Angra: Show em Piedade mostra um grupo muito coeso

Resenha - Angra (Kai-Kan, Piedade, 22/05/2016)

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Por Hugo Leonardo Alves
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

No ano passado, a cidade de Piedade inovou ao incluir em sua tradicional festa anual do caqui uma noite inteiramente dedicada ao Heavy Metal. Naquela ocasião, a grande atração foi o cantor ANDRE MATOS, que iniciava ali sua (muito curta, diga-se de passagem) turnê comemorativa pelos 30 anos de carreira. Neste ano, a noite da música pesada disse “presente” de novo e 2016 viu o ANGRA pisar em terras de Piedade, num show gratuito oferecido pela prefeitura da cidade. É interessante notar que a noite também era de comemoração para a banda, visto que os músicos executaram na íntegra o disco “Holy Land”, um dos mais emblemáticos da história do grupo e do Heavy Metal nacional em geral, que neste ano completa duas décadas de existência.

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O ANGRA hoje é, visualmente, uma grande metamorfose. A banda agora conta com Fabio Lione (Rhapsody of Fire, Visions Divine) nos vocais (desde 2012), Bruno Valverde na bateria (desde 2014), Marcelo Barbosa (Almah) na guitarra (substituindo Kiko Loureiro nos shows que este não pode comparecer, devido aos compromissos com o Megadeth), Felipe Andreoli no baixo (desde 2000) e Rafael Bittencourt na guitarra e na voz (o único membro original ainda na banda). Para alguns, a banda perdeu muito de seu brilho com a troca constante de membros, o que não deixa de ser uma agravante para aqueles mais xiitas em relação ao grupo e sua história. Entretanto, o que se vê é um grupo muito coeso e que está ali, em cima do palco e feliz da vida, valorizando o passado, curtindo o presente e visando um grande futuro em favor daquilo que realmente importa em seu contexto: a música.

Um pouco após as 22h, devido ao mau tempo, o ANGRA entrou no palco executando “Newborn Me”, petardo que também abre seu mais recente disco, “Secret Garden” (2015), e já no primeiro refrão a vitalidade de Fabio Lione assusta, por mais que se conheça o trabalho do cara em suas bandas. Na sequência, “Waiting Silence”, uma canção carregada de emoção, oriunda do último grande trabalho da banda, “Temple of Shadows” (2004) – o melhor da história da banda, na humilde opinião deste que vos escreve. Para fechar a trinca de grandes canções a abrir a presença do grupo em Piedade, uma grata surpresa dos tempos já jurássicos da banda, com “Wings of Reality”, do subestimado “Fireworks” (1998).

Lione é um grande frontman e, quando se fala nesta posição num grupo, fala-se de um grande e carismático comunicador, e isto ele “tira de letra”. Neste momento do show, ressaltou a importância do disco “Holy Land” para a história da banda, do Metal nacional e mundial e anunciou a primeira canção, uma das maiores pedradas da história do conjunto: “Nothing to Say”, executada com toda a perfeição técnica e a musicalidade que a ela competem. Aliás, os ouvidos mais apurados notam que o ANGRA adotou uma postura de mais peso ao tocar suas canções ao vivo com até um tom abaixo em relação as gravações originais, o que proporciona um campo muito mais confortável para o próprio Fabio Lione atuar – aliás, fica aqui um questionamento: será que, se a banda já tivesse adotado essa postura mais empática para com o vocalista, Edu Falaschi ainda estaria na banda? É algo a ser pensado.

Seguindo a sequência natural do disco celebrado na noite, os caras mandaram “Silence and Distance”, que combina muito com a tessitura de Lione, que a cantou com muito carinho. Mas a tranquilidade desta logo deu lugar a toda a brasilidade de “Carolina IV”, uma das canções mais celebradas do catálogo do ANGRA. Incrível como os caras se sentem confortáveis com esta canção – diferente do show no Audio Club em 2014, quando eles quiseram tocar esta depois de alguns anos e notadamente faltou ensaio. A seguir, mandaram a faixa-título que, se não ficou tão espetacular na voz de Lione quanto fica na voz de seu vocalista original Andre Matos, ao menos mostrou o melhor que ele poderia dar numa canção tão alta como esta. Mas, neste bloco, o que surpreendeu de fato foi a atuação de Bruno Valverde em seu solo de bateria. O rapaz toca de um jeito que pende muito mais para o Jazz (no que tange à posição das baquetas em suas mãos), mas dedica um peso e um conjunto de técnicas singulares, conforme é necessário numa banda do naipe do Angra. Naturalmente, o rapaz foi muito aplaudido ao fim de seu número solo.

Apesar de ser uma ótima canção, “The Shaman” foi uma das canções menos celebradas ou cantadas ao longo do show, mas vê-la ao vivo, independente da reação apática dos presentes, foi de fato uma experiência singular. E rapidamente a banda contornou essa apatia, mandando uma de suas canções mais emocionantes em todos os tempos: “Make Believe”. Tanto pela letra como pela melodia, esta é, de fato, uma daquelas canções a ser sempre lembradas, e a prova disto foi que, desta vez, o público a cantou junto a plenos pulmões. Destaque novamente para a performance de Fabio Lione, que surpreende, já que fuma bastante e mesmo assim tem todo este fôlego. A doçura de uma dá lugar à velocidade de outra com a chegada de “Z.I.T.O.” – sim, aquela sigla maldita que todos queremos saber o que significa mas dificilmente os caras da banda um dia explicarão.

