Brujeria em SP: Os Pititis concubinos do inferno foram invocados

Resenha - Brujeria (Clash Club, São Paulo, 09/03/2014)

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Por Durr Campos
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


























Ainda na primeira metade da década de 1990 a gravadora nova-iorquina Roadrunner parecia ter bastante ousadia ao colocar nas prateleiras álbuns inusitados como “Point Blank” (1994), único registro de estúdio do Nailbomb de Max Cavalera, item que trazia na capa uma vietnamita tendo uma arma apontada em sua cabeça por um membro das forças armadas dos EUA. Um ano antes, porém, chegava às minhas mãos algo de conteúdo ainda mais extremo, o controverso “Matando Güeros” de um até então misteriosíssimo grupo chamado BRUJERIA.

Texto: Durr Campos
Fotos: Diego Cabral da Camara

O bolachão mostrava uma cabeça decapitada que viria em seguida a ser denominada de ‘Coco Loco’, apesar dos rumores de que se tratava de um certo Mario Rios (fonte: dirtcitychronicles). Meu interesse só cresceu quando soube que membros de algumas de minhas bandas favoritas, Napalm Death, Carcass, Faith No More e Fear Factory estavam envolvidos. Eu ouvia direto tentando entender o conceito do projeto e buscando relacionar aqueles temas envolvendo satanismo, anticristianismo, sexo, imigração ilegal, tráfico de drogas e política. Nessa quarta visita ao Brasil o line-up sofreu algumas alterações, mas a qualidade sonora manteve-se intacta se lembrarmos daquele insano concerto há dois anos. Vamos ao resumo da catástrofe ocorrida na Clash.

Seja embaixo de chuva, como ocorreu na porta do Carioca Club quando o Meshuggah tocou em novembro do ano passado ou aquecendo o público na entrada da via Marquês pouco antes das apresentações de D.R.I. e Benediction no mês seguinte, o fato é que acompanhar um show do TEST será sempre um prazer a este que vos escreve. Um dos nomes mais cult e atuantes do grindcore atual, possuem na bagagem demos, DVDs não oficiais, um 7” EP e seu debut "Arabe Macabre", lançado em CD e LP. A formação consiste apenas em um duo formado por João Kombi (vocal/guitarra) e o inacreditável baterista Thiago Barata. As composições são curtas como pede o grindcore com pitadas de black metal praticado, mas como eu já escrevi anteriormente, a metodologia do Test imprime novas configurações sempre que executadas no palco. Se João precisa tomar um gole de sua breja ou o Barata passar uma toalha na cara, é preciso apenas um olhar para que a música seja entoada de modo quase matemático. Destaques? Eu tento anotar os nomes dos ritos, mas nem mesmo eles sabem me dizer quais tocaram ao final da pancadaria. “Nós vamos tocando o que vem à cabeça”, me disse Kombi naquela noite. Lembro-me de ter batizado uma de suas obras por “Atormentado pela Maldição”, o que foi um erro. Porém recebi tempos depois um feedback de seu criador dizendo que adorou a nova alcunha. É simpatia demais para um músico só, fala a verdade. Por essas e outras eu sempre digo: onde o Test vai eu vou atrás!

Line-up
João Kombi – vocais/guitarras
Thiago Barata - bateria

Ali na Clash os músicos passam pelo público até chegarem ao palco, cortando caminho pelo camarote, local onde estávamos. Ver de perto Shane Embury (Napalm Death), Jeff Walker (Carcass) e Nicholas Barker (ex-Cradle of Filth, Dimmu Borgir, Benediction, etc.) dá aquela impressão de que algo muito brutal está por vir. Juntar essas “crianças” só poderia ser responsabilidade do Brujo mesmo, criatura mítica e emblemática responsável pelas principais linhas vocais no Brujeria. O peso-pesado estava em noite inspirada e comunicava-se muito bem, sempre em espanhol, assim como Fantasma que desta vez veio apenas para cantar. Dupla descontraída e talentosa, foi muito bom ver iniciando o show com “Verga del Brujo”, do já citado “Matando Güeros”, seguida de “El Desmadre” de “Brujerizmo” (2000), disco mais lembrado na ocasião com sete temas apresentados. Como eu disse acima a comunicação estava bastante amistosa e a proximidade das línguas gerava uma empatia extra.

