A História da Guitarra - Parte 1: do Alaúde ao Violão

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A História da Guitarra - Parte 1: do Alaúde ao Violão

Por Daniel Alegria De Marco

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A guitarra é, sem dúvida alguma, o instrumento que melhor simboliza tudo aquilo que o rock pretende mostrar. Não existe pessoa aficionada por música, principalmente rock, que não conheça guitarras ou guitarristas. Poderíamos inclusive nos arriscar a dizer que a guitarra é conhecida por todos, mesmo aqueles que não estão especialmente "sintonizados" com música. De onde surgiu então este instrumento de concepção tão simples e detalhes tão complexos, capaz de fazer a alegria de milhares de pessoas?

Guitarra barroca feita pelo luthier Giovanni Tesler, 1618
A guitarra teve sua origem nos violões, mas uma longa jornada foi trilhada para que hoje a mesma tivesse as características a que estamos acostumados. A origem principal do violão é a guitarra barroca, sendo que os exemplares mais antigos datam do final do século XVI.

Eram instrumentos pequenos, com braços e corpos bem menores que os dos violões atuais, e parte traseira arredondada, feita pela junção de diversas ripas de madeira, como no casco de um barco. Até o século XVIII, porém, muito pouco aconteceu na evolução da guitarra barroca. Foi nessa época que se começou a usar, de forma mais generalizada, 6 cordas, mesma quantidade que temos hoje.

Guitarra barroca atribuída ao luthier René Voboam, século 17. Notar o fabuloso trabalho de entalhe com madrepérola e o contorno do corpo trabalhado em Marfim e Ébano.
Foi também nessa época que apareceram inúmeras tentativas de mudanças, com o objetivo de alcançar um design que fosse portátil, prático de tocar e que garantisse um volume sonoro suficiente para apresentações, visto que não existiam ainda métodos eletrônicos de amplificar o som do instrumento. Com isso, apareceram instrumentos bastante interessantes, normalmente mistos entre harpas e o que seria o violão que conhecemos hoje.

Modelo de guitarra-harpa, em forma de lira, feito pelo luthier François Breton, cerca de 1800. Notar a utilização de 6 cordas e a escala parecida com o violão tradicional.
No entanto, nenhum dos modelos inventados (e foram muitos...) virou um padrão aceito. Eram modelos pouco práticos de tocar e normalmente possuíam uma construção mais frágil e intrincada do que os violões da época.

No final do século XVIII, o violão (ou guitarra romântica, como é chamado o violão dessa época), já possuía uma caixa de ressonância maior, em forma de “8”, fundo plano, e quase sempre com 6 cordas. No século XIX, começaram a surgir violões com uma aparência similar a dos atuais. A caixa passou a ter a parte inferior mais larga, tomando a forma que conhecemos hoje. No entanto, havia ainda diversos estilos de construção, não existindo naquele momento uma arquitetura (sem contar afinação, quantidade de cordas, materiais empregados, etc.) que pudesse ser considerada "universal". Mas, foi no final do século XIX que o violão atualmente utilizado foi concebido, e inclusive podemos dizer que após isso poucas mudanças aconteceram até os dias atuais.

Foto do conhecido violonista Napoleon Coste, com alguns de seus instrumentos, todos do século 19. Reparar que o formato de corpo dos instrumentos já possuía formas bastante “atuais”.
Na Espanha, Antônio de Torres estabeleceu o que seria o padrão de construção do violão clássico feito atualmente, com as cordas de nylon. As alterações de Torres foram realmente profundas: o contorno do corpo tomou a forma atual e o comprimento da escala foi redefinido para 650mm, dando mais tensão às cordas. Com essa nova tensão, foi redefinida a estrutura do tampo e sua sustentação, criando o sistema de "bracing" utilizado até hoje por luthiers e grandes fabricantes. Torres construiu 320 violões (dos quais 66 ainda existem hoje) até 1892, quando faleceu. A contribuição de Torres dada aos violões "clássicos" (equipados com cordas de nylon), ratificou a Espanha como um pólo tradicionalíssimo na construção desse tipo de instrumento (sem falar na guitarra flamenca que, a princípio usada apenas para esse gênero, possui atualmente construção bastante parecida com a clássica, chegando inclusive a serem confundidas em alguns casos).

Apesar das transformações ocorridas com o instrumento na Espanha, no final do século XIX ainda vivia-se sem usufruir da velocidade da informação de um mundo globalizado, e portanto paralelamente ao trabalho de Torres outros esforços eram empreendidos com o intuito de aperfeiçoar o violão.[ * retorna x>

Esta foto mostra um violão feito por Torres, o pai do violão clássico moderno. Datado de 1860, possui linhas bastante atuais. Reparar no detalhe da mão, onde as tarraxas ainda eram de madeira, com afinação garantida por atrito (usava-se pó de giz para aumentar o atrito entre as peças e garantir a afinação).
A principal contribuição neste sentido foi dada por um luthier alemão que, como tantos outros, resolveu cruzar o Atlântico em busca de oportunidades no novo mundo. Christian Friederich Martin não imaginava que sua iniciativa criaria uma marca que ajudaria a escrever a história da música do século XX e definiria um novo padrão na construção de violões de cordas de aço.

Martin foi para os EUA no ano em que foi registrada uma das maiores chuvas de meteoritos de toda a história. Não sabemos se durante a sua longa viagem ele teve a possibilidade de observá-los do convés do navio e fazer algum pedido, mas o fato é que suas criações obtiveram grande sucesso e definiriam o que viria a ser considerado o violão americano, ou como é mais conhecido de todos, o violão de cordas de aço.