Finalizando o disco “Holy Land”, Rafael Bittencourt assume os vocais e manda “Deep Blue” junto à banda e “Lullaby for Lucifer” sozinho, ao violão. O “kapiroto”, como ele mesmo se apresenta, vem assumindo vocais de vários números ao vivo do ANGRA e desempenhando um papel de bom a excelente e, mesmo que sua voz tenha estado levemente mais rouca neste show, com certeza não fez feio, arrancando aplausos do público presente.

Mas cabem aqui parênteses: o público pediu muito por esta turnê onde o ANGRA tocasse seu segundo disco na íntegra, o grupo entendeu a importância disto e agora está atendendo a este desejo. Entretanto, ficou provado que tocar o “Holy Land” na íntegra prejudica um pouco o andamento do show. O disco tem várias “power ballads” e mesmo algumas canções mais rápidas e/ ou pesadas têm lá seus momentos mais soturnos ou melancólicos. Fica aquela sensação de que o show vai engatar, mas está sempre voltando e acalmando. Talvez tivesse sido o caso de, na turnê de 20 anos do primeiro disco, o mega-clássico-arrasa-quarteirão “Angels Cry”, ter tocado o disco inteiro (algumas canções, como “Lasting Child” e “Never Understand”, fizeram muita falta nos shows) e, nesta nova comemoração, selecionar somente os números que funcionarem melhor ao vivo e não “quebrarem” o show, como aconteceu neste show em Piedade. Ou então espalhar as canções do disso ao longo da setlist talvez fosse uma outra ideia que funcionasse bem. Que faça-se justiça: em nenhum momento o show ficou ruim – longe disto! – mas foram vários momentos “parados” demais.

Voltando à resenha, Bittencourt permaneceu sentado com seu violão e executou “Silent Call”, canção bastante recente que ele mesmo canta na versão em estúdio – e como canta, que bela canção! Toda esta melancolia logo deu lugar ao peso de “Final Light”, outra de “Secret Garden”, mas que foi soterrada pela importância histórica e até mesmo pela qualidade de “Time”, única do primeiro disco da banda que se fez presente na setlist. A última canção do mais recente disco da banda a ser executada no show foi “Storm of Emotions”, na qual Lione e Bittencourt dividem os vocais de maneira não menos que espetacular.

O show vinha se aproximando do fim – até pelo avançar do horário, já que se tratava de um Domingo – e, sem aviso, a banda chuta tudo com outro petardo do “Temple of Shadows”: “Angels and Demons”, uma das canções mais difíceis do catálogo deles, mas que todos tocam com a maior facilidade do mundo. Aliás, aqui cabe um grande elogio ao Marcelo Barbosa (que o Bittencourt chamou de “Marcelo Ferreira” em algum momento): ele não está substituindo qualquer guitarrista, mas Kiko Loureiro, e todos sabemos que isso significa ter a obrigação de ser no mínimo tão bom quanto, e com toda a sua serenidade em cima do palco, Barbosa fez bonito demais!

Bittencourt fez que perguntou ao produtor se a banda poderia tocar mais uma e, no fim, vieram as duas que quase todo mundo que acompanha de perto a banda sabia que viriam: “Rebirth”, cantanda pela plateia com toda a emoção cabível ao momento, e “Nova Era”, festejada por todos (apesar dos insistentes pedidos por “Carry on”, atitude que precisa ter um fim, pois a banda entende que esta canção, por diversos motivos, não cabe mais em suas setlists e agora dá lugar a outras canções tão boas quanto, ou até melhores). Ponto final em uma grande apresentação do ANGRA e um grande presente ao público da cidade de Piedade e de outras cidades ao redor (como este que vos escreve, que saiu de Sorocaba para ver o espetáculo).

Agradecimentos ao vereador de Piedade Caio Martori por acreditar tanto no Metal nacional e, na contramão de tudo o que vem acontecendo no cenário político e de todas as portas fechadas para a música nacional no âmbito de desenvolvimento (?) cultural do país, e ainda mais numa cidade do interior, inevitavelmente dominada por estilos musicais mais populares, por assim dizer, dedicar uma noite inteira a um estilo musical tão amado e ao mesmo tempo tão negligenciado. Caio tem sido um verdadeiro herói nesse sentido! Mais agradecimentos ao amigo Alexandre Goes pelas fotos que complementam esta resenha e à Camila Truchlaeff pela companhia não menos que perfeita nesta noite.

SETLIST:

01. Newborn Me
02. Waiting Silence
03. Wings of Reality
04. Nothing to Say
05. Silence and Distance
06. Carolina IV
07. Holy Land
08. Solo de bateria, por Bruno Valverde
09. The Shaman
10. Make Believe
11. Z.I.T.O.
12. Deep Blue
13. Lullaby for Lucifer
14. Silent Call
15. Final Light
16. Time
17. Storm of Emotions
18. Angels and Demons
19. Rebirth
20. Nova Era

(E não, as intros “Crossing” e “In Excelsis” não foram tocadas nos PAs.)

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