Katatonia em SP - experiência tenazmente preservada com brasa quente na memória e no coração
Resenha - Katatonia (Cine Joia, São Paulo, 21/03/2026
Por Marcelo R.
Postado em 27 de março de 2026
Ao iniciar esta resenha, confesso, de antemão, o espírito emocionado que me impulsiona à sua elaboração. Essa ênfase, já na largada, talvez descredibilize qualquer impressão de imparcialidade.
Como admirador inveterado de música e, especialmente, do Katatonia – conjunto que congrega todos os elementos que admiro nessa forma de expressão artística –, esse sentimento é-me, porém, inevitável. E isso naturalmente repercute nos superlativos, às vezes grandiloquentes, que reservo às palavras, retrato do sentimento que me domina.
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De todo modo, as impressões que lançarei adiante são plenamente fiéis às sensações que experimentei no espetáculo musical capitaneado pelos suecos do Katatonia no palco do Cine Joia, no dia 21/03/2026.
Admito, de partida, que não apreciei o trabalho mais recente do conjunto, intitulado Nightmares as extensions of the waking state. Fui-lhe, aliás, rigorosamente crítico, em resenha que elaborei coerente com impressões desprovidas de quaisquer paixões fanáticas.
Apesar disso, não deixaria de presenciar uma apresentação do conjunto. No meu caso, pela terceira vez. Afinal, o Katatonia ainda titula posição de grupo favorito, conjuntando, como já afirmado, todos os atributos e qualidades que formam a seiva de meu gosto musical dileto: canções imersivas, contemplativas e meditativas. Algumas delas, com contornos hipnóticos, densos e soturnos. E sempre sob envoltórios gélidos, melancólicos ou românticos, a depender da identidade impressa no DNA de cada composição.
Assim é que, naquela noite moderadamente quente de sábado, rumei à capital da terra da garoa, árida na ocasião. Esse movimento, que se iniciou muito antes – com longa viagem pela estrada, hospedagem em hotel, deslocamento à casa de shows e posterior regresso – representou, diga-se de passagem, uma verdadeira quebra de paradigmas pessoais, internos e externos.
Quem sabe, em algum momento, eu me incline ao detalhamento desse universo paralelo de desafios superados, que orbitaram ao entorno do show propriamente dito. Por ora, apenas deixo o passageiro registro, fator que, inclusive, impulsionou minha motivação à elaboração desta resenha.
Ao chegar ao Cine Joia por volta de 18h30min, encontrei-me prontamente com um amigo – Leonardo –, pessoa que, por sinal, conheci precisamente no último show do Katatonia em nosso território tupiniquim. Afeiçoamos uma grata amizade, que mantivemos virtualmente desde então. Reencontrá-lo novamente, alguns anos depois, compôs parte da coleção de alegrias que se formou ao longo desse dia de show.
Dito isso, à resenha.
A APRESENTAÇÃO DE ABERTURA: FALCHI.
Jéssica Falchi ostenta currículo que dispensa apresentações. Assim, economizarei o léxico para introduzi-la. Apenas um brevíssimo introito, para não lhe negligenciar importância: tendo integrado conjuntos como Iron Ladies, cover do Iron Maiden, e Crypta, Falchi construiu, consolidou e popularizou nome que, hoje, representa autoexplicativa afirmação de qualidade e de capacidade técnica.
Ao iniciar carreira em conjunto instrumental, a guitarrista alçou elevados voos de plena liberdade artística. Com a autonomia que essa liderança agora lhe delegou, Falchi demonstrou, no material de estreia – o EP Solace –, criatividade e cirurgia técnica, içadas a limites insondáveis. E, evidentemente, esse diâmetro, que lhe permitiu plena experimentação, reverberou na qualidade de seu show de abertura.
Pontualmente às 19h, o conjunto Falchi assomou ao palco. Das três apresentações a que compareci do Katatonia, essa foi a única incrementada com show de abertura. E, nesse caso, para a completa satisfação do público.
Com notórios entusiasmo e emoção, Jéssica Falchi e sua trupe performaram as canções de seu novo EP, com energia, perante um público caloroso e receptivo. A plateia louvava a apresentação com intensas e frequentes saraivadas de aplausos e com coros sonoros ao fim de cada canção.
O show de abertura – totalmente instrumental, como já afirmado – focou, evidentemente, nas linhas de guitarra, mas foi acompanhado por uma cozinha coesa e igualmente competente.
As composições alternavam-se entre aceleradas, cadenciadas e lentas, em doses equilibradas, conferindo aos números contornos ora épicos, ora líricos. Num amplo espaço diametral para experimentações – às vezes, lembrando a improvisações e jam sessions –, as faixas contagiaram o efervescente público presente, imerso naquela experiência tão envolvente e com tantas multicamadas.
