Mellotron: o instrumento cult que ajudou a compor clássicos

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Mellotron: o instrumento cult que ajudou a compor clássicos

Por Allan Gordon (Texto) e Rodrigo Werneck (Edição)

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Você se lembra da introdução da canção dos Beatles, “Strawberry Fields Forever”? Aquele bucólico som de flauta, assim como os violinos da “In The Court of The Crimson King”, do King Crimson, são originários do mesmo instrumento, o pai do moderno sampler, o Mellotron. Durante as décadas de 1960, 70 e, esporadicamente, até os dias atuais, este instrumento auxiliou diversos músicos e bandas na composição de clássicos, adquirindo status de instrumento “cult” por todo o mundo. Genesis, Yes, Led Zeppelin, The Moody Blues, Barclay James Harvest e mais recentemente, Anekdoten, Pär Lindh Project, White Willow, Sinkadus, só para citar alguns, são artistas que usaram-no largamente e contribuíram para que ele adquirisse tal condição.

O Mellotron M400
O Mellotron foi desenvolvido na Inglaterra no início da década de 1960 e foi baseado no Chamberlin, um instrumento americano. Ambos operavam com o mesmo princípio – um teclado semelhante a um órgão, que acionava diversas fitas magnéticas sob suas teclas, oferecendo ao músico a possibilidade de tocar amostras pré-gravadas de instrumentos acústicos num teclado, o que era impossível de ser feito até então. Em 1962, a pequena companhia dos irmãos Bradley em Birmingham (Inglaterra), recebeu a encomenda de fabricar 70 cabeçotes mono para o norte-americano Bill Franzen. Após a entrega, Franzen apresentou aos irmãos o protótipo de um instrumento de teclado, chamado de “Chamberlin”. Ele tinha três fitas gravadas para cada tecla e podia-se ouvir esta gravação ao pressioná-las. Ao contrário do que se imagina, tanto o Chamberlin quanto o Mellotron não tocavam suas respectivas fitas em “loops”, mas em comprimentos fixos, o que, neste caso, era um período de oito segundos. Quando a fita chegava ao fim, automaticamente parava e retrocedia à sua posição inicial. O Chamberlin tinha polifonia total (todas as suas teclas podiam ser tocadas simultaneamente) e, embora não fosse um instrumento feito em série, ele ampliava as possibilidades musicais, existentes anteriormente num instrumento musical de teclado, já que permitia a execução de sons de instrumentos acústicos como um trompete ou um trio de violinos.

O Chamberlin

O nome Mellotron veio derivado de duas palavras: “melody” e “electronic” (“melodia” e “eletrônica”). Talvez um pouco inapropriado, mas, numa época em que os sintetizadores ainda estavam engatinhando (Robert Moog só apresentou seu primeiro protótipo em 1965), parecia uma boa opção. 1962 a 1964 foi um período de “pré-produção” para os Bradley, no qual o instrumento foi desenvolvido, e vários sons e ritmos foram gravados em estúdio. Assim que eles consideraram ter uma boa quantidade de “samples” para poder trabalhar no que foi a base para o primeiro Mellotron, o “Mark I”, em 1964 a produção foi iniciada.

O Mellotron Mark II

O instrumento continuou sendo aperfeiçoado e, um ano depois, o “Mark II” foi lançado. Este modelo tinha dois teclados, mas diferentemente dos órgãos Hammond, esses teclados ficavam posicionados um ao lado do outro, com uma distância de, aproximadamente, a largura de três teclas. “Isto é um milagre!”, diziam os anúncios do Mark II e realmente, parecia isso o que instrumento era capaz de fazer. Para se ter uma idéia, em 1965, cada um dos Beatles tinha o seu. Uma particularidade dele, é o fato de que o teclado da esquerda era dedicado a uma seção rítmica, combinada com sons orquestrais tocando em diferentes estilos, como jazz, foxtrot, valsa, numa abordagem muito similar ao que vemos nos teclados arranjadores atuais. Em 1967, os Bradley e sua equipe reuniram esforços para construir um modelo menor e mais leve, que foi lançado no ano seguinte, o “Model 300”. Ele tinha menos recursos que o seu predecessor e apenas 52 teclas.

