Talvez haja uma crença geral de que as muitas bandas de heavy metal, e especialmente black metal, invistam num visual "pesado" e por vezes "satânico" como técnica de marketing. Muitos integrantes de diversas bandas "extremas" podem realmente não acreditar em tudo aquilo que dizem em suas músicas. Porém, como em tudo, há também exceções, e uma dessas exceções é o músico dinamarquês Kim Bendix Petersen, ou KING DIAMOND, nascido em 1956, em Copenhague.

Mas qual é realmente a influência satânica de seu trabalho e de sua visão de mundo? Certamente, não é o pseudo-satanismo equivocado e "rebelde sem causa" que acabou por "macular" o satanismo intelectual de indivíduos sérios e conscientes. E KING é um indivíduo sério, consciente e inteligente, que pensa e questiona os costumes e dogmas vigentes numa sociedade imersa em tabus infundados e fanatismos.
Ironicamente, KING nasceu em uma família considerada cristã (porém, negligente), sendo ele mesmo na infância uma criança tida como angelical por seus pais e familiares. Parece também que ele jamais se envolveu com drogas, coisas ilícitas ou vagabundagens, e era um ótimo aluno respeitado por seus colegas na escola, chegando a graduar-se em Química e a trabalhar em pesquisas laboratoriais.
Mas voltando ao satanismo do Rei... Apesar das lendas que rondam KING (como muitas lendas que circulam no meio musical e artístico desde sempre), muitas de suas músicas foram inspiradas em fatos inusitados e "sobrenaturais" que ele vivenciou ou presenciou, em sonhos e pesadelos vívidos, filmes de terror, além da literatura e, principalmente, de uma filosofia satanista bastante conhecida e difundida ao redor do mundo por um sujeito um tanto excêntrico e peculiar: Howard Stanton Levey, mais conhecido como Anton Szandor LaVey (1930-1997), o fundador da Igreja de Satã (Church of Satan).


Mas KING já era "satanista", segundo sua própria filosofia e a de LaVey, mas não sabia disso até então; KING já praticava seus rituais com direito a um altar negro, velas e caveira. Mesmo considerando-se satanista, KING tem a mente aberta e é bastante racional com relação a muitos assuntos. Para ele, não existe Deus nem o Diabo, pois ambos são invenções cristãs; KING não acredita em Deus nem cultua o Satã estereotipado, que é também um deus forjado pela religião judaico-cristã. No satanismo, para KING e LaVey, não há adorações a coisa alguma, sendo Satã apenas um símbolo, uma representação da natureza selvagem, dos instintos, dos prazeres materiais, do crescimento individual, da liberdade de expressão e da autossuperação em meio às tribulações da existência, sendo esses os objetivos fundamentais do satanismo laveyano. É claro que tais ideias não são nada mais que naturais para qualquer criatura, mas são condenadas pelos dogmas fundamentalistas que querem tapar o sol com a peneira. O satanismo também valoriza o desenvolvimento tecnológico, as artes, a literatura, a música e todas as habilidades e talentos que os indivíduos possam elevar ao máximo e conquistar sua satisfação pessoal por mérito real.
Por outro lado, de certo modo, mesmo o satanismo mostrando uma filosofia ateísta, também parece fazer uma paródia provocativa do cristianismo. Além disso, o satanismo de LaVey é uma filosofia materialista organizada com base ética, regras fundamentais (que ninguém é obrigado a seguir) e práticas cerimoniais teatralizadas como recursos psicodramáticos para influenciar a mente e as emoções e estimular às ações no campo prático da vida.
E a teatralização é um elemento destacado no trabalho de KING.
Obviamente que há outras influências além do satanismo no trabalho de KING DIAMOND, tais como outras bandas e artistas "teatrais" mais velhos, mas a influência satanista de LaVey se sobressai. LaVey explorava bastante o efeito teatral nos rituais satânicos, e, nesse sentido, chegou também a participar como consultor, narrador e ator em alguns filmes.
Além da influência teatral que visa a interpretar suas letras sinistras, KING DIAMOND apresenta um evidente trabalho visual, com diversos símbolos e objetos, como, por exemplo, o símbolo que aparece no logo de sua banda de mesmo nome. O símbolo foi copiado de "A Bíblia Satânica", que, por sua vez, também o retirou da Alquimia. Trata-se de um tradicional símbolo alquímico do "fogoso" enxofre, formado por um oito horizontal, ou o símbolo do infinito, sobre o qual está uma cruz de Lorena que é também uma cruz templária. O enxofre e seu símbolo têm sido associados ao Diabo por seus detratores fundamentalistas, e o uso desse símbolo pela Igreja de Satã é claramente uma chacota, como se quisesse "concordar" (para não discutir inutilmente) com seus caluniadores, "reafirmando" que o Diabo fede a enxofre.


Além desses símbolos, o grande REI dinamarquês também faz uso do mundialmente conhecido sinal da mão cornuda (sign of the horns), que é, entre outras coisas, um símbolo de força, poder, inteligência, liberdade e criatividade. É também um símbolo pagão do Deus Chifrudo das feiticeiras, do deus grego Pã (e outros similares), do egípcio deus-chacal Anúbis, do crescente lunar (símbolo da Deusa) e da trajetória do planeta Vênus (Lúcifer), todos demonizados pela cristandade e pela Inquisição.
Pã, o fauno flautista que se deliciava com as ninfas, tem correspondência com Baphomet, cuja cabeça é inserida no pentagrama invertido, formando o famoso selo pré-satanista adotado pela Igreja de Satã. Pã significa "tudo", em grego; e Baphomet, segundo alguns, significa "batismo de sabedoria", também em grego, ou seja, nesse contexto, a sabedoria da natureza selvagem e da natureza humana. Baphomet tem ainda outros significados relacionados ao Caminho da Mão Esquerda e à Magia Sexual.
A música de KING DIAMOND arde em satanismo. Do álbum "Melissa", de sua banda MERCYFUL FATE, a letra da música "Into the Coven" descreve resumidamente um ritual satânico. Algumas indicações na letra sugerem semelhanças, em parte, com os rituais da Igreja de Satã: uma grande-sacerdotisa, bruxas, nudez feminina e... Satã.

Na música "Witches' Dance", do disco "Time", do MERCYFUL FATE, temos outra descrição ritualística, romantizada: um sabá no qual bruxas e "sombras" encapuzadas dançam para o Diabo (segundo a visão em voga), com chamas crepitando ao luar. Aqui, o Diabo é o "tradicional" bode sentado em seu trono de prata (um metal preferido do satanismo), conforme diz a letra da música. O bode é uma representação da natureza, dos instintos e da força criativa e procriativa, e a prata é associada à Lua, ao feminino e à feitiçaria (não necessariamente "magia negra" como entendida popularmente).

Os álbuns da banda KING DIAMOND são conceituais, como já mencionado, contando histórias de horror, mas fazendo referências satânicas e "sobrenaturais" que estão em toda a sua carreira com suas duas bandas.

Up the Kings!
Adriano Camargo Monteiro é escritor de Filosofia Oculta e LHP, licenciado em Letras, membro de diversas Ordens e um sincero apreciador de heavy/rock.
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