Mike Portnoy: "eu apenas pedi um tempo para eles"

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Mike Portnoy: "eu apenas pedi um tempo para eles"

Traduzido por Kako Sales | Fonte: Blabbermouth.Net

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Sakis Fragos, editor-chefe da edição grega da revista Rock Hard, conduziu no mês passado uma entrevista com o baterista Mike Portnoy (Adrenaline Mob, Dream Theater, Avenged Sevenfold). Alguns trechos da conversa seguem abaixo (transcritos do áudio original pelo Blabbermouth.Net).

Sobre se ele já havia tomado a decisão de deixar o Dream Theater antes de começar a turnê com o Avenged Sevenfold:

Portnoy: “Eu não havia tomado a decisão de sair do Dream Theater antes de sair em turnê com o Avenged Sevenfold, mas eu sabia que algo devia mudar no campo do Dream Theater. Infelizmente, fui eu que tive que mudar, porque eu nunca quis sair da banda – nunca foi minha intenção; eu nunca quis que houvesse essa separação. Eu só pensei que a banda podia dar um tempo, porque acho que o romance estava realmente acabando – no backstage e entre os membros pessoalmente. 25 anos sem descanso é um tempo muito, muito, muito longo e às vezes essas relações precisam de um tempo, uma distância para reacender a chama. Então isso foi tudo o que sugeri. E mesmo antes de cair na estrada com o Avenged Sevenfold, eu me lembro de fazer uma turnê com o (projeto de rock progressivo) Transatlantic no começo de 2010 e já sabendo que havia algo errado no mundo do Dream Theater e que eu realmente precisava de um tempo dos caras e de toda a máquina do Dream Theater. E eu sabia que alguma coisa estava fermentando e sabia que eu estava infeliz, e como já foi bem documentado em todo lugar, eu queria somente um tempo. Mas, infelizmente, os caras (do Dream Theater) não viram dessa forma e não respeitaram minha solicitação de tempo. Infelizmente, as coisas acabaram desse jeito.”

Sobre algumas das recentes entrevistas com membros do Dream Theater em que eles descrevem seus papéis na banda como sendo “muito mais equilibrados” após a saída de Portnoy e sobre o comentário do tecladista Jordan Rudess de que Portnoy era “a polícia do Dream Theater” que controlava o processo de composição quando ainda era baterista da banda:

Portnoy: “Me machuco ao ler coisas desse tipo, mas eu também sei que vários websites adoram botar fogo nas coisas, adoram picuinhas, então eu sei que muitas vezes, citações são colocadas fora do contexto; vi isso acontecer tanto comigo mesmo no ano passado. Então entendo que tenho que lidar com essas coisas calmamente e não ficar muito nervoso com isso. Porém, sim, talvez eles estejam mais equilibrados, porque, na verdade, durante todo tempo em que estive no Dream Theater, era eu quem fazia o show; não acho que isso seja segredo e acho que os caras iriam admitir isso. Eu era o mais proativo, o mais apaixonado, o mais focado, o membro da banda mais viciado em trabalho. Eu trabalhei para aquela banda cada dia da minha vida sem descansar um só dia. Eu era obcecado, apaixonado e controlador para com a banda; nunca quis que ninguém chegasse e machucasse, mudasse ou afetasse a banda, e eu tinha o pulso bastante forte sobre como eu achava que a banda tinha que ser e sobre o que eu queria dar aos fãs. Então eu não fico ofendido com o fato de alguém ressaltar isso, porque a verdade era que as coisas eram do jeito que eram. E se, agora, sem mim, eles estão um pouco mais equilibrados e eles estão dividindo as responsabilidades... Que seja do jeito que funcione para eles. Mas eu sempre soube que cada um deles deveria dar um passo à frente com relação ao envolvimento e comprometimento com a banda assim que eu saí, porque antes de eu sair, cada mínima decisão passava por mim, e os caras não deram opinião em muitas decisões durante todos esses anos. Então eu sabia que todos eles teriam que se comprometer mais e dividir as responsabilidades para que eles pudessem trabalhar. Então eu acho que é isso que eles estão fazendo, e se eles estão felizes, então eu fico feliz por eles.”

Sobre o fato de os últimos álbuns do Dream Theater conterem alguns riffs bastante pesados, influenciados por Pantera/Metallica, juntamente com backing vocals brutais de Portnoy, elementos que não são ouvidos no novo álbum do Dream Theater, “A Dramatic Turn of Events”:

Portnoy: “Eu não posso falar pelos caras. Eu só posso falar por mim mesmo. Mas eu sempre quis que o Dream Theater mudasse com o passar do tempo. Muita gente queria ouvir o ‘Images and Words’ pelo resto da carreira do Dream Theater, e eu acho que o Dream Theater precisa ser uma banda que move com o tempo e muda com o tempo. Eu não queria tocar coisas que soassem como ‘Learning to Live’ pelo resto da minha vida. Então eu acho que era importante ter elementos modernos e incorporá-los. E se os caras não concordassem ou não quisessem que a música fosse nessa direção, então eles poderiam facilmente ter falado. Por mais que eu fosse um controlador com tudo no Dream Theater fora a música em si, quando partíamos para a música em si, eu, John Petrucci e Jordan Rudess basicamente compunhamos todas as músicas juntos. Então se eles não gostassem de algo que eu estava apresentando, eles eram sempre bem-vindos para se manifestarem livremente. Então não é justo me culparem pelo direcionamento musical; nós compartilhamos aquela visão juntos.”