O Mellotron M300
Três anos depois, chegou ao mercado o modelo “definitivo”, o “Model 400”. Menor e mais fácil de transportar, sua mecânica foi simplificada em relação aos modelos anteriores, e dispunha de apenas três sons, sendo que as fitas podiam ser removidas e substituídas de acordo com a necessidade do músico, além de ser consideravelmente mais barato. Finalmente, o sonho da orquestra pessoal para qualquer um, tornava-se realidade! Hoje em dia, quando se fala de Mellotron, remete-se logo ao M400 branco, com 35 teclas de madeira, porém, se especialmente encomendado, poderia vir em (cor de) Mogno, também. O M400 atingiu o mundo musical como uma bomba, por isso, não é surpresa ouvi-lo em centenas de álbuns a partir de 1970. Em 1972, o instrumento ainda ganhou mais força, com o lançamento das fitas do clássico som do coral de oito vozes (4 masculinas e 4 femininas). As vendas aumentaram rapidamente e esse timbre figura, junto com os violinos, como um dos mais populares do M400.

Mellotron Mark IV nas versões branca e marrom

O ano de 1976 parecia o momento certo para uma maior distribuição do Mellotron por todo o mundo. Porém, a empresa detentora dos direitos (“Dallas Music”) faliu repentinamente, obrigando Les Bradley a vender o seu produto sob um novo nome, “Novatron”, já que a patente com o nome “Mellotron” foi erroneamente vendida como parte do patrimônio da empresa falida. Bradley nunca conseguiu se recuperar desse golpe e, com o crescente desenvolvimento dos sintetizadores polifônicos e samplers digitais, foi gradualmente reduzindo a produção, até que em 1988 encerrou definitivamente as atividades.

Porém, nenhum desses fatores tira a glória desse magnífico instrumento, que continua atemporal e com milhares de aficionados espalhados pelo mundo. Enganam-se os que pensam que só o rock progressivo agrega esses seguidores, já que a cena pop/rock contemporânea também reúne artistas de peso para mostrar às novas gerações a beleza do Mellotron. Dentre eles podemos destacar: Smashing Pumpkins, Radiohead e Oasis.

Os simuladores digitais de Mellotron

Hoje em dia, não é necessário ter um para obter seus timbres. Alguns teclados e módulos dos mais diversos fabricantes já vêm com boas amostras de sons de Mellotron. Alguns deles, inclusive, possuem “slots” de expansão, nos quais pode-se acrescentar placas e cartões carregados com inúmeras amostragens dos mais populares sons emulados pelo Mellotron. Uma boa opção também é o software M-Tron da GForce Software, que simula com extrema fidelidade o instrumento. Sua interface é uma reprodução perfeita do painel de controle do original e até mesmo os oito segundos de execução da fita foram reproduzidos. O software original custa apenas US$ 40 (lá fora) e vem numa embalagem muito interessante: uma réplica do case original do Mellotron!

Há também o recentemente lançado Memotron, da empresa alemã Manikin Electronic, que consiste num instrumento feito à semelhança do Mellotron, porém com a portabilidade de um teclado, tal como os simuladores de Hammond. Nele, as fitas originais foram substituídas por CDs com quase toda a biblioteca original do Mellotron. Nesses CDs, além dos violinos, flauta e coral de 8 vozes, há os raríssimos corais de 4 vozes masculinos e femininos, Hammond C3, piano elétrico Wurlitzer, e inúmeros outros.

O Memotron

Agora, se apenas o som não for o bastante, prepare-se. Embora o Mellotron original seja um artigo raro, para a felicidade dos aficionados, ele voltou a ser fabricado. Uma empresa canadense especializada na manutenção dessas máquinas está disponibilizando, sob encomenda, o modelo “Mark VI”, que é uma versão aprimorada do M400, mas mantém toda a estética e a tecnologia originais. Porém, esse mimo é para poucos – só aqueles que estiverem dispostos a desembolsar a “irrisória” quantia de US$ 5.200, fora as taxas alfandegárias. Muito? Certamente não! O valor de um pedaço da história da música é incalculável.

