Angra: se te pega desprevenido, novo show pode te fazer chorar
Resenha - Angra (Armazém, Fortaleza, 10/08/2018)
Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Postado em 16 de agosto de 2018
Em certo momento do show ("Magic Mirror", do novo álbum, "Omni", lançado com muito alvoroço, justificado, este ano), sem parar de tocar, Felipe Andreoli e Marcelo Barbosa tem um com o outro um diálogo que, obviamente, ali do meio do público, bombardeados pela música do ANGRA. Os dois riem como velhos amigos num churrasco (e são mesmo, já foram inclusive do ALMAH antes de estarem ambos no ANGRA), concordam e batem punho contra punho. É um retrato visto e falado de um breve momento, mas que pode expressar toda a noite de sexta no Complexo Armazém, em Fortaleza, com a banda está perfeitamente entrosada, os cinco olhando para o mesmo norte, não importando há quanto tempo entrou este ou aquele. Seria também a primeira vez em que canções do "Omni", um álbum "de fazer chorar", como me disse Rafael em entrevista (álbum este em que até fomos honrosamente citados na lista de agradecimentos). Além do ANGRA, mostrando pela primeira vez em Fortaleza algumas canções de seu mais novo rebento, apresentou-se o quinteto cearense de metal progressivo JACK THE JOKER numa festa onde distorção, melodia e técnica deram a tônica do evento muito bem produzido pela Empire. Confira como foi.
JACK THE JOKER
Os enormes estandartes da JACK THE JOKER (com o JTJ da banda) até parecem também ser fruto da mente de Daniel Martin Diaz, pela proximidade do estilo e pela mistura de figuras compondo uma iconicidade maior. Eles simbolizam o som que faz o quinteto formado por Rafael Joer (voz), Felipe Facó e Lucas Colares (guitarras), Ray Angelo (baixo) e Vicente Ferreira (bateria). Com dois albuns lançados (ambos muito bons), a banda cearense tinha pela frente uma plateia dividida entre fãs fieis e aqueles que ainda não os conheciam, com a árdua tarefa de unir todos num grupo só antes do show do ANGRA. Depois que soa a intro, Vicente já chega destruindo tudo em "Volte Face". O baterista é um prodígio e faz a diferença em qualquer banda em que ponha as mãos (ele também toca na IN NO SENSE e na CRIOKAR). E se a canção impressiona com os dois solos de guitarra (Facó e Lucas parecem competir entre si para ver quem é que emociona mais o público), "Sucks", a próxima no set tem três, incluindo um do baixista Ray Ângelo, o mais novo na formação que logo manda "Awake", uma música para cantar junto.
Como todo bom progressivo, "Here Again" é cheia de nuances, ora calma, ora agressiva. E se as longas partes instrumentais em canções lindas como "In The Rabbit Hole", que dá nome ao primeiro álbum da JACK THE JOKER, são dignas de nota, também é a performance de Rafael Joer, dinâmica e versátil, tanto quando quer soar mais agressivo quanto quando puxa mais para o soul. "Brutal Behavior", uma daquelas canções que tem méritos para nunca sair dos sets (mesmo quando esta banda tiver uma dúzia de discos) fez o show terminar com "olê olê olê olê jackê jackê".
ANGRA
Quando na casa começou a tocar "Tom Sawyer", clássico do RUSH, o público notou que, assim como o da JTJ, o show do ANGRA também começaria pontualmente. E foi isso que aconteceu. A terceira das principais encarnações da deusa do fogo reapareceu na capital do Ceará declarando estar renascida mais uma vez com "Newborn Me", do "Secret Garden", o penúltimo álbum, já com Fábio Lione nos vocais, mas ainda com Kiko Loureiro dividindo a guitarra com Rafael Bittencourt. Essa é a deixa para viajar no tempo em direção ao presente, ao "Omni", o primeiro álbum gravado com Marcelo Barbosa na posição antes ocupada por Kiko, com "Travellers of Time". Num primeiro momento, causa estranheza a opção por não iniciar o show com uma música do disco mais novo (até porque "Newborn Me" também foi a escolhida para abrir os shows da turnê anterior"), mas deve ser exatamente esta a mensagem que a banda quer passar: de continuidade, de progresso controlado, de melhoria e não de ruptura. Algo assim.
A terceira história do ANGRA estava estabelecida, mas o passado não seria esquecido. "Angels and Demons", do aclamado "Temple of Shadows" foi recebida com muitos gritos. O ARMAZEM estava lotado e empolgado. O som estava perfeito.
"Estou muito feliz de estar aqui com a banda mais uma vez em Fortaleza", disse Lione com seu sotaque carregado enquanto pedia para o público levantar as mãos para "Nothing to Say". E se ele quiser nem precisa cantar. O público inteiro já está cantando (e não é só o refrão). No finalzinho, está todo mundo levantando as mãos acompanhando os heys.
Mais uma do novo, a bela "Insania" tem Fabio Lione regendo o público. "Fortaleza, eu quero nesse pedacinho dessa música escutar vocês", disse o mago. E viajando novamente no tempo, chega a linda "Running Alone". Não dá para se esquivar de comentar que é numa hora dessas que faz falta um tecladista no palco. Claro, o custo é maior e há anos que, entra gente, sai gente, mas o quinteto viaja assim mesmo, como um quinteto. Não vão mudar. Mas que faz falta faz. Bem, no fim o que importa é que a canção é linda, se te pega desprevenido, te derruba no chão e faz chorar.