Sobre a possibilidade de uma reunião com seus ex-colegas de banda do Dream Theater em algum momento no futuro:

Portnoy: “Bem, você não pode pegar uma relação de 25 anos, jogá-la pela janela e desprezá-la. Então eu nunca digo nunca. Se os caras em algum momento me pedirem para trabalhar com eles novamente, eu iria levar isso em consideração, dependendo de minha disponibilidade e do que tiver acontecendo em minha vida. Mas a realidade é que, agora, eles seguiram em frente e eu segui em frente. Eu não acredito que eles tenham alguma intenção de olhar para trás agora; ao menos não parece. Suponho que se as coisas funcionarem com o novo baterista, então eles provavelmente não teriam razões para olhar para o passado. Mas se, por algum motivo, as coisas não funcionarem, então suponho que talvez fosse algo que eles levariam em consideração. Mas acho que cruzaríamos uma ponte quando chegássemos nessa situação. Mas nesse momento, várias pontes estão destruídas, então há muita coisa a ser reconstruída para que isso aconteça.”

Sobre sua relação atual com seus ex-colegas de banda:

Portnoy: “Jordan tem sido o único membro da banda que tem aparecido e me mandou alguns e-mails me apoiando, muito legais, e eu o agradeço por isso. Jordan sempre foi uma pessoa muito gentil. Quanto ao (baixista) John Myung e ao (vocalista) James (LaBrie), eu não os vejo ou converso com eles desde 9 de setembro de 2010, quando tivemos nossa última conversa. John Myung mora a um quarteirão da minha casa, mas eu não o vejo ou falo com ele desde setembro (de 2010), então já faz quase um ano. E John Petrucci, eu o contactei em outubro de 2010 na esperança de tentar reconciliar, resolver nossas diferenças e fazer as coisas funcionarem. Eu entrei em contato e conversei com ele. Mas essa foi a última vez que eu falei com ele. E ele nunca me respondeu, na verdade – ele apenas mandou seu advogado falar comigo. Então, infelizmente, eu adoraria ter uma relação pessoal com os caras, mas por algum motivo, as portas se fecharam entre nós e isso é muito triste. É triste para mim porque aqueles caras foram meus irmãos por muitos anos. Mas eles seguiram em frente e eu também estou seguindo em frente.”

Sobre se o elemento “diversão” estava ausente do Dream Theater no fim de sua passagem pela banda:

Portnoy: “Eu acho que sim. Acho que o Adrenaline Mob é diversão. Sei que quando saí do Dream Theater, estava deixando um porto seguro. Eu poderia ter ficado no Dream Theater pelo resto da minha vida e ter uma segurança financeira e uma segurança em termos de carreira, mas, para mim, não posso ficar fazendo música porque eu tenho que fazer – eu preciso fazer música com as pessoas porque eu quero fazer. E com o Adrenaline Mob, nós absolutamente adoramos tocar uns com os outros, e há um senso real de animação toda vez que subimos no palco. E estamos definitivamente construindo essa banda do zero. Não posso contar com o fato de tocar para cinco mil fãs do Dream Theater toda noite. Estamos tocando em vários bares para apenas algumas centenas de pessoas toda noite. E isso não importa – nos sentimos com uma banda nova, jovem, que vai de cidade em cidade e fazem novos fãs toda noite; temos que conquistar cada pessoa do público cada noite. E há uma animação, um rejuvenescimento que vem com isso.”

Sobre como ele se sente ao ver o Dream Theater lançar um novo álbum com o qual ele não teve absolutamente nada a ver:

Portnoy: “É algo em que, nem em um milhão de anos, eu teria imaginado. É muito estranho para mim e me machuca em vários aspectos; é muito triste para mim. Eu teria preferido que tivéssemos dado um tempo ao invés de nos separarmos, mas essa foi a forma como as cartas foram dadas e não há nada que eu possa fazer. Se isso é o que eles querem fazer, então eles seguiram em frente e eu seguirei em frente. Então o que eu posso dizer? É algo fora do meu controle.”

