Paradise Lost: show mais que belo, show lindo e ponto final

Resenha - Paradise Lost (Carioca Club, São Paulo, 01/09/2018)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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Tristeza. Melancolia. Mas com muito peso, mantido mesmo nas fases mais eletrônicas e controversas. E numa casa que receberia mais tarde a melosidade plástica da música inverídica na noite de sábado na capital paulista. O PARADISE LOST, gangue gótica liderada por Nick Holmes e Gregor Mackintosh, voltou a São Paulo trazendo novamente o metal que o consagrou, em todas as múltiplas facetas, ora pendendo mais para o aspecto cru do Death Metal, ora aproximando-se da multi-produzida eletrônica. A despeito de uma certa regularidade na capital paulista e de um outro show de metal de grande apelo na mesma noite, um bom público correu cedo para o Carioca Club para ver Holmes, Mackintosh, Aaron Aedy, Steve Edmondson e o já não tão novato Waltteri Väyrynen. Confira como foi o show, com fotos de Fernando Yokota.

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Ao contrário desta resenha (já faz quase uma semana, né?), o show começou exatamente na hora certa. 19h e nem um segundo a mais, enquanto o público, sedento por gothic death doom metal gritava "Paradise Lost", "Paradise Lost", "Paradise Lost", a cortina de abre. Enquanto toca a introdução, de uns a um eles sobem no palco. Primeiro o novato na bateria (parece que sempre vai haver um novato na bateria do PARADISE LOST), por último Holmes, todos ovacionados, um cabeludo, três carecas e um, digamos, melhor que fosse careca também (Gregor Mackintosh vem usando uma espécie de moicano esquisito que... ah, vamos falar de música que é melhor).

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Como o principal mote deste show é divulgar o "Medusa", excelente álbum lançado ano passado, a primeira do show é "From the Gallows", com heys, heys e punhos pro ar durante o pungente riff. Holmes, simpático e falante, ao contrário do que qualquer mal avisado esperaria de quem toca a música que ele e sua banda tocam, conversa com a plateia praticamente entre cada música e outra. "São Paulo, como vocês estão? É um prazer estar aqui para vocês", ele inicia. "Esta é uma canção de nosso segundo álbum". E os presentes gritam como se fosse alguma surpresa a presença de "Gothic", do álbum de mesmo nome, de 1991. A canção é o que melhor define o PARADISE LOST, toda a trajetória (mesmo com o "Host"). Ao fim, parecia fim de show.

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Palmas.

Gritos.

Paradise Lost.

Paradise Lost.

As palmas continuam acompanhando o início de "One Second", com sons gravados de piano e Holmes de voz limpa. Depois ele brinca:: "Como vocês estão? OK? Tem certeza? Esta é dançante, então sintam-se a vontade pra dançar". Não é exatamente o que o público carrancudo, cara feia, camisa preta, do metal faz, mas balançam um pouco mais, balançam sim, ao som de "Erased", aquela dos vocais femininos que parecem muito com os de Kate Pierson, do B52s (na verdade são de Joanna Stevens). E mais palmas. Muitas palmas recebem "Enchantment", a próxima. De fato, uma canção do "Draconian Times" só pode ser recebida com paixão. "Puta que Pariu", alguém grita. E as pessoas cá embaixo, os perdidos no paraíso perdido, participam de toda a canção, seja com o coro de ooooioo, oui cantando a letra, ou nos hey hey hey.

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Após a redondinha "Requiem" chega a vez de "Medusa", faixa título do álbum em foco (que Holmes lembra ser o décimo quinto da banda). A canção é linda, com piano onipresente casando com a guitarra punjento. É o peso. É a melodia triste e revoltada. Por isso o som do PARADISE LOST é lindo demais. Continua assim com "An Eternity of Lies", do penúltimo "The Plague Within", e em "Faith Divides Us - Death Unites Us", recebida com gritos quando foi anunciada por Holmes. Aqui o vocalista ainda brinca sobre o setlist.fm (nunca acesse esse site, caro leitor).

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Outra tirada de Holmes foi dizer que Charlton Huston seria um grande fã de canção "As I Die". E o carioca se contorce todo durante a canção do "Shades of God", como um defunto retornando à vida e enfrentando o próprio rigor mortis. A luz, lúgubre, um pesadelo para os colegas fotógrafos, adequava-se perfeitamente ao tipo de som apresentado.

