A música dos Beatles que tanto Elvis quanto Sinatra trataram como obra-prima
Por Bruce William
Postado em 11 de dezembro de 2025
A história é curiosa justamente porque envolve dois nomes que, em momentos diferentes, foram o centro da cultura pop americana e não esconderam incômodo com a forma como os Beatles mudaram o jogo. Frank Sinatra veio da era dos crooners e da disciplina de palco de outro mundo. Elvis apareceu como a ruptura que assustou os adultos e virou religião para os jovens. Quando a invasão britânica explodiu, os dois já não eram mais a grande novidade.
Sinatra, em especial, chegou a tratar o rock and roll com desprezo em declarações antigas, e os Beatles entraram nessa conta quando o choque geracional ficou evidente. Elvis também teria reagido mal à ascensão da banda inglesa em alguns contextos, mesmo reconhecendo a força cultural do fenômeno que tomava conta da juventude.

Apesar desse clima de resistência, existe um ponto em que os caminhos se cruzam, apontou a Far Out. Entre todas as faixas do catálogo dos Beatles, os dois acabaram se rendendo à mesma música - uma composição de George Harrison que virou referência de balada sofisticada no fim dos anos 60.
A escolhida foi "Something". Sinatra exaltou a canção dizendo que era "uma das melhores músicas de amor que acredito terem sido escritas em 50 ou 100 anos" e ressaltou um detalhe técnico que o chamou a atenção: ela não precisa dizer "eu te amo" para funcionar como declaração romântica. A ironia é que Sinatra, mesmo adotando a música no repertório, nem sempre parecia atento aos créditos corretos. Paul McCartney contou que ele costumava apresentá-la como sua "música favorita de Lennon-McCartney" e brincou: "Obrigado, Frank", apontando o esquecimento involuntário de Harrison.
Elvis, por sua vez, também colocou "Something" entre as favoritas dentro do pequeno grupo de músicas dos Beatles que cantou ao longo da carreira. A faixa apareceu com força nos shows dos anos 70 e ficou associada à fase em que ele buscava equilibrar potência vocal com um repertório mais melódico e romântico, sem abandonar a personalidade que o levou ao topo.
O próprio Harrison explicaria mais tarde que, quando compôs a música, imaginou a voz de Ray Charles interpretando a melodia. Ele admitiu que na época não ficou tão empolgado com algumas leituras de cantores de uma geração anterior, mas também reconheceu que muitas versões são sinal de uma composição forte. E talvez seja esse o ponto central: "Something" atravessou o ruído das disputas de época e acabou unindo, na mesma admiração, três símbolos de momentos diferentes do pop: os Beatles no auge criativo, Elvis como ponte entre eras e Sinatra como veterano que, mesmo relutante com certas mudanças, sabia reconhecer quando uma grande canção estava diante dele.
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