Resenha - Scarsick - Pain of Salvation

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Resenha - Scarsick - Pain of Salvation


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Se você ouviu “Be” e achou algo um tanto diferente, até meio estranho mesmo, mas gostou, o teste de fogo só começou com os suecos do Pain of Salvation. Isto porque este ano eles foram além na sua proposta sonora e temática com “Scarsick”, que com certeza dividirá opiniões, mas leva o metal a um degrau além.

Nota: 9

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Colaborou: Thomás Levy

A banda já tem um tempo grande na estrada. Fundada com este nome em 1991 por Daniel Gildenlöw (líder, guitarrista, vocalista, baixista, compositor, produtor...), teve seu real divisor de águas mais recentemente, com “Be”, de 2004, álbum que não é exagero chamar de genial. Na proposta megalomaníaca de um prog metal único e com uma consistência temática e musical de dar inveja, eles abordaram um tema dos mais complexos, a existência, e saíram com um resultado no mínimo grandioso.

Desta vez, eles vão ainda mais longe com “Scarsick”, que é a segunda parte do álbum “The Perfect Element, Part 1”, de 2000. Resumindo, o álbum continua com a ‘saga’ dos personagens Him e Her (algo como Ele e Ela em português), tratando desta vez quase que exclusivamente do primeiro, por isso toda a agressividade temática e musical, a maior na história da banda. Segundo algumas pistas do encarte e do fim de “The Perfect Element, Part 1”, ele estaria trancado dentro de um quarto, vendo o mundo apenas por uma TV. Levando isso em conta, o tema geral do disco é de crítica à sociedade de hoje em dia de modo geral: cultura de massa, alienação, capitalismo, americanismo e o que mais vier pela frente. E mais, tudo retratado não apenas em forma de letra mas também nas músicas em si, juntando ao prog metal os mais variados estilos de modo a passar a mensagem de maneira mais completa.

É neste ponto que o álbum pode ficar incompreensível para parte dos fãs, ou mais ainda para quem vai ouvir o Pain of Salvation pela primeira vez. Se Daniel já se mostrou um autêntico maluco em “Be”, ao menos ele é um trabalho com músicas mais próximas ao metal e ao rock progressivo, onde não é totalmente necessário se prender às letras para curtir o som. Aqui, o sueco fez algo que é muito mais difícil de ser apreendido a seco, sem uma olhada no encarte para acompanhar as letras e entender porque cada trecho foi colocado daquele jeito ou porque tal música aborda aquele específico estilo. Resumidamente, “Scarsick” é mais conceitual, de forma geral. Certo é que ambos precisam ser escutados varias vezes para serem entendidos.

O início do lado 1 (sim, eles dividem o álbum como se fosse um discão!), na faixa-título, é bem na linha prog, com muito peso e pouca enrolação, na linha soco no estômago/chutando o balde. O vocal de Daniel, como em todos os cerca de 70 minutos do play, já mostra a versatilidade, aproximando-se neste momento mais da fala enquanto o baixo “carrega a faixa” e alguns cantos mais misteriosos ficam de fundo. A letra mostra um cansaço de tudo, o vai sendo explicado e esmiuçado nas outras nove faixas.

Dando a partida na mistura de estilos, “Spitfall” apresenta o usual prog misturado ao rap e algo mais pop. Se na anterior o vocal já era bem falado, nesta imita realmente o hip hop, seguido pelo instrumental sombrio, que fica mais lento no meloso refrão. E se bandas como o Anthrax mostram o gosto pelo estilo, Daniel na verdade o usa para fortes críticas (como acontece mais para frente em outros momentos), uma vez que a letra usa expressões comuns dos rappers americanos como “aha yo” e “bro”, além de criticar o consumismo que é facilmente visto em qualquer clipe da MTV com aqueles que adoram ostentar carros, mulheres e o que mais puderem em ouro.

A terceira faixa, “Cribcaged”, é a mais emocionate do disco, levada ao som de violões, guitarras mais limpas e pianos, além de um vocal (dobrado por belos backing vocals) inspirado. A proximidade do Pink Floyd é inegável, com uma simples melodia no meio da música que é a cara do que os ingleses faziam em seu rock progressivo. Apesar de ser mais para uma balada, a letra segue no ataque, com o instrumental aumentando de intensidade, no final. Daniel fala do consumismo em lugar de as pessoas pensarem no futuro que darão aos seus filhos numa relação com a palavra crib (berço ou manjedoura em português) e até o programa da MTV que visita a casa de clebridades.

“So fuck the million dollar kitchen
Fuck the Al Pacino posters
Fuck the drugs, the gold, the strip poles
Fuck the homies, fuck the poses
Fuck the walls they build around them
Fuck the bedroom magic nonsense
I don't want to hear their voices
As long as they vote with their wallets”

Por falar em Pink Floyd, a dramática capa tem algo de “The Wall”, com um muro se fundindo com o rosto. Seria uma das idéias megalomaníacas de Daniel, criar com “Scarsick” um álbum com a grandiosidade do clássico do quarteto inglês? Mas isto é apenas uma teoria...

