Black Sabbath: A despedida de Porto Alegre
Resenha - Black Sabbath (FIERGS, Porto Alegre, 28/11/2016)
Por Pedro Antonio Lapinscki Junior
Postado em 02 de dezembro de 2016
E eis que o pilar mais sombrio do casarão chamado rock se despediu de Porto Alegre.
Desde que resolvi ir ao show, decidi que não ficaria tietando e cantando organicamente cada hino sombrio da vasta lista que seria apresentada. Fui determinado a apreciar uma última apresentação, a imergir em releituras de suas peças mais pulsantes.
Impossível não começar uma review do show pela palidez performática do senhor Ozzy Osbourne. Todos sabemos que há alguns anos ele já não desfruta da libido que consagrou seu estilo enérgico nos palcos. Mas neste show ele não conseguiu nem emular sua própria sombra. Foi escravo do microfone que ele sempre dominou por décadas. Se deu 10 passos durante a apresentação foi demais.
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Mas a expectativa em torno dele era diminuta. E este sentimento era antagônico em relação aos músicos. E ah!, os três trataram de deixar o morcego das trevas em segundo plano.
A começar pelo baterista Tonny Clufetos, que se travestiu, literalmente, de Bill Ward como eu jamais esperaria. Já deu seu cartão de visitas em Fairies Wear Boots, entrando em um transe sensorial com Iommi e Geeze, de modo que esta interpretação em solo gaúcho será digna de eterno louvor entre os fãs da banda. Alternou a cadência que o solo do riff master pede com os rolos robustos carregados de vigor. Por muitas vezes pensei que ele decolaria junto com os aviões que subiam e desciam a cada 5 minutos no aeroporto ao lado. Tive pena dos pratos de ataque. Viraram frangalhos. Um legítimo pegasus das baquetas.
E aquele menino quieto no fundo da aula que sempre gabarita os trabalhos sem alarde? Este é Geezer Butler, senhoras e senhores!
Se a cozinha de uma banda é composta por bateria e baixo, foi ele quem inaugurou a cozinha americana no rock, pois a sincronia e o timing que ele dá pro Iommi brilhar é impressionante. Ele produz molduras inigualáveis para a pinacoteca de riffs do Iommi. É o algodão entre os cristais da bateria e da guitarra. Ele ainda transmite uma energia estonteante ao agredir as 4 cordas com slaps robustos e carregados de tesão em seus dedos. Ele consegue ao mesmo tempo protagonizar as ações sem sequer precisar de holofotes, ao passo que aceita o um pseudo-secundarismo no palco. Por diversas vezes a edição o prejudicou em função do Iommi. E o melhor disso é que ele sequer liga, pois como todo garoto crânio do fundo da aula, só quer entregar o melhor trabalho da aula sem que mencionem seu nome.
E o monsieur Iommi? Bem, ele era a estrela da noite, e a expectativa em torno de suas interpretações era altíssima no âmago existencial desse escriba. E ao contrário do pálido morcego, trilhou altos voos pelo céu porto alegrense na sua prancha de 6 cordas. No auge das suas seis décadas ele consegue catapultar percepções em seus escravos sensoriais. Ao vê-lo a plenos motores no limiar de 2017, fica fácil entender porque ele é o guitarrista mais influente da história da música. Construir riffs que transmitem sensações agradavelmente sombrias é uma marca irrevogável de sua estética. Ficou fácil de perceber o quanto ele ainda se preocupa com o ganho de cada nota que ele vai entoar. É um anjo caído que hipnotiza lúcifer com sua irreverência sombria. Ele não toca guitarra. Ele entoa uma amável sordidez bestial através de notas. Notas absurdamente graves, forjadas para servir de gênese de toda uma geração vindoura, que para sempre saberá que ele foi o pioneiro do rock pesado, que precisava de um capitão para navegar papa mares distantes do rockzinho mastigado com chiliquinhos teens na beira do palco à época.
Black Sabbath é o responsável inconteste do início da maturidade do conceito Rock & Roll pesado, que hoje já anda um tanto carente de uma renovação de identidade. Mas nessa identidade velha, sem plástico protetor e rasurada, ainda é possível ler bem claro. Pai: Tony Iommi. O adorável imperador bestial.
Black Sabbath não é uma banda. É um adorável e chocante tratado sobre a gravidade das notas.
Eis o setlist da impecável apresentação instrumental.
Black Sabbath
Fairies Wear Boots
After Forever
Into the Void
Snowblind
War Pigs
Behind the Wall of Sleep
N.I.B.
(with "Bassically" intro)
Rat Salad
(with Tommy Clufetos drum solo)
Iron Man
Dirty Women
Children of the Grave
Encore:
Paranoid
Outras resenhas de Black Sabbath (FIERGS, Porto Alegre, 28/11/2016)
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