O que vem a seguir é "Caveman", uma das coisas mais empolgantes feitas por uma banda nacional de metal desde, talvez, o "Roots" do SEPULTURA, banda cujas encarnações representa junto com o ANGRA e com o KRISIUN (ou SARCÓFAGO talvez) a sagrada trindade do metal brasileiro lá fora. É nessa hora que eu queria ver um show deles não em Fortaleza, mas na Europa, Japão ou Estados Unidos. Queria ver a gringaiada toda tentando cantar junto com Rafael e Andreoli os versos em português.
Sobre Valverde, que faz solo de bateria logo depois, Lione comenta: "Bruno não é um cara normal. Ele é um monstro". Mas Fortaleza não se rendeu barato. Competiu de igual pra igual nos heys e palmas. Deu trabalho pro moleque. Se ele não se levanta e não toca de pé não encerra a conversa. Embate finalizado, Fortaleza e ANGRA são só alegria aos gritos de "Bruno, Bruno, Bruno" e, depois, "Fábio, Fábio, Fábio". "P... que p...", é a única reação que Fábio consegue ter. A briga foi boa.
Começando com um solo de baixo, "Upper Levels" é progressiva demais, ou seja, linda, antecede uma grande surpresa. Que a cantora SANDY não vira a Fortaleza só para cantar "Black Widow's Web" era óbvio, mas a forma e o tom de Rafael nos vocais substituindo a moça são surpreendentes. Mesmo que hajam gravações no Youtube do show de São Paulo, quando gravaram um DVD, é possível dizer que a maioria ali ainda não tinha ouvido a voz do capiroto soar tão docemente. Ou ainda, não tinha experimentado a brutalidade imposta por Lione nos guturais que divide com Andreoli, fazendo as partes de Alissa White-Gluz (ARCH ENEMY). O homem fica maluco.
Surpresa finda, é no powermetalzão "Spread Your Fire" que o público organiza o bate-bate. Afinal, se teve gutural, tem que ter roda também, né? Não é exatamente uma roda, mas é energia extravasando, violência amigável, movimento suficiente para dizer que, em show do ANGRA tem mosh, sim.
Depois de Rafael, Felipe e Bruno transformarem "Silence Inside", outra linda, em sua festa particular", o guitarrista fundador lembrou novamente que um dos seus primeiros shows do Angra fora de São Paulo, seu estado natal, foi em Fortaleza, novamente relembrando os cearenses Tales, Boi... entre outros que o acolheram aqui quando eram moleques oxigenando novamente o mundo do metal em tempos de grunge. O guitarrista continua no centro do palco para a emocionante "The Bottom of My Soul". Mesmo respeitando e admirando o trabalho de Andre, Edu e Lione, este posto ele tem toda competência para assumir, mas toma apenas em momentos pontuais. Felipe, por sua vez, cuida do bandolim na canção.
O show já se aproxima do final e o público enlouquece quando percebe que a próxima é "Lisbon". E "Magic Mirror", a última do "Omni". Quando eles saem para o "charme do bis", o público fica num "Olê Olê Olê / Angrá Angrá" e não demora pra Fábio voltar para sua mini aula particular de regência.
Rafael perguntou quem curtiu o "Omni", perguntou quem acompanhou o processo de gravação e declarou que este foi o álbum que teve mais contribuições do público. "É óbvio que o que a gente tem hoje a gente não conseguiu sozinho", reconheceu em tributo aos ex-integrantes da banda "que estão, de certa forma, aqui presentes", disse. "Eu tenho muito orgulho dessa atual formação, que eu chamo de formação omni, formação que se consolidou", continuou. "Eu quero uma salva de palmas pra esses caras que estão aqui". E apresentando cada um dos amigos, chamou bruno de jovem gênio pequeno gigante, lembrou que Felipe entrou, há já 18 anos, era muito novo, declarou que Marcelo Barbosa, o mais recente, ajudou a consolidar essa formação, esse momento. "Foi uma grande sorte pra nós ter esse cara que não só teve a responsabilidade de substituir um dos maiores guitarristas do mundo (Kiko Loureiro), vou pedir a bênção pra ele".
Por último ele falou de Fabio, "uma alegria para todos nós, com muita simpatia ele já deixou seu legado no power metal mundial nos representando como latinos". E sobre ele próprio é Felipe quem fala. "Esse cara é a força motriz da banda há 27 anos". E "Rebirth" e "Nova Era" terminam mais este encontro do ANGRA por Fortaleza. E, como sugerem os títulos das canções, a banda está em eterno renascimento para uma nova era. "Não vai ser fácil fazer nos fazer parar", também tinha dito Rafael. E o show é uma espécie de assinatura sob essa declaração.
Agradecimentos:
Empire, especialmente, Maurílio Fernandes, pela atenção e credenciamento.
Rubens Rodrigues, pelas imagens que ilustram esta matéria. Veja mais fotos (todas de Rubens Rodrigues) na galeria desta matéria.
Setlists
JACK THE JOKER
1. Volte Face
2. Sucks
3. Awake
4. Here Again
5. Darkness No More
6. In The Rabbit Hole
7. Brutal Behavior
ANGRA
1. Newborn Me
2. Travelers of Time
3. Angels and Demons
4. Nothing to Say
5. Insania
6. Running Alone
7. Caveman / Drum Solo
8. Upper Levels
9. Black Widow's Web
10. Spread Your Fire
11. ØMNI - Silence Inside
12. The Bottom of My Soul
13. Lisbon
14. Magic Mirror
15. Rebirth
16. Nova Era
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