Ao EP Solace, integralmente performado, Falchi acrescentou, em meio à fileira de canções, The Call of Ktulu, cover do Metallica. Escolha certeira para manter elevada a empolgação da plateia presente, já dominada pelo distinto carisma da comunicativa guitarrista.
Após aproximadamente 30 minutos de uma performance dinâmica, o conjunto deixou o palco sob efusivos aplausos de um público plenamente satisfeito.
Uma derradeira observação: espero que, com o aumento do repertório de canções de Falchi ao longo do tempo, a guitarrista emplaque shows como artista principal. A depender da capacidade técnica e da projeção que, com justiça e mérito, já vem recebendo e acumulando, Jéssica Falchi logo se lançará a prestigiadas empreitadas, como grandes eventos e festivais e como headliner de shows. É o que se deseja. E merece.
O SHOW PRINCIPAL: KATATONIA.
Particularmente, não conhecia a casa de shows Cine Joia. Sem antecipar grandes expectativas, vivenciei, ao final, grata surpresa logo ao ingressar naquele aconchegante espaço.
O Cine Joia é construído na forma de suave aclive. Assim, quem se posiciona mais ao fundo da pista tem assegurada visão do palco tanto quanto aqueles alocados mais próximos a ele. E, num ambiente mais compacto como o Cine Joia, todos têm garantida a chance de testemunhar, com maior ou menor proximidade – mas sempre de perto – o artista performante.
Pois bem. Após alguns ajustes de palco, acompanhados por uma trilha sonora que instigava o espírito do incontido público presente (que, a essa altura, já ocupava os poros do intimista espaço do Cine Joia), o Katatonia assomou ao palco, imponente, pontualmente às 20h10min.
Às primeiras notas da canção de abertura, Thrice, mais uma grata surpresa se somou às excelentes impressões até então já acumuladas: era notória a excelente equalização do som. Todos os instrumentos estavam equilibradamente audíveis, em ajustado volume.
Da mesma forma, a voz de Jonas Renkse irrompia elevada, permitindo o destaque dos atributos que lhe caracterizam como distinto vocalista: contornos firmes, cristalinos, limpos e soturnos. Por sinal, notei Jonas Renkse particularmente afinado nessa apresentação.
Conservando aura séria e soturna, como dita o figurino da estilística musical peculiar ao Katatonia, mas carismáticos à sua maneira, os integrantes performaram com vontade e entusiasmo.
Thrice, já citada, foi recebida com furor pelo público. Essa faixa é pesada, densa e sombria. Possui andamento cadenciado e incorpora, em seu entremeio, trecho instrumental com certas camadas de experimentação.
Se, no álbum de estúdio, a maioria das faixas não me agradou, justiça seja feita aqui: ao vivo, as canções executadas do novo álbum – quatro, no total – vestiram-se de uma roupagem mais pesada e enérgica, lamentavelmente esterilizadas e esgarçadas nas respectivas versões de estúdio.
Consequentemente, essas mesmas faixas, ao vivo, foram impulsionadas com uma potência que lhe melhoraram notavelmente a qualidade. É o típico caso, não raro, de composições que funcionaram melhores ao vivo em comparação às respectivas versões de estúdio.
Prosseguindo.
A apresentação dos suecos, daí em diante, desfilou, alternadamente, entre faixas novas e canções clássicas, sendo apenas sonegadas composições mais antigas do conjunto (praxe já há muito adotada pelo Katatonia). Essa espécie de negação ao passado remoto, aliás, parece ter impulsionado a recente saída de um dos integrantes fundadores do grupo, Anders Nyström.
De todo modo, com esses movimentos pendulares entre o presente e o passado (de curto e médio prazos), o Katatonia exibiu, entre outras, faixas como Soil's Song, The Liquid Eye, Austerity, Rein, Wind of No Change e The Longest Year. E o fez com boa vontade, energia e peso, em interação com o receptivo público, visivelmente emocionado.
O peso, aliás, esteve particularmente presente em faixas como Leaders e Nephilim.
Nephilim, por sinal, é uma espécie de resgate às raízes mais antigas do conjunto, com seu contorno genuinamente doom metal, lento e denso. Essa foi, diga-se, uma de minhas canções favoritas da noite.
O Katatonia manteve a mesma set-list performada na perna latino-americana da atual turnê (encerrada, por sinal, no Brasil, fato louvado por Jonas Renkse em um de seus raros diálogos à plateia. Falou pouco, mas fez muito...).
As camadas do show do Katatonia colocam em destaque sua identidade musical. Em suas apresentações, as performances moldam-se a uma iluminação de palco sob influência de cores frias, conferindo aos integrantes, por vezes, o aspecto de silhuetas quase fantasmagóricas. E, claro, isso é apenas uma potencialização daquilo que a música do Katatonia, ao vivo, alcança com máxima expressão: imersão, contemplação e introspecção sombria, melancólica e dramática, ao sabor de plena beleza estética.