A veloz “Colas de Rata” é bem no estilão do Brujeria. Gostando desta fica mais fácil trilhar com os bandoleiros. Fantasma então diz que há muitas cópias da banda por aí, mas os verdadeiros fãs “No Aceptan Imitaciones”. Era hora desta pérola hardcore deixar a massa ainda mais alucinada do que já estava desde os primeiros acordes ecoados na casa. Ele novamente: “Sempre recrutamos novos soldados. Quem é aqui? Preparem-se para a marcha!” Deixa perfeita para “Marcha de Odio” e seu discurso antirracismo. O aclamado “Raza Odiada” (1995) retorna com uma de suas mais fortes, “Hechando Chingasos (Greñudos Locos II)”. Que levada desgraçada de boa esta possui, a forma como Brujo a cantou provocou arrepios. “Foda!”, como perfeitamente disse um colega de profissão ao meu lado.

A nova “Ángel de La Frontera” foi muito bem recebida e assegurou que teremos algo do nível que estamos acostumados quando o assunto é Brujeria. Ao final dela vimos Shane todo atrapalhado com os cabos de sua guitarra e os do microfone de Juan. Este último livrou-se logo do pequeno problema, mas com Embury levou um pouco mais de tempo até recuperar o som de seu instrumento. Ele deu um sinal de “podem prosseguir sem mim” ideal para o outro guitarrista, Cuernito, entregar o que se seguiria: “La Migra”. O mosh-pit estava ao mesmo tempo feroz e convidativo, mas mesmo em meio a chutes, pontapés, empurrões e corpos suados em deslize frenético, podia-se ouvir um Clash Club cantando em uníssono os versos daquele hino. Antes daquele trecho inicial, Fantasma e Brujo brincaram um pouco entre si e com sua audiência, até que puxaram o coro em “¿Cuánto quiere ese coyote?/ Diez mil pesos/ Pa todos?/ No, Jefe, Pa cada uno/ Pinché coyote ladrón, hay que joder al güey…” (Nota do redator: Em tradução livre, algo como “Quanto quer por esse coiote?/ Dez mil pesos/ Pra todos?/ Não chefe, pra cada um/ Porra coiote ladrão quer foder o cara?”)

Nem bem “La migra la migra te coje en el hoyo/ La migra, la migra, la migra, la migra” era deixada de ser berrada pela galera e outra das mais recentes, “Pocho Aztlan”, tomava seu posto. A fúria está intacta nas composições do Brujeria, mesmo que algumas delas soem um tanto genéricas, como é o caso desta. Ruim? Nem de longe, mas sem maiores novidades em sua confecção, ainda mais quando “Sida de La Mente” é a que segue. Uma das favoritas, causou geral e elevou, literalmente, a temperatura interna daquele lugar. Confira o momento registrado por um fã ao final do texto.

Já “Satongo” é uma recente que funciona bem mais com o antigo material. A canção que fala do monstro parte homem parte besta parte “hongo” reúne em poucos minutos alguns dos elementos que nos fazem adorar o Brujeria. Nosso fotógrafo Diego fez um vídeo muito bacana desta, inclusive. Aliás, ele fez um para “Pocho Aztlan” também. Assista ambos ao final deste parágrafo. “Cuiden a Los Niños” é uma das mais interessantes, assim como sua letra: “Por fé en dios sigues viviendo/ Por tus hijos un día mueres/ Niños solos buscan satán/ Los demonios los molestan/ Sin fé en dios sigues viviendo” (Nota do redator: “Com fé em Deus segues vivendo/ Por teus filhos um dia morres/ Crianças apenas buscam satã/ Os demônios os molestam/ Sem fé em Deus segues vivendo”, em tradução livre).

Fantasma aproveita para apresentar a banda e o fez de modo tão espontâneo e bem-humorado que ninguém parecia se importar com o tempo que aquilo tudo levou. Aproveitaram para retomar a empolgação extrema do público e deu o chamado de guerra para ser correspondido. Gritava “Hoy BRUJERIZMO pa tí” e as pessoas completavam singelamente: “Satanismo!” Após umas quatro vezes nessa, atacam de “Brujerizmo”, um clássico. Fantasma então falou do Programa Mais Médicos do nosso Governo Federal e criticou o fato de haver Cubanos (Nota do redator: Ele também é, inclusive) aqui no Brasil. “Mais empregos aos brasileiros!”, bradou para ficar bem na fita com os tupiniquins. Na verdade o discurso era para engatilhar “Anti-Castro”, cujo título entrega seu conteúdo lírico. Coladinha com ela, a pró-Exército Zapatista “Revolución” fala da organização armada famosa por defender direitos coletivos e individuais negados aos povos indígenas mexicanos. Uma de minhas favoritas e pela reação coletiva sei que não estou sozinho nessa.