Martin estava acostumado a construir instrumentos baseados na tradicional escola européia, altamente decorados e empregando materiais raros como marfim e madrepérola. Logo percebeu que se quisesse ter sucesso na nova empreitada teria que adaptar seu estilo. Afinal, seu mercado potencial era formado basicamente por pessoas modestas, que trabalhavam duro e sem tempo para "pompas e circunstâncias". Usando sua experiência e buscando soluções inovadoras, Martin simplificou os instrumentos, sem contudo abrir mão da qualidade e cuidado na construção dos mesmos. Na prática isso pode ser verificado através da adoção de uma mão simples (onde ficam as tarraxas), de linhas retas e sem adornos, assim como um cavalete também de linhas retas. Também aumentou o tamanho da caixa de ressonância, e aplicou uma de suas maiores invenções: a estrutura do tampo em forma de X, conhecida como "X-bracing". Esta estrutura consiste basicamente em reforçar o tampo internamente com 2 ripas formando um X, garantindo rigidez e durabilidade, mas permitindo liberdade de vibração ao conjunto. No século seguinte, esta estrutura caiu como uma luva no emprego de cordas de aço, suportando a tensão extra das mesmas em relação às de nylon e ainda assim garantindo uma sonoridade forte e precisa. Essa arquitetura de construção virou então o padrão utilizado nesse tipo de instrumento, e é usada até hoje por praticamente todos os fabricantes. Nascia assim o violão de cordas de aço, também chamado de violão folk.

X-bracing: a estrutura interna do tampo de um violão Martin, usada por inúmeros fabricantes até os dias de hoje. Mão: esta foto mostra a mão de um violão Martin modelo 2-27, de 1870. Repare que a mesma era simples, sem adornos e com linhas retas.

Washburn modelo 355, de 1899. Totalmente inspirado nos modelos da Martin, porém com boa qualidade de materiais e acabamento.
Deve-se ressaltar que Martin não era, de forma alguma, o único nessa época a produzir violões neste estilo. É claro que vários fabricantes prontamente se dispuseram a copiar o desenho de Martin, o que contribuiu mais ainda para que o padrão fosse aceito. Entre estes, podemos destacar a "Lyon and Healy". Fundada por Patrick Joseph Healy e George Washburn Lyon em 1864, produzia instrumentos em grande quantidade e de muito boa qualidade, e sua linha de instrumentos, a Washburn, ainda existe até hoje apesar de uma história cheia de altos e baixos ao longo de todos esses anos.[ * retorna x>

Gibson L1, modelo de 1912, mostra um corpo de tamanho pequeno em relação aos modelos posteriores.
Já no início do século XX, os violões de cordas de aço e nylon haviam atingido uma maturidade plena em técnicas de construção e padronização. Pode-se inclusive arriscar dizer que muito pouco aconteceu no sentido evolutivo desses instrumentos até hoje. Ocorreram, sim, adaptações às novas realidades: madeiras raras foram substituídas por outras, a fabricação de cordas alcançou mais precisão e a oferta de modelos aumentou. No entanto, ainda existiam muitas idéias para se colocar em prática.

E assim, foi em 1902 que Orville Gibson, um habilidoso luthier, criou uma empresa com o objetivo de construir bandolins e violões. No entanto, Gibson não queria construir instrumentos como os que os outros faziam: queria aplicar seus conceitos de construção de violinos e violoncelos aos bandolins e violões. Apareceram assim instrumentos com tampo e fundos curvos esculpidos, e a tradicional boca redonda foi substituída por aberturas em formas de "f". A ponte (ou cavalete), antes colada no tampo, passou a ser móvel, como nos violinos, atuando como um transmissor das vibrações das cordas para o tampo e caixa de ressonância. As madeiras empregadas passaram a ser similares às usadas nos violinos. Nascia, além da Gibson que todos conhecem hoje, a guitarra de jazz.

Com as modificações realizadas por Gibson e com o aumento do tamanho da caixa de ressonância, realizada nos anos 30, a guitarra conseguiu um substancial aumento de volume sonoro. Os modelos lançados pela Gibson, particularmente L5 e Super 400, viraram campeões de popularidade entre os grupos de jazz.

Gibson L7, modelo de 1937, já mostra uma caixa de ressonância grande (17 polegadas na parte inferior mais larga), com objetivo de garantir um volume de som condizente com as necessidades da época, já que então a guitarra elétrica ainda não podia ser considerada uma realidade.
Nessa época, outras empresas disputavam o espaço com a Gibson no segmento de guitarras de jazz. As principais eram a Stromberg e a Epiphone, criada pelo filho de um imigrante grego, Epaminondas Stathopoulo. Inicialmente denominada "House of Stathopoulo", teve seu nome mudado para "Epiphone Banjo Corporation", em 1928 (“Epiphone” é a combinação de “Epi”, apelido de Epaminondas, com “phone”, som em grego). Com a morte de Epaminondas em 1940, e com a Segunda Guerra Mundial, a Epiphone enfrentou diversas crises até ser vendida para a Gibson, em 1957.

No entanto, apesar de todas estas inovações, a proliferação das “Big Bands” nos anos 30 colocou a guitarra em uma posição delicada. Por mais bem construída que fosse, seu volume sonoro não conseguia rivalizar com o dos metais e bateria. A idéia de aumentar o volume a partir de agora seria recorrer à eletricidade.

Estava preparado o cenário para o nascimento da guitarra elétrica...

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