Em “Amerika”, uma das melhores, vem o maior mix musical, com um pouco de tudo que faz sucesso lá pela América do Norte, uma relação também com os musicais. As críticas são mais que diretas ao imperialismo americano e às guerras levadas pelo país e acontecem ao som principalmente de uma levada mais funkeada, com um baixão que deixaria Flea (RED HOT CHILI PEPPERS) de queixo caído e a batida furiosa de Johan Langell, baterista que deixou o grupo após o lançamento. Mas também há trechos relativos ao pop, rock e até country, sem esquecer a pausa para os comerciais. A letra é negativa em relação à situação dos EUA, mas mostra que se a população “levantar sua voz”, tudo pode mudar.

Acabou? Que nada, fechando o “lado 1”, vem o pior pesadelo, o “disco”. Sim, batidas dançantes e o refrão “Disco Queen, let’s disco!” com gritinhos de dar inveja ao Village People. Desta vez, a letra aborda a casualidade do mundo de hoje, pensando sempre na satisfação agora, sem maiores conseqüências e enfatizando o sexo. Daniel segue variando muito nas vozes, utilizando desde sussuros até trechos mais agudos com muita qualidade. E ao fim destas cinco faixas mais radicais, tem de se tirar o chapéu também ao restante da banda. Se Daniel leva os louros (merecidos) por criar todas as viagens da banda, Langell, Johan Hallgren (guitarra) e Fredrik Hermansson (teclado) também mostram sua versatilidade e seguram tudo num instrumental bem executado. A faixa ainda tem momentos mais “esquisitos” com efeitos e vozes diferentes, fungindo do ‘disco’.

Não se pode dizer que o restante do disco seja NORMAL, mas ao menos encerra um pouco essas outras influências e maluquices musicais. “Kingdom of Loss”, outra balada – instrumental leve, mas letras pesadas -, com um belo refrão e linhas vocais certeiras, se resume à frase “it’s all for sale”, em português está tudo à venda. O mais curioso é que no encarte a letra apresenta palavras chave como Terra, Deus, sexo, guerra e vida acompanhadas por "TM" o símbolo em inglês para marca registrada “®” (TradeMark). Já “Mrs Modern Mother Mary”, a mais curta com quatro minutos e toda baseada em um riff simples, trata da religiosidade e da alienação das pessoas que crêem cegamente em seitas e igrejas que na verdade mais espalham preconceito e ignorância, como diz a letra.

“Idiocracy” é mais uma na linha “chutando o balde”, lenta e sombria e com muitas detalhes sonoros de guitarra e teclado (característica sempre presente, com a vantagem da produção bem limpa de Daniel). Ela é uma fuga do que em vez de ser a democracia, com o direito para todos, é na verdade uma idiocracia.

“What I see is not worthy a democracy
It's uncivilized
So please close my eyes
I don't want to see this undemocratic,
Semi-automatic mediocracy and hypocracy
Pretending we're free under plastic flags
Waving dependency for this idiocracy”

O peso vem com força em “Flame to the Moth”, com bons riffs de Johan Hallgren e gritos à la Phil Anselmo no refrão. Ela é um protesto contra o capitalismo e a industrialização, em que a solução é bater o pé e dizer “Não!”.

“When you bow your heads tomorrow, to the world we build today
I want you to remember, that I stood my ground and said no.
I said no!”

Fechando de forma algumas vezes introspectiva, mas bastante épica, vem “Enter Rain” na única menção à personagem “Her”. A faixa - e a foto do encarte, com uma criança segurando uma rosa, além de outras dicas pela arte gráfica – parecem remeter a uma mensagem de esperança. Mas ao fim, em “in two seconds I will hit the ground...” Him aparentemente se joga de seu quarto e morre, ao fundo se ouve o som de uma ambulância chegando.

Acabado o longo CD, provavelmente você não vai entender patavinas... Antes de decisões precipitadas, é obrigatório ouvir duas, três vezes, acompanhar a letra, decifrar, pesquisar e tirar as próprias conclusões. Muitos não gostaram de “Be”, mas com o decorrer do tempo, foram dando valor ao trabalho feito pelo Pain of Salvation. Melhor mesmo é dar uma chance a “Scarsick” e seguir um pequeno conselho dado no site oficial dos suecos (http://www.painofsalvation.com), afinal, não basta ouvir, tem que viajar junto com a mente de Daniel e Cia.:

“Olhe em volta e se sinta em casa. Respire fundo e feche os olhos. Depois mergulhe nas profundas águas do Pain of Salvation. Não é sempre confortável, nem sempre bonito, mas é como se fosse o lar”

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Sobre Maurício Dehò

Nascido em 1986, é mais um "maidenmaníaco". Iniciou-se no metal ao som da chuva e dos sinos de "Black Sabbath", aos 11 anos, em Jundiaí/SP. Hoje morando em São Paulo, formou-se em jornalismo pela PUC e é repórter de esportes, sem deixar de lado o amor pela música (e tentando fazer dela um segundo emprego!). Desde meados de 2007, também colabora para a Roadie Crew. Tratando-se do duo rock/metal, é eclético, ouvindo do hard rock ao metal mais extremo: Maiden, Sabbath, Kiss, Bon Jovi, Sepultura, Dimmu Borgir, Megadeth, Slayer e muitas, muitas outras. E é de um quarteto básico que espera viver: jornalismo, esporte, música e amor (da eterna namorada Carol).

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