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Resenha - Epica (Armazzém 841, Belo Horizonte, 10/12/05)

A quantidade de fãs de gothic metal em Belo Horizonte, e por extensão, dos praticantes da cultura gótica (ou daqueles que acham que são) é algo que ultrapassa os limites do compreensível. A cidade é rota obrigatória para qualquer banda do estilo que venha ao nosso país, vide Moonspell, Nightwish, Tristania e After Forever. Logo, quando a turnê de Kamelot & Epica foi anunciada, em meados de 2005, muito se estranhou que BH não estivesse nos planos. Contudo, não demorou muito para que o Epica confirmasse sua presença, deixando o Kamelot numa situação complicada. Os estadunidenses não se dispuseram a esperar quatro dias entre o show de São Paulo e o da capital mineira, cancelando a apresentação. Pior para eles.

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Fotos: Renan Damasceno

Nem era preciso que a divulgação do evento tivesse muito empenho, a trupe de Mark Jansen teria garantida sua casta de fãs. Logo, a recepção maciça dos mineiros não foi surpresa e o Armazzém, provavelmente, teve um dos maiores públicos da sua história. O primeiro responsável por amainar a noite fria e chuvosa que recaía sobre Belo Horizonte foram os valadarenses do Silent Cry, em sua segunda apresentação na capital em pouco mais de dois meses. Se a anterior foi correta, porém pouco atraente, pela passividade do público, esta foi, sem dúvida, muito melhor. E assim podemos perceber o quanto a atmosfera, o calor humano, faz diferença. O set list mudou pouco, mas a performance de todo o conjunto, em especial da vocalista Sandra Félix, em sua sexta apresentação à frente do grupo, evoluiu notadamente. Os clássicos “Desire Of Dreams” e “Illusions Of Perfection”, do primeiro LP, “Goddes Of Tears”, foram saudadas ostensivamente, com muito peso, enquanto as do novo, “Darklife”, vão ganhando consistência, como “Sweet Serenades” e “Wine’s Dance”. Interessante também a execução da balada “Enigmatic”, num show particular de Sandra. Aliás, a disparidade entre o seu vocal, soprano, e o de Simone Simmons, mezzo, faz toda a diferença na sonoridade de cada banda, mudando profundamente a estrutura das músicas. O Silent Cry encerrou seu set com a competência que lhe é peculiar, deixando o meio de campo para uma banda que, em tese, poderia estar deslocada em se tratando do cast do evento.

Besteira. Ninguém queria saber se era ou não a melhor oportunidade para um show do Thuatha de Dannan. Há um ano sem tocar em BH, os duendes foram intensos do início ao fim. Provável reflexo do fantástico ano que tiveram, com o lançamento do novo trabalho, “Trova di Danú” – liberado no finalzinho de 2004, na verdade - mais uma presença no Brasil Metal Union e o sucesso no Wacken Open Air. Melhor impossível. E assim foi. Ou alguém aí resiste às tremendamente contagiantes “Pinga Ra Tan”, “The Last Words” e “Dance Of The Little Ones”? Nenhum dos que estava lá conseguiu...
Redundante dizer que a mistura de heavy/death metal, folk, música celta & rock clássico dos caras funciona bem. Bruno Maia e Rodrigo Berne são o coração da banda. O trabalho de vozes, flautas e guitarra dos dois é excelente. Mas, sobretudo, é a energia que eles transmitem que deixa as coisas fluírem de forma mágica. Em que outro show você vê gente dançando, cantando e gesticulando desta maneira? Difícil....

“Finganforn” foi soberba, assim como “Lover Of The Queen”, ficando para a variada “Brazuzan – Thaller Than A Hill” o fechamento do set normal. E o cover não poderia ter sido melhor escolhido. “Rockin’ In A Free World”, do mestre Neil Young, ficou gostosamente mais pesada, arrancando manifestações até dos mais estáticos. O Thuatha é uma banda muito cativante ao vivo, sendo fácil entender porque conquistam tantos fãs por onde passam. Já esperamos o retorno.

