (baseada na obra de Plínio Marcos e contando com um videoclipe produzido pela Brócolis VHS), Crianças, Desabrigado, entre outras.
No mesmo espírito, em 2003 foi lançado o Punk Roça Stars. Arte da capa por conta de Daniel Etê, o álbum já mostra mudanças e também aponta para o que viria ser o Coice de Mula. Uma música que ficou pegajosa, no bom sentido, pelos freqüentadores das performances da banda é Campinas:
"Olhem aquele moleque roubando uma velinha na Delfino Cintra
Olhem aquela briga entre motoristas na Orozimbo Maia
Olhem aquele sequestro muito brutal no Taquaral
Olhem aquele assassinato do prefeito do lado do Iguatemi
Vivo em Campinas
Cidade das Andorinhas"
Coice de Mula – Campinas
Assim, uma das marcas da banda era seu espírito punk muito forte, em que cantavam coisas do cotidiano – desde letras sobre shows dos Muzzarelas, até falando de fatos notoriamente conhecidos da população campineira, como o assassinato do prefeito Toninho, do Partido dos Trabalhadores, em 10 de setembro de 2001.
Já em 2006 a banda muda sua linha, em música e em letra, com o álbum Unfashion Songs. "Canções fora-de-moda" como diz o título, são em sua grande maioria músicas cantadas em inglês, tirando Aprisionado, Ter ou Não Ter, Tentei lhe Dizer e Por un Ideal. Num estilo rock pré-punk, o CD é energético e dançante e cativa a qualquer um.
Em 2007 a banda encerrou suas atividades e seus membros seguiram diferentes caminhos, deixando um saudoso público e essas relíquias de um passado não muito distante e que sempre nos lembram de dias que foram, ao mesmo tempo, vazios e cheios, com muito e pouco, dada a escassez de locais para eventos e a quantidade magnífica de bandas originais e cheias de vida – o que talvez esteja faltando hoje em dia, já que, ironicamente, há mais de espaços para bandas independentes.
Discografia:
Demo K7 [1999]
Eu Sei Que Vocês Vão Falar Mal… [2001]
Punk Roça Stars [2003]
Unfashion Songs [2006]
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