E como sempre repito: esses atributos, aparentemente antagônicos, coexistem harmonicamente na arte. Não se repelem. Amalgamam-se. Tornam-na distinta e avultam seu aspecto ilimitado, rompendo, salutar e despreocupadamente, com qualquer regra engessada de lógica ou coerência.
Retornando.
Se, porém, o peso ditou o tom da apresentação, o aspecto primordial da música do Katatonia conserva-se, sempre, no núcleo do sentimentalismo. E esse apogeu foi alcançado com as sempre presentes, e tão especialíssimas, Old Heart Falls e Lethean, marcadamente soerguidas sob bases de intensa atmosfera, emoção e formosura estética. Essas são composições que o apreciador não apenas ouve. Sente-as. E, ao vivo, essa experiência transcendeu a uma elevação catártica, quase mística. Quem esteve no Cine Joia assim o testemunhou. Mais: sorveu e incorporou.
Rumando ao final da primeira parte do show, houve espaço, ainda, à intensa No Beacon to Illuminate Our Fall, faixa surpreendentemente incluída nessa perna de apresentações. Afinal, essa composição, pertencente a Sky Void of Stars, não foi tocada, ao que me consta, nem mesmo na turnê de promoção do respectivo álbum.
Derradeiramente, o conjunto performou In the Event Of, composição de encerramento do mais recente trabalho.
Então, silenciosos, os integrantes partiram, paulatinamente engolidos, submersos, pela escada que ladeava palco abaixo.
Após, porém, os clamores sonoros de um público ainda ávido e vigoroso, o grupo assomou novamente, após enxuto intervalo, para exibição de seu número final. O cerrar de cortinas ficou, então, a cargo de Forsaker, com seu estilo cadenciado, pesado e obscuro. Atmosfera perfeita e escolha certeira para um apagar de luzes sorumbático, típico da verve musical da musicografia do Katatonia.
Reverenciando, então, o público com um longo e respeitoso cumprimento e após distribuir palhetas à plateia, o conjunto saiu do palco, intensamente ovacionado. E, dessa vez, permanentemente.
Com aproximadamente 1h20min de apresentação, que transcorreu com aquela infeliz sensação de brevidade (sempre proporcionada pelos bons momentos), o Katatonia submergiu novamente da vista da plateia por volta de 21h30min, deixando aquele agridoce gosto de quero mais.
Se o álbum mais recente não convenceu – as resenhas são majoritariamente negativas –, no show, o Katatonia reconciliou-se com essa lacuna. Isso, não apenas porque as canções novas funcionaram muito bem ao vivo, mas também porque o conjunto soube moderar, excelentemente, a alternância entre faixas recentes com composições mais antigas. Apenas os clássicos de início de carreira foram novamente limados, fato que, todavia, não mais impressiona, já há muito.
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Após a ultimação das apresentações, rumei, finalmente, ao espaço de merchadising da Jéssica Falchi. Adquiri-lhe o EP Solace e um pôster. Ela, ali presente, atendeu a todos com o mesmo carisma genuíno pouco antes exibido ao palco. Conversou, paciente e atenciosamente, com os fãs que dela se aproximaram.
Enfileirei-me também. À chegada de minha vez, Falchi concedeu-me um dedo de prosa e, gentilmente, uma foto e autógrafos.
Deixei, então, o espaço do Cine Joia e, ali em frente, permaneci dialogando longamente com o Leonardo, aquele amigo a quem já me referi ao início desse texto. Uma pessoa que a boa música e os shows aproximaram e cuja amizade, desde então, preservaram. Espero sinceramente reencontrá-lo em breve.
Ao nos despedirmos, regressei ao hotel onde me hospedei, tendo chegado pouco antes de 22h30min. Em catártico estado de espírito, intensamente emocionado e deslumbrado, repousei com sensação de alma lavada. Antes, porém, e ainda aproveitando o timing desses sentimentos depurados, registrei, no pico do transe, um vídeo com breves comentários sobre essa experiência musical transcendental.
Dos três shows que testemunhei do conjunto, esse foi superiormente o meu favorito.
Dessa experiência, tenazmente preservada com brasa quente na memória e no coração, resta apenas aguardar, ansiosamente, pelo retorno dos suecos ao nosso território. E que o regresso seja em breve. O público sempre lhe será efusivamente receptivo.
Muito obrigado, Katatonia. Volte logo!
Set-list: Falchi
Moonlace
Sweetchasm, Pt. 1
The Call of Ktulu (Metallica cover)
Sunflare
Sweetchasm, Pt. 2
Set-list: Katatonia
Thrice
Soil's Song
The Liquid Eye
Austerity
Rein
Leaders
Dead Letters
Nephilim
Wind of No Change
The Longest Year
Old Heart Falls
July
Lethean
No Beacon to Illuminate Our Fall
In the Event Of
Bis:
Forsaker
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