Mas agora eu lhes pergunto: quem são Vibeke Stene, Sharon Den Adel e Floor Jansen? Ninguém, se formos comparar a beleza destas com a de Simone Simons. Sim, todos a amam. Sim, ela dança, ri, grita, sarapateia, interage, faz gestos, brinca, provoca, alisa o namorado, o diabo. Sim, ela é simpaticíssima - e tem um dos sorrisos mais belos que eu já vi. Sua performance é desenvolta e espontânea, naturalmente sensual. Simone faz o que faz com graça e beleza, faz porque gosta e se diverte e não por obrigação de entreter o público. E, maldição, é impossível deixar de reforçar: vai ser linda assim lá em casa!
Entretanto, fico contente ao saber que minha namorada é inteligente o suficiente para compreender minha fascinação (e a de todos os presentes) com Simone e satisfeito por ter a certeza que Mark Jansen não entende português.

O sortudo, a propósito, tem um ótimo desempenho nos vocais guturais e screams (que deveriam ser usados com mais constância) e não monopoliza as funções da guitarra, dividindo os riffs, bases e solos com Ad Sluijter, que não é mero coadjuvante, apesar de parecer mais iraniano que holandês e ser mais recatado que o resto da banda – perdendo apenas para o quase misantrópico Yves Huts (baixo).

Mas quem impressiona de verdade, além da deusa Simone, óbvio, é o baterista Jeroen Simons. Em estúdio sua performance fica escondida atrás de inúmeros corais e orquestrações mas ao vivo é ele quem dita as coisas. Pegada violentíssima e desempenho monstro no bumbo duplo. O principal responsável pelo peso que o Epica adquire ao vivo. Se no cd o coral e a orquestra são importantíssimos nas músicas, na turnê a banda fez a escolha certa em não tentar reproduzi-los fielmente (embora o uso de samplers seja inevitável), não ficando refém de sua própria música, mas apostando num autêntico show de metal.

A introdução “Hunab Kü” abriu espaço para “Dance Of Fate” e “The Last Crusade” (tríade de abertura do álbum), cantadas por todo o público, prova de que “Consign To Oblivion” vem mesmo vendendo horrores. “Sensorium” foi a primeira do debut a ser executada, e é a música típica do Epica, nem muito progressiva, heavy ou gótica, mas equilibrada e razoável. Diferente de “Mother Of Light”, melhor música do novo trabalho – superada apenas pela faixa título – dona dum instrumental intrincado, flertando com uma competência acima do normal na junção daquilo que compõe a musicalidade da banda. “Seif Al Din” coroou a seqüência, já que é um dos momentos mais altos de sua discografia. O set passou pela grudenta “Blank Infinity”, a singela “Linger”, o hit, e música mais gótica da carreira, “Cry For The Moon”, além do single “Quietus” e da reverenciada “Illusive Consensus”. Sempre com o carisma irresistível de Simone e a execução primorosa dos rapazes, demonstrando intimidade com os instrumentos e uma performance de palco surpreendente pelo pouco tempo de estrada. A suíte “The Phantom Agony”, de 9 minutos, aureolou a noite, acabando com qualquer dúvida do sucesso da apresentação. O repertório foi inteligente, e acabou antes de ficar cansativo.

Quanto ao som do Armazzém, nada de novo. Ele sempre foi muito bom, com poucas falhas, consistente, alto e estável. Compensando a estrutura errônea, com duas filas de pilastras formando um desnecessário hall no meio do galpão. Culpa talvez do planejamento dedicado a bandas de (sic) pagode e congêneres. A lamentar somente a displicência da segurança do local, que deixou o setor reservado à imprensa ser invadido por fãs até metade da apresentação do Thuatha de Dannan, atrapalhando o trabalho.

Contudo, a primeira turnê do Epica no Brasil só fez confirmar o que eu afirmava no review de “Consign To Oblivion”, cabendo perfeitamente um replay: “Um grupo incipiente, sim, mas que já assume a vanguarda do gênero e demonstra uma maturidade que poucas outras agremiações mais antigas conseguiram atingir”.

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Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

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