A derradeira parte do concerto trouxe um apanhado de músicas bem satisfatório, a começar pelas ótimas “La Ley de Plomo” e “Cruza La Frontera”, esta uma pérola de “Matando Güeros”. Fantasma, sempre ele, diz que gostaria de saber se os presentes gostariam de seguir os passos de Pancho Villa (Nota do redator: Pseudônimo de José Doroteo Arango, um dos mais conhecidos generais e comandantes da Revolução Mexicana, conflito armado com início em 20 de novembro de 1910 e historicamente conhecido como o acontecimento político e social mais importante do século XX no México. Villa foi morto em uma emboscada organizada pela polícia secreta e pelos pistoleiros de familiares de antigas vítimas. Levou 47 tiros em seu automóvel quando dirigia-se a uma festa no dia 20 de julho de 1923). Pela resposta positiva dispararam “Division del Norte” e a guerra estava declarada!

Antes de “Consejos Narcos”, Brujo brincava com o público: “Maconha?” – “Sim!”; “Pó?” –“Não!” (Nota do redator: do original na letra “Marihuana – si/ El polvo – no...”). Daí seguiram mandando ver “Las leyes narcos/ Hay que obedecer/ El brujo da consejos/ Oiganme pendejos/ Con gueros – si/ Con negros – no…” em uma das letras mais doidonas e polêmicas do Brujeria. “Pito Wilson” é bastante conhecida dos que abraçaram a proposta da banda no EP “Marijuana” (2000). Quem se lembra de que as primeiras cópias em LP vinham com palitos de fósforo dentro? Os caras sabiam mesmo como perturbar os republicanos norte-americanos. A letra é das mais escancaradas e versa sobre Peter Barton "Pete" Wilson, político do estado da Califórnia famoso por sua postura severa contra imigrantes ilegais nos EUA. Relembre alguns versos do poema: “Pito Wilson, o rei dos racistas/ Pito Wilson será presidente/ Pito Wilson quer te ver morto/ Pito Wilson, o cristo do ódio./ Irmãos mexicanos, não sejam idiotas/ O holocausto da raça já está começando...”.

Mesmo com o avançar da hora tinha gente ali do palco até a porta. Assim, quando anunciaram o hino “Matando Güeros” o negócio ficou bonito demais! Os caras ainda são relevantes, goste disso ou não. A prova está na turnê repleta de datas no país, incluindo uma em Manaus também com o Test, além de Palmas, Rio de Janeiro, Brasília e por aí vai. Os Pititis concubinos do inferno foram invocados e o Brujo Cirujano & Cia. deixaram ninguém sair dali sem um sorrisão estampado no rosto. Hasta la vista, cabrones!

Line-up
Juan Brujo (John Lepe) - vocais
Pinche Peach - vocais, samples – não veio
Fantasma (Pat Hoed) - vocais
El Cynico (Jeffrey Walker) - baixo, vocais
Hongo (Shane Embury) - guitarra
Hongo Jr. (Nicholas Barker) – bacteria
Cuernito - guitarra

Set-list Brujeria
Verga del brujo
El desmadre
Colas de rata
No aceptan imitaciones
Marcha de odio
Hechando chingasos
Ángel de la frontera
La migra
Pocho Aztlan
Sida de la mente
Satongo
Cuiden a los niños
Brujerizmo
Anti-Castro
Revolución
La ley de plomo
Cruza la frontera
Division del norte
Consejos narcos
Pito Wilson
Matando güeros

Links Relacionados Test
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Links Relacionados Brujeria
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Sobre Durr Campos

Graduado em Jornalismo, o autor já atuou em diversos segmentos de sua área, mas a paixão pela música que tanto ama sempre falou mais alto e lá foi ele se aventurar pela Europa, onde reside atualmente e possui família. Lendo seus diversos artigos, reviews e traduções publicados aqui no site, pode-se ter uma ideia do leque de estilos que fazem sua cabeça. Como costuma dizer, não vê problema algum em colocar para tocar Napalm Death, seguido de algo do New Order ou Depeche Mode, daí viajar com Deep Purple, bailar com Journey, dar um tapa na Bay Area e finalizar o dia com alguma coisa do ABBA ou Impetigo.

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