Sobre se ele sente que alguns fãs interpretaram mal a decisão dele de sair do Dream Theater e esqueceram todas as contribuições dele para a banda:

Portnoy: “Machuca, porque todo meu coração, alma, sangue, suor e lágrimas para todos aqueles anos de Dream Theater foram baseados em fazer coisas para os fãs. E sempre deixei claro que o Dream Theater era uma banda orientada aos fãs, e tudo, de fã-clubes a websites, a bootlegs oficiais, a repertórios, a trabalhos de arte, a merchandising, tudo aqui fui eu que supervisionei e controlei para os fãs. E aí, quando houve a separação, ver tantos fãs do Dream Theater virarem as costas para mim, me machucou bastante. Sou um ser humano – sou feito de carne e osso – e quando eu leio aquelas coisas na internet, parte meu coração e me incomoda bastante. Mas tive que desligar meu computador e tentar virar minhas costas para aquelas coisas, porque quando eu leio, parte meu coração. Quando não leio, fico muito feliz ao ver onde estou – estou muito confortável com o que estou fazendo em minha vida e carreira e apenas preciso, pela primeira vez em minha vida, tomar decisões para tornar minha vida feliz. Por 25 anos, tomei decisões para fazer os fãs felizes, porém ao menos uma vez em minha vida, preciso seguir meu coração. Me dói na alma quando eu vejo fãs virando as costas para mim, mas, por outro lado, não quero esquecer de mencionar o fato de que há uma quantidade imensa de fãs que estão vendo as coisas e que ainda assim me apoiam e entendem o que aconteceu e estão atrás de meus próximos passos musicais. Então, para aquelas pessoas que ainda estão atrás de mim, eu nunca irei desapontá-los – continuarei a trabalhar bastante e apaixonadamente como fiz com o Dream Theater. Colocarei tudo aquilo dentro de tudo que eu fizer em minha carreira, para que os fãs que ficarem comigo terem um artista direcionado ao fã para o resto da vida. É o jeito que sou, e isso se aplica a toda banda com a qual trabalho.”

Sobre o fato de que a recente turnê européia do Dream Theater ter sido a primeira vez que a banda tocou exatamente o mesmo repertório em todos os shows:

Portnoy: “Bem, tenho certeza de que haverá muitas coisas no Dream Theater que serão diferentes, porque o fato é que eu tomava todas as decisões na banda além da música em si. Então, é claro, haverá algumas coisas que serão diferentes e então, obviamente, haverá outras coisas que seguirão a estrutura e as idéias que eu concebi e eles irão apenas continuar a utilizar o que foi estabelecido no passado comigo. Então como eles conduzem a banda e sugam tudo das minhas folgas, todas as obrigações que eu deixei para eles tomarem conta depois de minha saída, como eles fazem isso é problema deles. Eu não sei. Acho que todos nós estaremos esperando para descobrir.”

Sobre a opinião de alguns fãs do Dream Theater de que “a mágica se foi” da sonoridade da banda e da química das composições, agora que ele não faz mais parte do grupo:

Portnoy: “Eu sempre achei que os elementos e personalidades mais fortes no Dream Theater eram eu e John Petrucci. E, bem no início, Kevin Moore (ex-tecladista do Dream Theater) foi uma grande, imensa parte daquela química, e aí, mais recentemente, Jordan Rudess foi uma grande parte daquela química. Mas, no fim das contas, foi sempre eu e John Petrucci. E John Myung, é claro, mas ele é uma pessoa mais quieta, então ele não é um elemento tão forte porque ele é calmo por natureza. Mas sim, John Petrucci e eu éramos, e acho que sempre seremos, o som, o estilo, o coração e a alma do Dream Theater. E eu acho que se você tirar um de nós, acho que é como quando Roger Waters e David Gilmour se separaram. David Gilmour continuou com o Pink Floyd sem Roger Waters, mas até onde eu sei, nunca mais foi a mesma coisa. Roger Waters era uma grande parte do som em todos os álbuns clássicos do Pink Floyd, e assim que ele saiu, achei que o Pink Floyd passou a soar como uma banda solo de David Gilmour. E acho honestamente que se John Petrucci viesse até mim no ano passado e dissesse que precisava de um tempo, eu não teria continuado o Dream Theater sem ele; eu absolutamente teria respeitado seu desejo de dar um tempo, teria colocado a banda na geladeira e esperaria por ele. Então, me entristeço por ele não ter feito isso por mim, por que eu acho que o Dream Theater, no fim das contas, sempre foi resultado da química entre eu e ele.”

Comentário do perfil de Mike Portnoy no Facebook (postado após esse artigo ter sido publicado no Blabbermouth.Net):

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Agradecimentos: Samuel Coutinho

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Sobre Kako Sales

Mineiro de Januária, baterista autodidata, cresceu em ambiente familiar ligado à música popular e erudita. Seu pai chegou a fazer pequenas turnês com bandas da Jovem Guarda como tecladista no fim da década de 70. Aos 10 anos, iniciou os estudos de teoria musical e piano clássico. Teve o primeiro contato com o mundo do metal ao escutar o CD Angels Cry do Angra, aos 15 anos. Desde então tem se dedicado a conhecer, colecionar e difundir o melhor do metal brasileiro e mundial. Graduado em Letras/Inglês, principalmente por influência da língua-mãe do rock, tem como principais ícones do metal as bandas Angra, Symphony X, Dream Theater e Opeth.

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