Números de unidades de Mellotron (o original) fabricadas

Modelo / Quantidade (aproximada)
Mark I - 55 unidades
Mark II - 160 unidades
Model 300 - 50 unidades
Model 400 - 2000 unidades

Top 10 “mellotrônico” (faça o seu você também!)

10º lugar: “Strawberry Fields Forever” - The Beatles: Pode não ser um épico, mas essa canção dos Beatles, de 1964, fez com que o Mellotron mostrasse sua cara ao mundo.

9º lugar: “Tears” - Rush: A única música do power trio canadense a utilizar o instrumento. Só por esse fato já vale a menção.

8º lugar: “Karelia” - Anekdoten: Quem disse que guitarras distorcidas e barulhentas não combinam com a delicadeza do Mellotron? O grupo sueco Anekdoten afirma isso com maestria nesse petardo, presente no álbum “Vemod”.

7º lugar: “Changes” – Black Sabbath: Os brutos também têm coração! Mesmo o “demoníaco” Black Sabbath fez uso do Mellotron – e muito bem! Como demonstra essa melancólica balada presente no álbum “Vol. 4”.

6º lugar: “Nights in White Satin” – The Moody Blues: Talvez a primeira música que defina bem o rock progressivo. Grandiloqüente, melódica. Indispensável para quem gosta do gênero... E de Mellotron também!

5º lugar: “Watcher of The Skies” - Genesis: Com essa música, o Mellotron definitivamente adquiriu o status de “orquestra pessoal”! O som combinado de vários violinos, certamente fez com que, na época, sequer se desconfiasse que se tratava de um instrumento de teclado!

4º lugar: “Soon” (fragmento de “The Gates of Delirium”) - Yes: O Mellotron de Patrick Moraz em todo o seu esplendor como pano de fundo para guitarras choradas de Steve Howe.

3º lugar: “In The Court of The Crimson King” – King Crimson: Clássico absoluto. Sem muito o que comentar.

2º lugar: “ The Rain Song” – Led Zeppelin: Os violinos são tão reais e executados com tanta expressividade que parece que o Mellotron foi tocado com um arco!

1º lugar: “Green Meadow Lands” – Pär Lindh Project: Flautas, cordas, coral... Todo o melhor do Mellotron num único pacote e engana-se quem acha que essa música é um clássico dos anos 1970. Trata-se de uma faixa do álbum “Gothic Impressions”, lançado em 1994.

O Birotron

Curiosidade: Uma dúvida freqüente, é se o Birotron (teclado que Rick Wakeman usou nos álbuns “Tormato” e “Yesshows”, do Yes) é algum tipo de Mellotron aperfeiçoado. A resposta é “não”! Apesar da semelhança, tanto estética quanto sonora, o Birotron foi criado pelo inglês David Biro (não confundir com David Byron, ex-vocalista do Uriah Heep!) e tinha uma mecânica similar ao Mellotron, diferindo, basicamente, no fato de que seus cartuchos tocavam infinitamente, ao contrário do Mellotron, que tinha apenas 8 segundos de execução contínua. O mais incrível sobre esse instrumento é que apenas 13 – isso mesmo, 13! – foram fabricados. Sem contar com o protótipo, é claro...

Vídeos no YouTube

Instalação de um módulo de fitas dentro de um Mellotron

As engrenagens internas de um Mellotron (com som a partir de 1:20min, mostrando os 8 minutos de duração das fitas)

Troca do módulo de sons de "cordas" ("strings") por um de "corais"

Tara Busch demonstrando as funcionalidades do Mellotron

Jordan Rudess (Dream Theater) tocando um Memotron

Maiores informações:
GForce Software (M-Tron) - www.gforcesoftware.com/ins_mtron.php
Manikin Electronic (Memotron) - www.manikin-electronic.com/en/products_memotron.html
Mellotron (Mellotron Mk.VI) - www.mellotron.com

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