Algum problema é rapidamente resolvido e na introdução de "Beneath Broken Earth", Holmes filma os gritos do carioca com seu próprio celular. "Este é um doom deplorável", tinha dito ele, "é como nós contemplamos como pode tudo pode ser tão terrível, é sobre estar morto por dentro". É mesmo uma canção que se ouviria nos túmulos, se aqueles que estivessem nos túmulos pudessem ouvir. Cada nota leva o tempo necessário pra soar. Não há pressa. É como se não houvessem colcheias para o PARADISE LOST. Mesmo as semibreves parecem ser muito rápidas para as guitarras de Mackintosh e Aedy.

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Assim como todo mundo sabe que o bis nos shows é uma mera formalidade, ninguém acreditou na próxima brincadeira de Holmes antes de "Embers Fire". "Esta a minha primeira cerveja do ano". Mesmo com o tipo mais triste do metal, a banda está se divertindo tanto quanto o público. É a atração gótica pelo macabro, pelo sombrio, pelo melancólico. Tudo é uma alegria. À maneira gótica, uma alegria.

O povo fica gritando pela enésima vez o nome da banda e eles rapidamente voltam com "No Hope in Sight", que abre o excelente último álbum. Sobre a canção e sobre não haver mais esperança em vista para o mundo hoje, relembremos, Holmes me respondeu em entrevista. "Provavelmente não. Nós (humanos) superestimamos nossa importância no planeta. A Terra não precisa de nenhum de nós e vai continuar sobrevivendo por muito tempo depois que nós todos tenhamos matado um ao outro. Eu acho que nós somos uma espécie de merda realmente". Leia a entrevista na íntegra no link abaixo.

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Com parte gutural e parte limpa, a canção é outra que sintetiza também o som do PARADISE LOST, dialogando com a história da banda, lembrando de quando Holmes percebeu que poderia lamentar e louvar a escuridão com sua própria voz e quando notou que, mesmo assim, o que o povo queria era o grotesco gutural.

Embora alguns tivessem esperança em vista e pedisse por "Shadow King" (pelo menos aqueles que não tinham conferido o citado setlist.fm), Holmes avisa que a próxima seria sobre o inverno, o inverno mais longo. É a deixa para "The Longest Winter", última das novas (foram apenas quatro do "Medusa"). Mesmo sendo uma canção nova tinha gente cantando junto. Para fechar o show, "Say Just Words", novamente com pianinho de um lado, gritos e palmas do outro.

Foi um show que não pode receber outro adjetivo senão, e simplesmente, lindo. Se você conhecer o PARADISE LOST hoje ele já vai se transformar em uma das suas bandas preferidas e ponto final.

E se aquela mesma casa, o Carioca, mais tarde abriria as portas para o pavoroso som do pagode do Bello, ninguém se importa. A qualidade musical da atração seguinte não nos interessa. Entendamos que é boa o suficiente, para seu próprio público, mas que também é boa o suficiente para o público do metal por dividir com ele os custos e evitar encarecer ainda mais o valor dos ingressos nesse Brasil de crise. Entenda-se então, que, nesse aspecto, é bom demais que existam os belos pagando metado do preço para que nós, os feios, possamos pagar a outra metade. Há algo mais belo que isso? E, como o show terminou cedo, ainda deu até para ver uma certa diva finlandesa adiante, subindo o Rio Pinheiros. Mais casas, não só em São Paulo como em todo o país, deveriam copiar a ideia e abrir as portas duas vezes na mesma noite. Dá certo. Dá certo demais.

Agradecimentos:
Ultimate Music, especialmente Costábile Salzano Jr., pela atenção e credenciamento.

Fernando Yokota, pelas fotos que ilustram essa matéria.

Setlist

1. From the Gallows
2. Gothic
3. One Second
4. Erased
5. Enchanted
6. Requiem
7. Medusa
8. An Eternity of Lies
9. Faith Divides Us - Death Unites Us
10. Blood and Chaos
11. As I Die
12. Beneath Broken Earth
13. Embers Fire

Bis
1. No Hope in Sight
2. The Longest Winter
3. Say Just Words

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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